Sensibilidade muscular: o cinema de Tony Scott

Cinema

21.08.12

Anteontem, era domin­go, fazia sol e Tony Scott saiu de casa. Estacionou seu Toyota Prius no acos­ta­men­to de uma das pis­tas da Vincent Thomas Bridge, na gran­de Los Angeles, sal­tou a cer­ca de pro­te­ção e subiu em dire­ção à pon­te por vol­ta do meio-dia. Meia hora depois, pulou da pon­te e encer­rou sua bio­gra­fia.

Era um dos dire­to­res mais bem suce­di­dos de Hollywood, embo­ra não fos­se dos mais pre­mi­a­dos ou mais reco­nhe­ci­dos — esse papel cabe­ria melhor para seu irmão, Ridley Scott. Ao con­trá­rio dele, Tony nun­ca foi cele­bra­do como um talen­to pro­mis­sor ou um dos gran­des de Hollywood — Ridley teve dois gran­des momen­tos em sua car­rei­ra, quan­do apa­re­ceu pela pri­mei­ra vez com uma sequên­cia de fil­mes magis­tral (Os due­lis­tas, o pri­mei­ro Alien, Blade Runner) e depois quan­do se esta­be­le­ceu como dire­tor de épi­cos caça-Oscar (Gladiador, Falcão negro em peri­go, O Gângster, Robin Hood).

 

O icô­ni­co esti­lo oiten­tis­ta de Top Gun

Já Tony pas­sou lon­ge des­ses trun­fos — embo­ra seus fil­mes fos­sem igual­men­te popu­la­res. A come­çar pelos dois veí­cu­los que esta­be­le­ce­ram a car­rei­ra de Tom Cruise como astro — Top Gun (1986) e Dias de tro­vão (1990) -, pas­san­do pelo segun­do fil­me da série Um tira da pesa­da (1987), com Eddie Murphy (daque­les raros casos em que a sequên­cia supe­ra o ori­gi­nal) e pelo fil­me que con­so­li­dou Bruce Willis como astro de fil­mes de ação, O últi­mo Boy Scout (1991).

Eram os fil­mes do iní­cio da car­rei­ra de Tony que, dife­ren­te da de seu irmão, man­te­ve-se fiel a dois temas: a ten­são e a velo­ci­da­de. Tanto os rachas entre jatos mili­ta­res de Top Gun quan­to as cor­ri­das de stock car de Dias de tro­vão tinham paren­tes­co com os trens desen­fre­a­dos de seus fil­mes mais recen­tes (O seques­tro do metrô 123, de 2009, e Incontrolável, de 2010). E quan­do não eram vei­cu­los ras­gan­do o asfal­to, o cli­ma era de des­con­fi­an­ça e para­noia, tan­to no claus­tro­fó­bi­co Maré ver­me­lha (1995), no ten­so Inimigo do Estado (1998) ou no des­con­fi­a­do Jogo de espiões (2001).

Filmes duros e fri­os, con­si­de­ra­dos sem alma pela crí­ti­ca ciné­fi­la, mas tec­ni­ca­men­te per­fei­tos — como devem ser os fil­mes de ação. Nem atu­a­ções pífi­as como as de Tom Cruise com­pro­me­ti­am o anda­men­to e a adre­na­li­na e mes­mo cer­can­do-se de ato­res com­pe­ten­tes (seu alter ego mais recen­te era Denzel Washington, com quem fez qua­tro fil­mes) não dei­xa­va os per­so­na­gens cres­ce­rem para além do que con­si­de­ra­va pri­mor­di­al em suas pre­mis­sas: situ­a­ções-limi­te, dis­pu­tas de poder, deci­sões que pre­ci­sa­vam ser toma­das com urgên­cia. Era cine­ma com sen­si­bi­li­da­de mus­cu­lar, sem tem­po para deva­nei­os ou elu­cu­bra­ções, sem espa­ço para titu­bei­os ou sobres­sal­tos.

Da mes­ma for­ma que não se pren­dia à arte cine­ma­to­grá­fi­ca — tra­tan­do o cine­ma como uma máqui­na — tam­bém não fica­va res­tri­to a um tipo de for­ma­to de nar­ra­ti­va, indo do cine­ma para o docu­men­tá­rio, para a TV, para os vide­o­cli­pes e comer­ci­ais de TV. Num deles, colo­cou James Brown e Marilyn Manson num comer­ci­al para a BMW. Num outro colo­cou George Michael num úni­co quar­to no cli­pe de “One More Try”, quan­do os cli­pes come­ça­ram a ficar caros e super­pro­du­zi­dos.

Seus dois mai­o­res momen­tos, no entan­to, tal­vez sejam fil­mes que não tenham tan­to impac­to popu­lar — não como Top Gun ou Inimigo do Estado. Em Amor à quei­ma rou­pa (1993), pegou o rotei­ro de um cer­to nova­to conhe­ci­do por alte­rar a ordem da nar­ra­ti­va de seus fil­mes (um tal Quentin Tarantino) e colo­cou-o na ordem cer­ta, line­ar — esco­lhen­do Val Kilmer, que havia aca­ba­do de inter­pre­tar Jim Morrison num fil­me de Olvier Stone, para faze­ro papel de Elvis Presley. Dez anos depois, em Deja-Vu (2006), seu melhor fil­me com Denzel Washington, rein­ven­ta o con­cei­to de máqui­na do tem­po como um recur­so téc­ni­co poli­ci­al.

 

Cena do fil­me Amor à quei­ma rou­pa

Contudo, seu momen­to mais memo­rá­vel, e inu­si­ta­do, dado ao rumo que levou sua car­rei­ra, é a aber­tu­ra de Fome de viver (1983), seu pri­mei­rís­si­mo fil­me, — que, mes­mo com David Bowie e Catherine Deneuve num fil­me de vam­pi­ros dos anos 80, não foi redes­co­ber­to pelas gera­ções que se encan­tam com o calor sexy da série True Blood ou o roman­tis­mo platô­ni­co emo dos livros e fil­mes da saga Crepúsculo.

http://www.youtube.com/watch?v=L852uDRskQg

Antes de se jogar da pon­te, Tony Scott havia dei­xa­do um bilhe­te sui­ci­da em seu car­ro, cujo con­teú­do ain­da não havia sido reve­la­do pela polí­cia. Mas des­con­fi­a­va-se que ele vinha atra­ves­san­do um cân­cer que havia sido diag­nos­ti­ca­do como sen­do intra­tá­vel — a famí­lia dele nega. Verdade ou fic­ção, nes­sa ver­são ele deci­de não per­der a bri­ga para a vida e faz como os per­so­na­gens de seus fil­mes — assu­me a res­pon­sa­bi­li­da­de e ele mes­mo se mata.

Tony Scott não era um fra­co.

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