Sob a condição feminina e sob a condição de fazedora de filmes

Cinema

26.05.14

O IMS-RJ exi­be, de 27 de maio a 11 de junho, seis fil­mes da dire­to­ra duran­te a Mostra Ana Carolina, incluin­do o mais recen­te, “A pri­mei­ra mis­sa ou tris­tes tro­pe­ços, enga­nos e uru­cum”. A cine­as­ta comen­ta nes­te arti­go sua tra­je­tó­ria e o que a move para rea­li­zar seus tra­ba­lhos.

Com humor é sem­pre pos­sí­vel, e neces­sá­rio, dar dois ou três pas­sos para trás para rea­li­zar um sal­to sig­ni­fi­ca­ti­vo. A pri­mei­ra mis­sa não é um fil­me his­tó­ri­co! É um fil­me que se pro­põe a con­tar um aspec­to da natu­re­za bra­si­lei­ra. De nós mes­mos. Ficamos dan­do vol­tas no mato sem­pre falan­do do mes­mo assun­to — “pre­ci­sa­mos melho­rar as leis, pre­ci­sa­mos melho­rar a edu­ca­ção, pre­ci­sa­mos melho­rar o meio ambi­en­te…”. Prefiro me deter sobre o que não sei e sobre o que me inco­mo­da. Por exem­plo, o cine­ma bra­si­lei­ro é como um besou­ro: besou­ro não pode voar, mas voa. Passo a estu­dar esse assun­to (“o besou­ro que voa”). Assim comec?a o pro­ces­so para che­gar a um novo fil­me. Fico con­ver­san­do com as “for­ças infi­ni­tas e ocul­tas” que exis­tem nos temas dos meus fil­mes. E isso envol­ve o per­cur­so inacredita?vel de, pas­so a pas­so, atra­ves­sar a rea­li­da­de bra­si­lei­ra vári­as vezes — pois todos os temas têm de, obri­ga­to­ri­a­men­te, esqua­dri­nhar a rea­li­da­de bra­si­lei­ra. Então, nes­se pro­ces­so de pes­qui­sa sobre a nos­sa rea­li­da­de, vão se coa­gu­lan­do aqui e aco­lá infor­ma­ções dis­pa­ra­ta­das até que um dia — Eureka! - a dra­ma­tur­gia te empur­ra e cai a ficha. Esse é o cami­nho de todos os pro­ces­sos cri­a­ti­vos. Um fil­me nas­ce assim: Faz de con­ta que esta­mos na Mata Atlântica. Faz de con­ta que por aqui pas­sa um rio. Faz de con­ta que o Brasil pros­pe­ra. Isso é cine­ma. Cinema é ilu­são!

E assim como A pri­mei­ra mis­sa não é um fil­me his­tó­ri­co, Gregório de Mattos não é uma bio­gra­fia do poe­ta. Filmei algu­mas de suas poe­si­as dra­ma­ti­za­das como repre­sen­ta­ções fuga­zes de sua vida. Originalmente iria cha­mar-se Gema a quem gemer, ou o pou­co que se sabe sobre Gregório de Mattos, mas, como esse títu­lo é obvi­a­men­te mui­to lite­rá­rio, optei por usar somen­te o nome do poe­ta. A ver­da­de ver­da­dei­ra é que, se nos dedi­cás­se­mos real­men­te a ler suas poe­si­as, o conhe­ce­ría­mos melhor do que mui­ta gen­te que con­vi­ve dia­ri­a­men­te conos­co. Tudo isso para dizer que Gregório de Mattos foi ele mes­mo uma fic­ção.

Meus fil­mes são memó­ri­as das sen­sa­ções que me leva­ram a rea­li­zá-los. O que nós, civi­li­za­dos, do alto do nos­so conhe­ci­men­to, cha­ma­mos de lin­gua­gem, na ver­da­de não é lin­gua­gem. Passou a ser, mas não é. São expres­sões da alma huma­na, expres­sões tão vio­len­tas que se mani­fes­tam com o que você tiver à mão.

