Sobre aquilo que não sabemos falar

Colunistas

03.09.14

Há na expe­ri­ên­cia con­tem­po­râ­nea de pen­sa­men­to um cer­to con­sen­so – tan­to quan­to pos­sa haver con­sen­so na expe­ri­ên­cia con­tem­po­râ­nea de pen­sa­men­to –, ape­sar de todas as dife­ren­ças que mar­cam a filo­so­fia oci­den­tal do sécu­lo XX, de que res­ta algo de indi­zí­vel na exis­tên­cia huma­na, inex­pres­sá­vel por qual­quer tipo de lin­gua­gem, seja ver­bal, não-ver­bal ou artís­ti­ca.

Vão avan­ça­das as dis­cus­sões sobre o lugar da arte, que nem mais pode­ria res­pon­der pela tare­fa de repre­sen­tar o irre­pre­sen­tá­vel, nem res­pon­der por uma esté­ti­ca nega­ti­va, capaz de falar daqui­lo que não se pode falar. Se toda repre­sen­ta­ção resis­te a repre­sen­tar aqui­lo que res­ta irre­pre­sen­tá­vel, pen­so que a nome­a­ção pode ser uma for­ma alter­na­ti­va, por não pre­ten­der repre­sen­tar, mas ape­nas fazer um ges­to sin­gu­lar de lidar com aqui­lo que per­ma­ne­ce como expe­ri­ên­cia de segre­do.

Partindo do reco­nhe­ci­men­to des­sas difi­cul­da­des, e ape­nas como hipó­te­se, vou nome­ar “mor­te” esse indi­zí­vel sobre o qual não se sabe, não se pode ou não se con­se­gue falar, embo­ra o noti­ciá­rio este­ja nos colo­can­do dia­ri­a­men­te dian­te do luto, seja com as mor­tes his­tó­ri­cas, como a do can­di­da­to Eduardo Campos, sejam com per­das de figu­ras públi­cas que já mar­ca­ram o ano de 2014, seja com cri­mes bár­ba­ros. Por tudo isso, há um para­do­xo em não saber falar da mor­te e, ao mes­mo tem­po, pre­ci­sar falar da mor­te.

Até por­que, se há algo que se man­tém his­to­ri­ca­men­te nes­sa pala­vra é a sua liga­ção com o mis­té­rio, a incer­te­za, o medo e a angús­tia. Herdeiros que somos da tra­di­ção judai­co-cris­tã, con­vi­ve­mos com ritu­ais em tor­no da mor­te que estão liga­dos à ideia de uma pas­sa­gem em dire­ção à vida eter­na. No entan­to, se reco­nhe­cer­mos que tam­bém nes­sa tra­di­ção há um impor­tan­te momen­to de rup­tu­ra, quan­do Nietzsche anun­cia que “Deus está mor­to”, se reco­nhe­cer­mos ain­da o declí­nio da fé nas soci­e­da­des ditas escla­re­ci­das, vamos aca­bar nos depa­ran­do com pelo menos dois pro­ble­mas: a exi­gên­cia de reco­nhe­cer que, para mui­tos de nós, a mor­te se apre­sen­ta como fim abso­lu­to a par­tir do qual não há mais nada e, como des­do­bra­men­to des­se reco­nhe­ci­men­to, a exi­gên­cia de pen­sar na lai­ci­da­de da mor­te.

Em um con­tex­to em que a lon­ge­vi­da­de colo­ca os sujei­tos dian­te de uma vida ori­en­ta­da para a mor­te, falar sobre a mor­te se tor­na uma exi­gên­cia neces­sá­ria para os sujei­tos que enve­lhe­cem, para a medi­ci­na, para a famí­lia, para os ami­gos etc. Entre os inú­me­ros desa­fi­os da mor­te con­tem­po­râ­nea – são tan­tos que seria impos­sí­vel abor­dá-los aqui – está a lon­ge­vi­da­de e suas con­sequên­ci­as soci­ais. Por defi­ni­ção, lon­ge­vi­da­de é vida mais lon­ga, e pode pare­cer um para­do­xo asso­ciá-la à mor­te. Como essa lon­ge­vi­da­de é mui­tas vezes mar­ca­da por um declí­nio das pos­si­bi­li­da­des de vida, ela pas­sa a ser ape­nas a expe­ri­ên­cia de pro­xi­mi­da­de com a mor­te. Daí a neces­si­da­de qua­se impe­ri­o­sa de falar sobre a mor­te que se apro­xi­ma, seja para que o sujei­to pos­sa esco­lher em que con­di­ções quer ser tra­ta­do pela medi­ci­na, seja para que se pos­sa esco­lher até onde e quan­do viver.

