Só vai sobrar a lua cheia

Correspondência

25.05.11

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Amigo mui­to que­ri­do,

Repito aqui o que escre­vi na men­sa­gem par­ti­cu­lar: você pode ter mui­tos medos, mas não é covar­de. Costumo dizer a meus paci­en­tes que cora­gem não é exa­ta­men­te igual a des­te­mor: cora­gem é a for­ça que pre­ci­sa­mos aci­o­nar jus­to dian­te do que teme­mos. Os medos de que você se fez ínti­mo des­de tão peque­no, dos quais não faz segre­do e até fatu­ra par­te de seu char­me, os seus medos que­ri­dos, se assim pos­so dizer, tam­bém te exi­gem cora­gem. Se não fos­se assim, não pode­ria con­vi­ver com eles. Porém — e como dizia Plínio Marcos, sem­pre exis­te um porém — eu que te obser­vo des­de 1987 (antes já te conhe­cia mas não te obser­va­va) afir­mo aqui, outra vez, o que já devo ter dito de viva voz com minha fal­ta de diplo­ma­cia crô­ni­ca: o pior remé­dio para o medo é ele­ger a segu­ran­ça como medi­da da vida. Quanto mais você se pro­te­ge, mais ali­men­ta os fan­tas­mas. Quanto mais fecha a por­ta de casa, mais o mun­do se afi­gu­ra ame­a­ça­dor.  A estra­té­gia con­tra­fó­bi­ca de quem con­vi­veu com a fobia, no meu caso, é esta: tá com medo? Vai lá. Confere o tama­nho da encren­ca, ves­te o len­çol do fan­tas­ma, espia com cui­da­do, na bei­ri­nha do abis­mo, a pai­sa­gem lá em bai­xo. Quase sem­pre dá cer­to. Não sem­pre.

Quando fiz sete anos, minha famí­lia se mudou para um sobra­do bem mai­or do que a casi­nha tér­rea a que já me acos­tu­ma­ra. No iní­cio, sen­tia pavor de subir sozi­nha, à noi­te, até o segun­do andar. Inventei de brin­car com o supos­to peri­go: subia as esca­das no escu­ro e tes­ta­va em quan­tos cômo­dos era capaz de entrar sem acen­der a luz. Ia sus­pen­sa, pal­pi­tan­te, com a res­pi­ra­ção pre­sa até o momen­to em que um tre­mor vin­do de den­tro do cor­po me obri­ga­va a acen­der a luz de onde esti­ves­se e cor­rer, com todas as per­nas, de vol­ta para a sala onde esta­vam meus pais, a quem nun­ca con­tei qual era o jogo. Brinco dis­so até hoje, com outras escu­ri­dões. Às vezes vale o que encon­tro, às vezes não — mas ain­da assim, vale o jogo. E o fris­son. Já te mos­trei este velho poe­ma, “Caminhar no escu­ro”, lem­bra dele?

À fren­te, nem o vul­to de uma luz.

Breu sem mei­as medi­das.

Atrás, nada que faça lem­brar

o per­cor­ri­do.

Só o cora­ção, na cai­xa pre­ta,

vibra a agu­lha da bús­so­la.

Caminha-se assim,

nem tan­to a esmo:

pode-se dar um nome a cada pas­so

assim como a cada dia

com seu colar de minu­tos

sua fal­ta de come­ço

sua fal­ta de fim.

Preciso mudar de capí­tu­lo para intro­du­zir nes­ta car­ta o que hoje não me sai do cora­ção: enquan­to estou no con­sul­tó­rio, o con­gres­so vota o novo Código Florestal.

