Sexo, religião e política

Colunistas

10.09.14

Passei o fim de sema­na na praia, em êxta­se, len­do as fic­ções de Bataille. Os per­so­na­gens dos roman­ces de Bataille (se é que esses per­so­na­gens podem ser cha­ma­dos per­so­na­gens e se é que esses roman­ces podem ser cha­ma­dos roman­ces) tran­sam de todos os jei­tos, expe­ri­men­tam todo tipo de pra­zer, sem­pre com mais inten­si­da­de e mais inven­ti­vi­da­de, sem res­tri­ções, até o limi­te de seus “cor­pos exces­si­vos”, como escre­ve Denis Hollier no pre­fá­cio à edi­ção dos “Romances e Relatos”, publi­ca­da em 2004 na cole­ção da Pléiade. Meu êxta­se, entre­tan­to, deve menos ao extra­or­di­ná­rio aspec­to “por­no­grá­fi­co” des­sas fic­ções do que ao que elas repre­sen­tam para a lite­ra­tu­ra hoje, quan­do a prá­ti­ca lite­rá­ria pare­ce ter che­ga­do ao apo­geu da domes­ti­ca­ção nar­ci­sis­ta e pro­fis­si­o­nal.

Bataille é um antí­do­to às duas coi­sas. A lite­ra­tu­ra para ele não é obra de ten­ta­ti­vas esté­ti­cas mais ou menos bem-suce­di­das, mais ou menos bem-aca­ba­das, mais ou menos mere­ce­do­ras e caren­tes da admi­ra­ção do lei­tor e da crí­ti­ca. A lite­ra­tu­ra para ele é par­te da vida e suas con­sequên­ci­as não devem se limi­tar à lei­tu­ra ou se sub­me­ter ao gos­to do lei­tor, a uma supos­ta qua­li­da­de do tex­to ou à con­se­quen­te con­sa­gra­ção do autor. A lite­ra­tu­ra é ação e, como tal, deve afe­tar e modi­fi­car aque­les que entram em con­ta­to com ela, mui­tas vezes em con­tra­di­ção (ou em con­fron­to dire­to) com o gos­to do lei­tor.

Bataille não exal­ta a bele­za do tex­to (na ver­da­de, ele com­ba­te aber­ta­men­te o poé­ti­co e o lite­rá­rio), por­que o tex­to que ele bus­ca (um tex­to con­si­de­ra­do por mui­tos lite­ra­ri­a­men­te pobre) não é fim, mas alu­são pos­sí­vel a outro tex­to tão radi­cal quan­to impos­sí­vel de ser escri­to. A lite­ra­tu­ra para­do­xal que ele exer­ce, uma lite­ra­tu­ra que se faz sinô­ni­mo de ero­tis­mo (mas de um ero­tis­mo que se con­fun­de com o mís­ti­co e com a mor­te), é meio e não fim; ela é ins­tru­men­to de uma modi­fi­ca­ção da cons­ci­ên­cia e, por­tan­to, tam­bém uma (outra) manei­ra de pen­sar (Bataille recor­ria à fic­ção quan­do o tex­to ensaís­ti­co atin­gia seu limi­te).

