Sobre Eric Hobsbawm

Miscelânea

05.10.12

Fui con­vi­da­do a dizer algu­mas pala­vras sobre o his­to­ri­a­dor inglês Eric Hobsbawm, que fale­ceu em Londres na madru­ga­da de segun­da-fei­ra, dia 1º de outu­bro, aos 95 anos.

É uma tare­fa um pou­co emo­ci­o­nan­te, por­que Eric era um gran­de ami­go meu. Nós nos encon­tra­mos pela pri­mei­ra vez em 1960, ime­di­a­ta­men­te depois de minha pri­mei­ra visi­ta ao Brasil. Foi uma ami­za­de de 50 anos. Por mui­tos anos fomos cole­gas na Universidade de Londres e vizi­nhos resi­den­tes no bair­ro de Hampstead, em Londres. Estive em Londres na sema­na pas­sa­da, em par­te para visi­tar Eric. Sua espo­sa Marlene me dis­se que eu fui o últi­mo ami­go a falar com ele, ape­nas 24 horas antes do seu fale­ci­men­to.

Eric Hobsbawm nas­ceu em Alexandria, no Egito, em 1917. Os pais eram judeus de clas­se média, o pai inglês, filho de um imi­gran­te polo­nês, a mãe aus­tría­ca. Ambos mor­re­ram quan­do Eric era ado­les­cen­te. Ele cres­ceu em Viena, em Berlim (onde, com 14 anos de ida­de, entrou no Partido Comunista) e, final­men­te, em Londres. A memó­ria dos anos 1930–1933 em Berlim exer­ceu uma gran­de influên­cia na sua vida. Ele se for­mou no King’s College, na Universidade de Cambridge, no final dos anos 30. Esta expe­ri­ên­cia foi tam­bém fun­da­men­tal na sua vida. Ele sem­pre foi um homem de Cambridge — por mui­tos anos um Fellow e mais tar­de Honorary Fellow de King’s. Mas, depois da Segunda Guerra Mundial, ele se tor­nou pro­fes­sor de História no Birkbeck College, na Universidade de Londres, e ficou ali até a sua apo­sen­ta­do­ria.

Hobsbawm foi um his­to­ri­a­dor de tra­di­ção mar­xis­ta euro­peia. Fez par­te do Grupo de Historiadores do Partido Comunista da Grã-Bretanha do pós-guer­ra, que incluía, por exem­plo, Christopher Hill e E.P Thompson. Eles fun­da­ram o jor­nal Past and Present e refor­ma­ram o estu­do da his­tó­ria soci­al na Grã-Bretanha — e no mun­do.

As con­tri­bui­ções mais impor­tan­tes de Hobsbawm como his­to­ri­a­dor são, a meu ver, as seguin­tes: pri­mei­ro, os livros Primitive rebels (1959) e Bandidos (1969), sobre pro­tes­to rural e revol­ta popu­lar no Sul da Europa, espe­ci­al­men­te na Itália, e na América Latina no sécu­lo XIX; segun­do, Labouring men (1964) e outros estu­dos sobre a clas­se ope­rá­ria ingle­sa, e espe­ci­al­men­te o impac­to da Revolução Industrial no stan­dard of living dos tra­ba­lha­do­res; ter­cei­ro, Industry and empi­re (1968), a his­tó­ria econô­mi­ca da Grã-Bretanha de 1750 até os mea­dos do sécu­lo XX, para alguns o seu melhor livro; quar­to, o livro mui­to influ­en­te, co-orga­ni­za­do com Terence Ranger, A inven­ção das tra­di­ções (1983), sobre o uso impró­prio da his­tó­ria na for­ma­ção da ide­o­lo­gia naci­o­na­lis­ta; final­men­te, e sobre­tu­do, a sua his­tó­ria do “lon­go sécu­lo XIX” (1789–1914) em três volu­mes: A era das revo­lu­ções 1789–1848 (1962), A era do capi­tal 1848–1975 (1975) e A era dos impé­ri­os 1875–1914 (1987), mais sua his­to­ria do “cur­to sécu­lo XX” (1914–1989) Era dos extre­mos 1914–1989 (1994). Esta tetra­lo­gia repre­sen­ta a melhor intro­du­ção à his­tó­ria do mun­do moder­no em inglês, sem­pre em catá­lo­go, e tra­du­zi­da em mais de 40 lín­guas. Estes livros demons­tram a exten­são e a pro­fun­di­da­de do seu conhe­ci­men­to dos sécu­los XIX e XX, a sua cober­tu­ra geo­grá­fi­ca, o domí­nio de vári­as lín­guas, os seus pode­res sem com­pa­ra­ção de orga­ni­za­ção e sín­te­se e de com­bi­nar a aná­li­se de estru­tu­ras econô­mi­cas e soci­ais com a influên­cia da cul­tu­ra e o papel dos indi­ví­du­os e, não menos impor­tan­te, a qua­li­da­de da escri­ta.