Uma vez dei uma expli­ca­ção inin­te­li­gí­vel, mas abso­lu­ta­men­te lógi­ca: Eu esta­va numa cai­xa de con­cre­to. Por um movi­men­to brus­co, um lado da cai­xa de con­cre­to se abriu. Na ver­da­de, foi o seguin­te: alguém me deu um brin­que­do para eu con­tar uma coi­sa do meu jei­to, o cine­ma. Eu não con­si­go dis­so­ci­ar Mar de rosas do Getúlio Vargas. O Getúlio apa­ren­te­men­te é um docu­men­tá­rio. Mas, quan­do come­cei a ver o mate­ri­al do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), me sen­ti dian­te do poder, do pode­ro­so. Eu só fiz o Mar de rosas por que vi no mate­ri­al do Getúlio algu­ma coi­sa que não me per­ten­ce. Eu não fil­mei nenhum pla­no do Getúlio, mas per­ce­bi nas ima­gens do Getúlio uma coi­sa cla­ra­men­te mas­cu­li­na: o pai que pro­te­ge, que pro­vê, que resol­ve. E que se mata, o pai que ati­ra con­tra si mes­mo, o pai que não é infa­lí­vel. Ali uma coi­sa que me levou a uma dis­cus­são des­ca­be­la­da da famí­lia: den­tro da famí­lia, por que meu pai não é infa­lí­vel? No Mar de rosas a figu­ra pro­e­mi­nen­te é a mãe. A gran­de bata­lha: eu e a outra mulher do meu pai. Quer dizer, no fil­me, mato a mãe. Não resol­ve nada por­que o pai era frá­gil e mor­reu no meio do cami­nho. Então, o Mar de rosas, na ver­da­de, está tra­ves­ti­do de pri­mei­ro fil­me mas debai­xo do Mar de rosas tem o Getúlio. Foi o impul­so do Mar de rosas. Aí tomei um emba­li­nho, um cer­to gos­to pela pare­de que se que­brou, pelo con­cre­to que caiu. Fiquei com o bra­ço para fora e come­cei a fazer piru­e­tas.

Das tri­pas cora­ção é osten­si­va­men­te, eu acho, uma per­gun­ta obses­si­va e arro­gan­te sobre uma ques­tão de iden­ti­da­de sexu­al. “Olha aqui como eu sou: sou uma mulher gos­to­sa. Sou mulher?” Essa per­gun­ta per­ma­ne­ce todo o tem­po no Das tri­pas cora­ção. Das tri­pas cora­ção é uma gran­de má-cri­a­ção, uma gran­de exa­cer­ba­ção de iden­ti­da­de mis­tu­ra­da com um pou­co de reli­gião e de repres­são. São 11 rolos de 300 metros de um cor­re-cor­re: “apos­to que você não me pega”. E mais: “apos­to que você não sabe quem eu sou”. E não sabe mes­mo, por­que não paro de cor­rer. Vamos de qual­quer jei­to, eu não estou enten­den­do nada, mas vamos de qual­quer jei­to. Que país é este?

No Sonho de val­sa não tem homem. Quer dizer, tem uns homens ima­gi­ná­ri­os. Não são reais. Com o Guido não acon­te­ce nada, ele dor­miu. Tenho que ador­me­cer o cara para ficar sali­en­te. Sonho de val­sa fala das mulhe­res que fan­ta­si­am o amor, o encon­tro do homem, o roman­ce: “Achei meu homem, ele me ama, eu sou uma mulher incrí­vel, jamais serei aban­do­na­da”. Acabou sozi­nha, vai ter o quê? Reze, se conhe­ça, segu­re suas pon­tas, ganhe seu dinhei­ro. Isso é o Sonho de val­sa.