A dife­ren­ça entre Bataille e os sur­re­a­lis­tas vem da sua recu­sa a se dei­xar cir­cuns­cre­ver ao âmbi­to “lite­rá­rio” do roman­ce, do ima­gi­ná­rio e do sonho. Sob influên­cia de Sade, a asso­ci­a­ção entre ero­tis­mo e mor­te (a cor­res­pon­dên­cia entre a impes­so­a­li­da­de da orgia e o ano­ni­ma­to da mor­te, por exem­plo) pôs Bataille em rota de coli­são com os sur­re­a­lis­tas. Sua lite­ra­tu­ra está impreg­na­da de uma visão dema­si­a­do radi­cal da antro­po­lo­gia e da expe­ri­ên­cia mís­ti­ca para poder com­por­tar sem pro­ble­mas a ideia de autor. Seu ero­tis­mo tem a ver com Deus e com a mor­te de Deus. O dese­jo dos per­so­na­gens, a impul­si­vi­da­de sexu­al que os guia e que a mui­tos pode pare­cer ani­ma­les­ca, é pre­ci­sa­men­te o que os tor­na tão huma­nos, sem que para isso eles pre­ci­sem ser psi­co­ló­gi­cos, sem que pre­ci­sem obe­de­cer às regras de uma veros­si­mi­lhan­ça rea­lis­ta, sem que pre­ci­sem fazer a nar­ra­ti­va roma­nes­ca “fun­ci­o­nar”, sem que pre­ci­sem pare­cer “de car­ne e osso”. É o sexo “exces­si­vo” que lhes dá não só huma­ni­da­de, mas põe seus cor­pos no lugar de Deus e os divi­ni­za.

O orga­ni­za­dor da edi­ção da Pléiade, Jean-François Louette, escre­ve na intro­du­ção que “o tex­to eró­ti­co é um sacri­fí­cio, no sen­ti­do eti­mo­ló­gi­co do ter­mo: ele pro­duz o sagra­do”. Bataille conhe­cia bem o ensaio de Marcel Mauss sobre o sacri­fí­cio e sabia que, no sacri­fí­cio, “é sem­pre o deus quem é exe­cu­ta­do atra­vés da víti­ma”. Para Bataille, a lite­ra­tu­ra é a “her­dei­ra essen­ci­al” do sacri­fí­cio reli­gi­o­so, a come­çar pela tra­gé­dia e pela que­da do herói.

Foucault defi­niu a trans­gres­são em Bataille como “pro­fa­na­ção num mun­do que já não atri­bui sen­ti­do posi­ti­vo ao sagra­do”. O ero­tis­mo de Bataille não é ape­nas trans­gres­são, mas meio de aces­so a um sagra­do trans­bor­dan­te, exces­si­vo, infor­ma­do por Sade, por Nietzsche e pela antro­po­lo­gia, para além do sagra­do cris­tão, que ele pro­fa­na. Bataille quer fazer a lite­ra­tu­ra ocu­par o lugar do mito num mun­do sem mito­lo­gia.  

Num arti­go publi­ca­do em 1933–34 com o títu­lo “A estru­tu­ra psi­co­ló­gi­ca do fas­cis­mo”, ele enu­me­ra três “for­mas impe­ra­ti­vas” de auto­ri­da­de fas­cis­ta: a reli­gi­o­sa, a real (do rei) e a mili­tar. Em sua fic­ção, ele avan­ça con­tra as três, mas é com a reli­gi­o­sa que ele bate de fren­te. Hoje, tudo indi­ca que a auto­ri­da­de reli­gi­o­sa tomou a dian­tei­ra, com a dis­se­mi­na­ção dos fun­da­men­ta­lis­mos. O pro­ble­ma é que a reli­gião cos­tu­ma ser moral­men­te jus­ti­fi­cá­vel até segun­da ordem; ela é con­si­de­ra­da “ino­fen­si­va” até pas­sar a se imis­cuir na polí­ti­ca e a alme­jar o poder (o que ela aca­ba­rá ten­tan­do, sem­pre, onde não hou­ver leis para pro­te­ger o Estado lai­co), para poder impor seus valo­res não ape­nas aos cren­tes, mas aos cida­dãos trans­for­ma­dos em fiéis. O peri­go sur­ge na hora em que ten­tam nos con­ven­cer de que a reli­gião está cir­cuns­cri­ta ao âmbi­to de suas fun­ções e espe­ci­fi­ci­da­des (assim como o mili­tar no quar­tel, o reli­gi­o­so na igre­ja) e quan­do nos damos con­ta, já é tar­de, já esta­mos sub­me­ti­dos ao poder irra­ci­o­nal dos repre­sen­tan­tes de Deus, sob suas ordens e seus coman­dos, sem nem ter que entrar em igre­ja nenhu­ma.

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