Mas uma som­bra? Até o fim da Guerra Fria, dife­ren­te­men­te da mai­o­ria dos seus cole­gas, Hobsbawm jamais rom­peu com o Partido Comunista — não em 1956, nem em 1968 — ape­nas dei­xou de con­tri­buir como mem­bro afi­li­a­do ime­di­a­ta­men­te antes do colap­so do par­ti­do em 1991. Ele jus­ti­fi­cou a sua posi­ção em ter­mos de leal­da­de à sua juven­tu­de anti­fas­cis­ta e leal­da­de aos seus com­pa­nhei­ros na lon­ga luta con­tra o fas­cis­mo. Na rea­li­da­de, ele sem­pre este­ve um pou­co afas­ta­do, rela­ti­va­men­te inde­pen­den­te do CPGB, mais per­to do Partido Trabalhista inglês. E os tra­ços da ide­o­lo­gia mar­xis­ta-leni­nis­ta na sua obra são pou­cos. Todavia, os seus ini­mi­gos na direi­ta, e alguns ami­gos libe­rais e soci­ais demo­cra­tas, fica­ram decep­ci­o­na­dos pela sua falha — na sua his­tó­ria do sécu­lo XXEra dos extre­mos, em vári­as entre­vis­tas no rádio e na tele­vi­são, e na sua auto­bi­o­gra­fia Tempos inte­res­san­tes (2002), publi­ca­da quan­do ele tinha 85 anos — em reco­nhe­cer e em denun­ci­ar os cri­mes come­ti­dos, os milhões de vidas per­di­das, em nome de um futu­ro soci­a­lis­ta ou comu­nis­ta, na União Soviética de Stalin e na China de Mao. Ele mes­mo sem­pre foi mui­to gene­ro­so com seus crí­ti­cos mais fero­zes, por exem­plo, no seu tri­bu­to a Tony Judt após o fale­ci­men­to trá­gi­co dele no ano pas­sa­do.