Talvez seja o aumen­to da lon­ge­vi­da­de que empur­ra o deba­te sobre as dife­ren­tes pos­si­bi­li­da­des de ges­tão do pro­ces­so do mor­rer. Filmes como Mar aden­tro (Alejandro Amenábar, 2004), Amor (Michael Haneke, 2012), ou Uma pri­ma­ve­ra com minha mãe (Stéphane Brizé, 2013), colo­cam em ques­tão temas como a euta­ná­sia, a esco­lha pela mor­te dian­te do sofri­men­to por doen­ça incu­rá­vel, e as dire­ti­vas ante­ci­pa­das de von­ta­de, as que regu­la­men­tam deci­sões do paci­en­te em rela­ção aos tipos de tra­ta­men­to aos quais pre­ten­de se sub­me­ter. A exi­gên­cia de pen­sar no direi­to do paci­en­te de viver até onde seja con­si­de­ra­da sua auto­no­mia – pala­vri­nha com­pli­ca­da, eu sei, mas incon­tor­ná­vel para o sujei­to moder­no –, e no tabu do sui­cí­dio assis­ti­do ou da euta­ná­sia, aqui enten­di­dos como for­mas de abre­vi­a­ção da vida como dor e sofri­men­to.

Neste pon­to, apa­re­ce como ques­tão o pro­ble­ma da lai­ci­da­de da mor­te. Marcada his­to­ri­ca­men­te por uma com­pre­en­são reli­gi­o­sa, para a mor­te lai­ca ain­da nos fal­tam apa­ra­tos e ritu­ais. Hospitais ofe­re­cem cape­las, mui­tos deles têm nomes em home­na­gem a san­tos, e nos cemi­té­ri­os o ser­vi­ço reli­gi­o­so e suas pala­vras mui­tas vezes vazi­as para fami­li­a­res que não comun­gam mais de fé reli­gi­o­sa, fazem par­te dos trâ­mi­tes que acom­pa­nham o veló­rio. Faltam às soci­e­da­des con­tem­po­râ­ne­as outros ritu­ais de mor­te e de for­mas de ela­bo­ra­ção do luto que não este­jam liga­das a algu­ma for­ma de reli­gião. A moder­ni­da­de, que pre­ten­deu escla­re­cer-se ao livrar-se da reli­gião, man­tém na rela­ção com a mor­te um for­te ape­go ao sagra­do.

Todos esses deba­tes, que não se esgo­tam aqui, exi­gem que se sai­ba e se pos­sa – soci­al­men­te, cul­tu­ral­men­te e indi­vi­du­al­men­te – falar sobre a mor­te. “O que você con­si­de­ra uma boa mor­te?” ou “Qual é o seu mai­or medo quan­do pen­sa em mor­rer?” são os temas de um encon­tro orga­ni­za­do em Londres pelo Death Café. Organização sem fins lucra­ti­vos, o Death Café tem como obje­ti­vo, segun­do rela­to da revis­ta Piauí, “aumen­tar a cons­ci­ên­cia da mor­te a fim de aju­dar as pes­so­as a vive­rem melhor”. A ideia ini­ci­al foi do soció­lo­go Bernard Crettaz, que em 2004 come­çou a orga­ni­zar na Suíça os “Café Mortels”, expe­ri­ên­cia pos­te­ri­or­men­te rela­ta­da em livro (Cafés mor­tels: Sortir la mort du silen­ce). No Brasil, as ini­ci­a­ti­vas de falar sobre a mor­te ain­da estão res­tri­tas ao âmbi­to dos cui­da­dos pali­a­ti­vos, como bem rela­ta Rachel Aisengart Menezes em seu “Em bus­ca da boa mor­te”, etno­gra­fia rea­li­za­da no Hospital do Câncer IV do Inca, uni­da­de de cui­da­dos pali­a­ti­vos aos paci­en­tes decla­ra­dos Fora de Possibilidade Terapêutica (FPT). Estudo crí­ti­co sobre a medi­ca­li­za­ção da vida até no momen­to em que a pró­pria medi­ci­na reco­nhe­ce a impos­si­bi­li­da­de de tra­ta­men­to, o estu­do per­ce­be que a “boa mor­te” per­ma­ne­ce sob ori­en­ta­ção médi­ca, e os cui­da­dos pali­a­ti­vos man­têm for­te liga­ção com a espi­ri­tu­a­li­za­ção da mor­te, como se mor­rer con­tem­po­ra­ne­a­men­te fos­se neces­sa­ri­a­men­te esco­lher entre a fé na medi­ci­na e a fé na vida eter­na.

Se ini­ci­a­ti­vas como as euro­pei­as são pos­sí­veis, ape­sar de todas as difi­cul­da­des de falar da mor­te, é por­que come­ça-se a enfren­tar a mor­te como par­te da vida, e não como mera opo­si­ção vida/morte, tal­vez a últi­ma das gran­des opo­si­ções meta­fí­si­cas ain­da a ser des­cons­truí­da. Morremos um pou­co todos os dias, quan­do acor­da­mos um dia mais per­to da nos­sa mor­te, e nun­ca che­ga­mos a expe­ri­men­tar isso que seria “a” vida como opo­si­ção à mor­te. Vida, aqui enten­di­da como poten­ci­a­li­da­de de vida, é for­ço­sa­men­te a rea­li­za­ção de algo que fica aquém da ple­ni­tu­de des­sa potên­cia. Só se che­gar­mos a reco­nhe­cer que “a” vida não exis­te é que pode­re­mos vir a falar da mor­te como sua par­te inte­gran­te, como o que lida­mos a cada dia antes de que che­gue o momen­to daqui­lo sobre o qual não sabe­mos falar.

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