Amélia come­ça em Paris, 1905. Sarah Bernhardt com sua cama­rei­ra Amélia. Amélia escre­ve uma car­ta para as irmãs em Minas dizen­do: “Estou che­gan­do com Madame no Rio de Janeiro dia 13 de setem­bro”. E aí, sabe?, aque­la coi­sa que a gen­te nun­ca sabe o que é? São três irmãs. Chegou uma car­ta. Tem uma lei­tu­ra imen­sa, com um rit­mo de Minas Gerais — eu nun­ca fiz um rit­mo des­ses num fil­me; é len­to, não se gri­ta, não tem con­fu­são. Eu pro­cu­rei fazer uma “anti-Ana Carolina” nes­sa cena em Minas. Minas é o meu para­dig­ma de equi­lí­brio, é o que eu não tenho den­tro de mim. É o que eu que­ro ser quan­do cres­cer: que­ro ser minei­ra. Eu que­ro ser tran­qui­la, des­con­fi­a­da, cal­ma. Mas então, che­ga uma car­ta: “Madame? Mas que mada­me?” Pouco se lixam, e no entan­to vão dar de cara com a mulher mais impor­tan­te e mais conhe­ci­da do mun­do naque­le momen­to. Viajam para o Rio de Janeiro com uma úni­ca ins­tru­ção para o encon­tro com a Madame: dian­te de pes­so­as impor­tan­tes elas devem pres­tar aten­ção a tudo, fin­gir que conhe­cem tudo, fin­gir que enten­dem tudo. Fingir, pois o enten­di­men­to real é impos­sí­vel. Elas falam por gri­tos, ber­ros, pela lín­gua da emo­ção, que pas­sa a ser a lin­gua­gem delas.

Quando fala­mos de lin­gua­gem, esta­mos falan­do de um gue­to. Estamos qua­se falan­do de um hos­pí­cio. O que segu­ra um fil­me? Não é a lin­gua­gem. É a emo­ção com a qual você se agar­ra a esse dia­le­to, a câme­ra. Você fica aos ber­ros falan­do numa lín­gua emo­ci­o­na­da para alguém enten­der. Não é lin­gua­gem, mas pas­sa a ser a lin­gua­gem. Mas o que segu­ra um fil­me? Mar de rosas, por exem­plo, é como o impul­so de uma cri­an­ça esper­ne­an­do: “eu que­ro aqui­lo ali”. A mãe per­gun­tan­do: “o quê? O quê?” E a cri­an­ça repe­tin­do: “aqui­lo ali, aqui­lo ali”. O dese­jo de ser enten­di­do é que segu­ra o fil­me.

Tenho que fazer uma gran­de con­fu­são para expli­car o que eu que­ro expli­car. É tão difí­cil escre­ver uma his­tó­ria com a câme­ra, é tão difí­cil con­se­guir esca­par da ques­tão lite­rá­ria, é difí­cil mes­mo. A ques­tão lite­rá­ria para nos­sa gera­ção é pri­o­ri­tá­ria. Você apren­deu a ler livros, a pen­sar lite­ra­ri­a­men­te, a se expres­sar assim. Cinema é mui­to mais difí­cil. Demorou 20 anos para eu saber quan­do dizer: “aqui, um tra­vel­ling; aqui eu paro e espe­ro; aqui eu não gri­to; aqui eu cor­to”. No cine­ma, pon­to e vír­gu­la é mui­to difí­cil.

Eu tenho uma pro­fun­da difi­cul­da­de de enten­der mes­mo. Entender o que as pes­so­as me falam. Entender o que é para ser enten­di­do. As nor­mas, as regras, as legis­la­ções, as ações. Tudo para mim é outra lín­gua. A úni­ca lín­gua que é minha é o cine­ma — e é a mais árdua. É uma lin­gua­gem defi­ci­en­te. Do defi­ci­en­te. A minha úni­ca manei­ra de expres­são é o cine­ma. E eu acho peno­so, difí­cil, fazer cine­ma. É uma expres­são difi­cí­li­ma. Contar uma his­tó­ria, para quem tem difi­cul­da­de de enten­der essa his­tó­ria, é um sacri­fí­cio. Eu estou sub­me­ti­da a essa lin­gua­gem, eu não con­si­go falar dela. Assim como eu estou sob a con­di­ção femi­ni­na, eu estou sob a con­di­ção de faze­do­ra de cine­ma.

Ana Carolina é cine­as­ta.

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