Hobsbawm foi mui­to inte­res­sa­do no Brasil: no povo bra­si­lei­ro e na his­tó­ria bra­si­lei­ra (Lampião foi incluí­do no seu estu­do sobre os cha­ma­dos soci­al ban­dits); na músi­ca bra­si­lei­ra (ele era um conhe­ci­do his­to­ri­a­dor e crí­ti­co de jazz, no iní­cio sob o pseudô­ni­mo Francis Newton, autor de um livro des­lum­bran­te, História soci­al do jazz, e ele uma vez me falou que, na sua opi­nião, os dois gêni­os da músi­ca popu­lar no sécu­lo XX eram Duke Ellington e Tom Jobim); e na polí­ti­ca bra­si­lei­ra. Em The forward mar­ch of Labour hal­ted? (1981), uma cole­tâ­nea dos arti­gos da revis­ta Marxism Today, orga­ni­za­do por Martin Jacques, ele tinha sus­ten­ta­do que o movi­men­to tra­ba­lhis­ta euro­peu já não era capaz de ter o papel trans­for­ma­dor con­for­me o mar­xis­mo. Suas idei­as polí­ti­cas mui­to influ­en­ci­a­ram o euro­co­mu­nis­mo, espe­ci­al­men­te na Itália, e na Inglaterra o Partido Trabalhista, o New Labour de Tony Blair (que ele veio a des­gos­tar). No Brasil, entre­tan­to, o Partido dos Trabalhadores for­ma­do em 1980, o úni­co par­ti­do da esquer­da soci­a­lis­ta-demo­crá­ti­ca base­a­da no movi­men­to tra­ba­lhis­ta (e com um ope­rá­rio como o seu líder) a emer­gir no mun­do no perío­do após a Segunda Guerra Mundial, tinha, a seu ver, a pos­si­bi­li­da­de de che­gar ao poder e trans­for­mar a soci­e­da­de. Por isso, ele ficou mui­to entu­si­as­ma­do pela vitó­ria do PT na elei­ção pre­si­den­ci­al de 2002 e tor­nou-se um gran­de admi­ra­dor e ami­go de Luiz Inácio Lula da Silva. Finalmente, e não sem impor­tân­cia para Eric, ele ven­deu mais livros no Brasil do que em nenhum outro país fora do Reino Unido. “I’m big in Brazil”, ele dis­se. Eu me lem­bro de que na pri­mei­ra Flip, em Paraty, em 2003, quan­do ele e eu divi­di­mos o pal­co, Eric foi rece­bi­do como um pops­tar.

Nos últi­mos tem­pos, a repu­ta­ção, naci­o­nal e inter­na­ci­o­nal, de Hobsbawm cres­ceu — como his­to­ri­a­dor e como inte­lec­tu­al públi­co, pen­sa­dor polí­ti­co, homem de esquer­da, soci­a­lis­ta radi­cal quan­do o soci­a­lis­mo esta­va per­den­do ter­re­no em todo o mun­do. O seu últi­mo livro Como mudar o mun­do, ensai­os sobre a his­tó­ria do mar­xis­mo, alguns velhos, alguns novos, foi publi­ca­do em 2011, quan­do já tinha 94 anos. Um livro de ensai­os sobre a cul­tu­ra e a soci­e­da­de no sécu­lo XX foi com­ple­ta­do meses antes do seu fale­ci­men­to, para publi­ca­ção em 2013.

Fisicamente debi­li­ta­do nos anos recen­tes, ele ficou lúci­do, enga­ja­do, inte­lec­tu­al­men­te inte­res­sa­do em tudo até o final. Nos nos­sos últi­mos encon­tros, sem­pre com o bom malt whisky, eu fiquei sur­pre­so que ele que­ria dis­cu­tir, por exem­plo, o can­tor de rap bra­si­lei­ro Criolo, sobre quem eu con­fes­sei nun­ca ter ouvi­do, e as ori­gens ide­o­ló­gi­cas da Revolução de 1952 na Bolívia! No sába­do pas­sa­do, horas antes do seu fale­ci­men­to, nós con­ver­sa­mos sobre Lula e o men­sa­lão, Chávez e as elei­ções na Venezuela e a dife­ren­ça entre his­tó­ria mun­di­al e his­tó­ria glo­bal.

Eric Hobsbawm era um homem extra­or­di­ná­rio, um ami­go leal, um bri­lhan­te inte­lec­tu­al e, sobre­tu­do, um gran­de his­to­ri­a­dor dos sécu­los XIX e XX, tal­vez o his­to­ri­a­dor mais impor­tan­te — cer­ta­men­te o mais lido — da segun­da meta­de do sécu­lo XX e das pri­mei­ras déca­das do sécu­lo XXI.

* Leslie Bethell é Professor Emérito de História da América Latina na Universidade de Londres, Fellow Emérito do StAntony’s College e ex-dire­tor do Centro de Estudos Brasileiros na Universidade de Oxford, e sócio cor­res­pon­den­te da Academia Brasileira de Letras.

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