Já escre­vi con­tra o pro­je­to do Aldo Rebelo quan­do tinha a colu­na no Estadão. Todos sabe­mos o quan­to o pro­je­to é lamen­tá­vel, quan­to é cíni­ca a ale­ga­da defe­sa dos peque­nos pro­pri­e­tá­ri­os — que só favo­re­ce­rá os gran­des — fei­ta pelo depu­ta­do do PC do B. Ele sabe dis­so, tam­bém. Já repa­rou na expres­são cons­tran­gi­da, enver­go­nha­da mes­mo, que ele tem nas fotos e entre­vis­tas na TV, des­de que encam­pou a ban­dei­ra da devas­ta­ção do que res­tou de ver­de no inte­ri­or do Brasil? Sabe que o pro­je­to favo­re­ce quem tem mui­to dinhei­ro, inclu­si­ve para com­prar peque­nos lotes e se livrar da obri­ga­ção da reser­va legal. Sabe que a pro­ba­bi­li­da­de de o cli­ma aque­cer, de os rios min­gua­rem, de a ter­ra res­se­car é imen­sa. O estra­go vai sur­gir em menos de três gera­ções.  O argu­men­to de que os eco­lo­gis­tas defen­dem as árvo­res em vez das pes­so­as é hipó­cri­ta. Nem sou eco­lo­gis­ta mili­tan­te, mas sei que a vida pre­ci­sa de água, de som­bra, de ter­ra fér­til, assim como os peque­nos agri­cul­to­res pre­ci­sam de con­di­ções para plan­tar ali­men­tos, uma vez que os gran­des fazen­dei­ros plan­tam cana, euca­lip­to e soja para com­bus­tí­vel, papel e expor­ta­ção. O que escre­vi no Estadão era mais bem fun­da­men­ta­do do que este desa­ba­fo, e me ren­deu uma car­ta-res­pos­ta par­ti­cu­lar, em que o nobre depu­ta­do dis­se que eu não deve­ria escre­ver sobre o que não conhe­ço. Ha ha há. Se aque­le pro­je­to foi escri­to por quem “conhe­ce”, pos­so me con­si­de­rar espe­ci­a­lis­ta na maté­ria.

Este foi meu desa­ba­fo pan­fle­tá­rio.

O outro lado da minha defe­sa é líri­co. Queria que a par­te rural do Brasil con­ti­nu­as­se bela. Como é pro­sai­ca, como é desen­can­ta­da a pai­sa­gem que vejo do avião quan­do sobre­voo Mato Grosso e Goiás: a deso­la­ção dos pas­tos e das plan­ta­ções de soja, deser­tas, sem gen­te nem água nem bicho, com uma casi­nha no meio e um ou dois tra­to­res no cam­po. O povo que ali mora­va ago­ra vive tris­te numa casa de peri­fe­ria da cida­de mais pró­xi­ma. Como é sem gra­ça a pai­sa­gem do dinhei­ro.

Não venham me dizer que eu vivo fora da rea­li­da­de. Onde é a rea­li­da­de? Ninguém vive nela, só os eco­no­mis­tas e os lógi­cos, esses tipos sem poe­sia nenhu­ma. Os outros todos vivem entre o real e o ima­gi­ná­rio, e é tão bom que seja assim.  Na déca­da de 1980, eu escre­vi um arti­gui­nho em que dizia que as reser­vas ambi­en­tais são nos­sas reser­vas de ima­gi­ná­rio. Precisamos da natu­re­za como nos­so Outro, para que a cara do mun­do não se redu­za a nos­so espe­lho, ao espe­lho do que temos de pior: nos­sa capa­ci­da­de de des­truir e explo­rar.

Nunca vi uma onça no mato, nun­ca pas­sei por um ninho de ara­ras-azuis nem por um ban­do de maca­cos brin­ca­lhões. Mas pre­ci­so que eles exis­tam no mes­mo mun­do que eu, assim como pre­ci­so de um refe­ren­te para a pala­vra que­ri­das como roça e ser­tão.

Termino com a letra de uma can­ção de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira que não pos­so can­tar no blog, mas can­to aí na Urca pra você e Cri, logo mais. (cli­que abai­xo para ouvir)

Automóvel lá nem se sabe/ se é homem ou se é mulher/ quem é rico anda em burrico/ quem é pobre anda a pé.// Mas o pobre vê nas estradas/ o orva­lho bei­jan­do a flor/ vê de per­to o galo campina/ que quan­do can­ta muda de cor/ vai molhan­do os pés no riacho/ que água fres­ca, nos­so Senhor/ vai olhan­do coi­sa a granel/ que a gen­te pra mor de ver/ um cris­tão tem que andar a pé//

Ai ai, que bom/ que bom, que bom que é/ Uma estra­da e uma cabrocha/ no ser­tão de Canindé/ Ai ai, que bom/ que bom, que bom que é/ uma estra­da e a lua branca/ e a gen­te andan­do a pé.

Linda, não? A melo­dia é mara­vi­lho­sa. Mas pena, do jei­to que a coi­sa está, só vai sobrar a lua cheia. Penso no que Walter Benjamin escre­veu sobre a Europa duran­te a pri­mei­ra guer­ra, uma pai­sa­gem des­truí­da dian­te da qual os homens só teri­am algu­ma fami­li­a­ri­da­de com as nuvens no céu. E olhe que nada é mais mutá­vel que as nuvens no céu.  Muitos bei­jos de sua ami­ga momen­ta­ne­a­men­te deso­lée, Rita.

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