William Shakespeare (1564-1616)

William Shakespeare (1564-1616)

Shakespeare, cinema e leituras

Em cartaz

25.11.16

Em um de seus prin­ci­pais livros, o alen­ta­do ensaio A inven­ção do huma­no, o crí­ti­co lite­rá­rio ame­ri­ca­no Harold Bloom atri­bui a tare­fa do títu­lo não a Deus, ou aos deu­ses, mas a um homem: William Shakespeare. Para Bloom, o geni­al dra­ma­tur­go e poe­ta inglês, nas­ci­do em Stratford-upon-Avon em 1564, dei­xou como lega­do todo um arca­bou­ço psi­co­ló­gi­co, até então ine­xis­ten­te na lite­ra­tu­ra, lapi­da­do em his­tó­ri­as de amor, lou­cu­ra, ciú­me, dese­jos e vio­lên­cia,  ergui­do sobre per­so­na­gens que pro­cu­ram den­tro de si res­pos­tas, às vezes reden­ção, num lon­go e desa­fi­a­dor pro­ces­so de auto­co­nhe­ci­men­to.

Essa é uma das razões para que em 2016, qua­tro­cen­tos anos depois da mor­te do bar­do, sua obra con­ti­nue atu­al e ain­da ins­pi­re múl­ti­plas lei­tu­ras, como evi­den­cia o ciclo Shakespeare e Cinema, que ocu­pa­rá a Sala José Carlos Avellar no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro entre os dias 1º e 11 de dezem­bro. A mos­tra, que tem a par­ce­ria do British Council, leva­rá ao públi­co diver­sas ver­sões e inter­pre­ta­ções da obra do dra­ma­tur­go.

A sele­ção inclui des­de o clás­si­co Hamlet (1948), de Laurence Olivier – ator sha­kes­pe­a­ri­a­no até a medu­la, que já fize­ra Henrique V em 1944, e vol­ta­ria a Shakespeare depois –, à moder­ni­da­de de Derek Jarman (com sua ver­são para A tem­pes­ta­de, de 1979, e The Angelic Conversation, de 1985, cola­gem que tem como fio con­du­tor a lei­tu­ra, por Judi Dench, de alguns dos 126 sone­tos amo­ro­sos de Shakespeare diri­gi­dos a um rapaz). Há ain­da adap­ta­ções de Rei Lear (de Peter Brook, em 1970, e do rus­so Grigori Kozintsev, de 1971), de Macbeth (de Roman Polanski, em 1971, e de Akira Kurosawa, que em Trono man­cha­do de san­gue, de 1957, transpôs a his­tó­ria ori­gi­nal para o Japão feu­dal), e Júlio César (em César deve mor­rer, dos Irmãos Taviani, de 2012, que acom­pa­nha­ram a mon­ta­gem da obra de Shakespeare por deten­tos de um pre­sí­dio de segu­ran­ça máxi­ma na Itália). Sem esque­cer a tra­gé­dia român­ti­ca Romeu e Julieta (1968), sob a regên­cia do ita­li­a­no Franco Zefirelli, que cati­vou os espec­ta­do­res com um belo casal de ado­les­cen­tes como pro­ta­go­nis­tas (Leonard Whiting e Olivia Hussey, lin­di­nhos na flor dos seus 16 e 15 anos, res­pec­ti­va­men­te).

Para lem­brar os 400 anos sem (ou com) Shakespeare, e cele­brar o ciclo, o IMS con­vi­dou algu­mas pes­so­as para lerem e comen­ta­rem, em vídeo, tre­chos da obra do dra­ma­tur­go. A fotó­gra­fa ingle­sa Maureen Bisilliat, radi­ca­da no Brasil des­de os anos 1950 e que tem a obra com­ple­ta incor­po­ra­da ao acer­vo do IMS des­de 2003, faz a lei­tu­ra do “Soneto 116”, que tece con­si­de­ra­ções sobre a essên­cia do amor. Essência, aliás, da qual Maureen dis­cor­da vee­men­te­men­te, como se pode ver no vídeo. “A manei­ra como ele une as pala­vras… pare­ce que elas voam. Embora não este­ja­mos con­ven­ci­dos do que ele está falan­do. Acho que isso é irre­al”, alfi­ne­ta ela, entre risos.

O ator Gustavo Gasparani, que con­ta ter toma­do con­ta­to com Shakespeare ain­da ado­les­cen­te, com  Hamlet, lê um tre­cho de Ricardo III, que ele inter­pre­tou recen­te­men­te nos pal­cos, trans­for­ma­do num lon­go monó­lo­go acla­ma­do pela crí­ti­ca. Ricardo III tam­bém se faz pre­sen­te na mos­tra de cine­ma, com uma inter­pre­ta­ção de 1995 do dire­tor Richard Loncraine, que ambi­en­ta a his­tó­ria da cobi­ça pelo poder nos anos 1930, trans­for­man­do o pro­ta­go­nis­ta num dita­dor fas­cis­ta.

A pes­qui­sa­do­ra e pro­fes­so­ra Marta de Senna, pre­si­den­te da Fundação Casa de Rui Barbosa, des­ta­ca a pre­sen­ça monu­men­tal que o dra­ma­tur­go inglês teve na obra do bra­si­lei­ro. “Em Machado Shakespeare é assi­mi­la­do de uma for­ma mui­to com­ple­xa, mui­to fecun­da”, lem­bra ela no vídeo. “Desde o res­pei­to mais sole­ne a uma irre­ve­rên­cia ter­rí­vel no tra­to do bar­do, Machado osci­la por ati­tu­des dia­me­tral­men­te dife­ren­tes. Mas é uma espé­cie de fixa­ção que ele tem por Shakespeare”.

Marta, auto­ra de O olhar oblí­quo do bru­xo, um de seus livros sobre Machado, fala­rá sobre essa admi­ra­ção e influên­cia numa pales­tra gra­tui­ta que acon­te­ce dia 1º, às 19h, pro­mo­vi­da pelo Clube de Leitura do IMS. Além dis­so, a pro­gra­ma­ção do ciclo inclui um deba­te com Roberto Rocha, pro­fes­sor adjun­to de Literaturas de Língua Inglesa na UFRJ, sobre as adap­ta­ções de Shakespeare para o cine­ma. A con­ver­sa, que será medi­a­da por Guilherme Freitas, edi­tor assis­ten­te da revis­ta ser­ro­te, acon­te­ce­rá sába­do, dia 3, após a exi­bi­ção de Rei Lear, de Peter Brook, que come­ça às 16h.

SERVIÇO     

Instituto Moreira Salles — Rio de Janeiro

Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea

Tel: 3284–7400

Ingressos: R$ 8 (intei­ra) e R$ 4 (meia)

À ven­da tam­bém em www.ingresso.com

Disponibilidade sujei­ta à lota­ção da sala. O cine­ma do IMS não abre às segun­das-fei­ras.

MAIS SHAKESPEARE NO BLOG DO IMS

Pop Shakespeare, por Elvia Bezerra: de “Ser ou não ser” à sobre­me­sa “Romeu e Julieta”, a mar­ca de Shakespeare na cul­tu­ra bra­si­lei­ra.

Mostra Shakespeare e cine­ma - Programação com­ple­ta

Palestra Shakespeare e Machado: roman­ces e con­tos, com Marta de Senna.

 

, , , , , , , ,