Sniper, Velho Oeste no Oriente Médio

No cinema

20.02.15

Pesa sobre Clint Eastwood um equí­vo­co vir­tu­al­men­te inso­lú­vel. Como ele é um cida­dão decla­ra­da­men­te con­ser­va­dor (che­gou a ser pre­fei­to de Carmel, na Califórnia, pelo Partido Republicano), seus fil­mes são vis­tos – ou antes, não vis­tos – por mui­ta gen­te como expres­são do rea­ci­o­na­ris­mo nor­te-ame­ri­ca­no, com tudo o que isso impli­ca: direi­tis­mo polí­ti­co, mili­ta­ris­mo, machis­mo, caro­li­ce.

Esse silo­gis­mo ras­tei­ro fun­ci­o­na prin­ci­pal­men­te dian­te de obras que tra­tam de temas ide­o­lo­gi­ca­men­te con­tro­ver­sos, como a bio­gra­fia de J. Edgar Hoover ou, no atu­al Sniper ame­ri­ca­no, a tra­je­tó­ria mili­tar do ati­ra­dor de eli­te Chris Kyle (Bradley Cooper), sagra­do herói naci­o­nal depois de matar 160 pes­so­as no Iraque duran­te a inter­ven­ção ame­ri­ca­na.

Felizmente, Sniper é mui­to mais sutil e pers­pi­caz que seus “crí­ti­cos auto­má­ti­cos”. Quem acom­pa­nha a car­rei­ra de rea­li­za­dor de Clint Eastwood sabe que, pelo menos des­de Os imper­doá­veis (1992), ele vem pro­ble­ma­ti­zan­do cer­tos valo­res cen­trais da cul­tu­ra ame­ri­ca­na e, em par­ti­cu­lar, a figu­ra do herói jus­ti­cei­ro. Seu novo fil­me é um pas­so adi­an­te nes­se pro­ces­so.

Protótipo do herói

De cer­ta manei­ra, Sniper dia­lo­ga sub­ter­ra­ne­a­men­te com o pró­prio Os imper­doá­veis. Pode ser des­cri­to como um faro­es­te urba­no no Iraque. (Não por aca­so, a cer­ta altu­ra do fil­me, ao che­gar a uma cida­de ira­qui­a­na par­ti­cu­lar­men­te con­tur­ba­da, um sol­da­do diz: “Aqui é o Velho Oeste do Oriente Médio”.) Nesta lei­tu­ra, Chris Kyle seria um legí­ti­mo her­dei­ro ou ava­tar de Bill Munny, o pis­to­lei­ro con­de­na­do a matar “tudo o que anda ou ras­te­ja” no wes­tern de 1992.

Na nar­ra­ti­va de Eastwood, Kyle é o pro­tó­ti­po do herói ame­ri­ca­no for­ja­do na saga da con­quis­ta do Oeste: for­te, cora­jo­so, altruís­ta, temen­te a Deus, reto, ínte­gro. Íntegro como uma mula, na ver­da­de. Uma espé­cie de autô­ma­to ou zum­bi, cum­prin­do a mis­são para a qual foi pro­gra­ma­do des­de a infân­cia, des­de o pri­mei­ro tiro de rifle dis­pa­ra­do no pri­mei­ro ani­mal, sob a super­vi­são seve­ra e pro­te­to­ra do pai (numa das cenas ini­ci­ais do fil­me).

O Kyle de Sniper car­re­ga nas cos­tas, sem se dar con­ta, toda uma mito­lo­gia. Nascido no cora­ção do Texas, que­ria ser um cau­bói, mas não há mais lugar para os cau­bóis, a não ser nos rodei­os, e ele aca­ba se colo­can­do a ser­vi­ço da “defe­sa da pátria” con­tra os ini­mi­gos exter­nos. “Defendo meu país por­que é o melhor lugar do mun­do”, diz ele, quan­do ain­da não tinha sequer saí­do do Texas e mal sabia da exis­tên­cia de outros paí­ses.

A gran­de­za do fil­me de Eastwood está em mos­trar a con­ti­nui­da­de entre o cul­to da viri­li­da­de, a lei­tu­ra mora­lis­ta e nor­ma­ti­va da Bíblia, a voca­ção expan­si­o­nis­ta – enfim, tudo o que carac­te­ri­za o mito do Oeste – e as apo­ca­líp­ti­cas inter­ven­ções nor­te-ame­ri­ca­nas atu­ais.

Da cava­la­ria à máqui­na de guer­ra

Todo o pro­ble­ma de Chris Kyle é encar­nar o herói mag­nâ­ni­mo e volun­ta­ri­o­so num con­tex­to em que a luta entre moci­nhos e ban­di­dos com­pli­cou-se enor­me­men­te e a cava­la­ria trans­for­mou-se em gigan­tes­ca máqui­na de guer­ra. Neste sen­ti­do, as pri­mei­ras ima­gens são elo­quen­tes: um tan­que ame­ri­ca­no vis­to de mui­to per­to, com todas as suas mor­tí­fe­ras engre­na­gens em ação.

Sem enten­der onde estão e menos ain­da o que fazem ali, Kyle e seus com­pa­nhei­ros con­ti­nu­am a uti­li­zar a lin­gua­gem anti­ga: cha­mam indis­tin­ta­men­te os ira­qui­a­nos de “sel­va­gens” e os com­ba­ten­tes ini­mi­gos de “bad guys”. Eastwood enfa­ti­za o para­le­lo ao fil­mar o avan­ço dos com­boi­os mili­ta­res como incur­são de car­ru­a­gens em ter­ri­tó­rio indí­ge­na, e os con­fron­tos de rua como tiro­tei­os entre os ali­a­dos do xeri­fe e a gan­gue dos mal­fei­to­res escon­di­dos em becos e telha­dos.

Não fal­ta nem mes­mo o due­lo final entre o moci­nho e o ban­di­do-mor, o exí­mio ati­ra­dor Mustafa (Sammy Sheik), que o fil­me apre­sen­ta como “cam­peão olím­pi­co de tiro”, adi­ci­o­nan­do mais uma carac­te­rís­ti­ca cen­tral da cul­tu­ra ame­ri­ca­na, a com­pe­ti­ti­vi­da­de.

Idiota rural

Mesmo depois da vol­tar da guer­ra, o pro­ta­go­nis­ta – cha­ma­do de “A Lenda” pelos com­pa­nhei­ros e pela mídia – segue sen­do um idi­o­ta rural inca­paz sequer de per­ce­ber que não pas­sou incó­lu­me pela expe­ri­ên­cia de matar 160 pes­so­as. Sua tra­gé­dia pes­so­al é o des­com­pas­so entre a ideia que faz de si mes­mo – um homem em paz com a cons­ci­ên­cia por ter “cum­pri­do sua mis­são” – e a ruí­na huma­na em que se trans­for­mou. Por trás da apa­ren­te “saú­de de vaca pre­mi­a­da”, para usar a expres­são de Nelson Rodrigues, há um homem em fran­ga­lhos. É o que res­tou do mito do herói ame­ri­ca­no no mun­do con­tem­po­râ­neo. O fil­me de Clint Eastwood não é um épi­co, mas um réqui­em.

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