Sobre sexo, livros e morte

Colunistas

25.03.15

Como bem obser­va­do pelo arti­cu­lis­ta Antônio Xerxenesky, cri­ar edi­to­ras no Brasil é par­te de uma pato­lo­gia (ain­da) não des­cri­ta no DSM V, mas cer­ta­men­te por uma das mui­tas falhas do manu­al clas­si­fi­ca­tó­rio de sin­to­mas da soci­e­da­de con­tem­po­râ­nea. Em um cená­rio em que tudo depõe con­tra, publi­car, edi­tar, tra­du­zir e insis­tir em lan­çar livros pode ser, como tão bem des­cre­ve a filó­so­fa Jeanne Marie Gagnebin no pró­lo­go de Limar, aura e reme­mo­ra­ção (Editora 34), resul­ta­do das liga­ções entre escri­ta, mor­te e trans­mis­são. Escrevemos por que vamos mor­rer, escre­ve­mos para não mor­rer, eis o para­do­xo anun­ci­a­do por Gagnebin que, por ana­lo­gia, pode ser adap­ta­do ao sin­to­ma da edi­ção: edi­tar por que vamos mor­rer, edi­tar para não mor­rer.

A filósofa espanhola Beatriz Preciado

É nes­te limi­ar entre sin­to­ma e cora­gem que está a N-1 Edições, resul­ta­do de um acor­do com a Aalto University, da Finlândia, e no Brasil a car­go do filó­so­fo Peter Pál Pelbart (PUC-SP). É por esta casa edi­to­ri­al, como dizem os fran­ce­ses, que che­ga ao mer­ca­do bra­si­lei­ro a tra­du­ção de Manifesto con­tras­se­xu­al, da pen­sa­do­ra espa­nho­la Beatriz Preciado. Seu livro-mani­fes­to data de 2002, é um mar­co na teo­ria que­er, e sua che­ga­da ao Brasil tan­tos anos depois tam­bém pode ser con­si­de­ra­da sinal de mui­tos sin­to­mas, para ficar no voca­bu­lá­rio psi: do atra­so do deba­te sobre as for­tes liga­ções entre sexu­a­li­da­de e hete­ro­nor­ma­ti­vi­da­de, de cer­ta for­ma ain­da man­ti­do numa espé­cie de gue­to como se fos­se do inte­res­se ape­nas de uns pou­cos; de uma polí­ti­ca edi­to­ri­al colo­ni­za­da, seja em rela­ção aos best-sel­lers nor­te-ame­ri­ca­nos, seja em rela­ção ao ide­al de ele­gân­cia inte­lec­tu­al dos fran­ce­ses; de uma ine­ren­te difi­cul­da­de de trans­por fron­tei­ras aca­dê­mi­cas quan­do se tra­ta de dis­cu­tir pro­ble­mas de gêne­ro (não uso a expres­são por aca­so, mas como refe­rên­cia ao livro da filó­so­fa Judith Butler, esgo­ta­do logo depois de seu lan­ça­men­to pela Record, em 2003, e feliz­men­te pres­tes a ser relan­çan­do no segun­do semes­tre).

Preciado é alguns anos mais jovem que Butler, e pro­va­vel­men­te por isso já pode cons­ti­tuir sua obra inter­ro­gan­do alguns dos pres­su­pos­tos esta­be­le­ci­dos pela nor­te-ame­ri­ca­na, prin­ci­pal­men­te a ideia de per­for­ma­ti­vi­da­de, tão cara aos lei­to­res de Butler. O ver­bo “pro­vo­car” for­ne­ce uma cha­ve de lei­tu­ra para o Manifesto que, à manei­ra dos mani­fes­tos de van­guar­da artís­ti­cas do iní­cio do sécu­lo XX, pre­ten­de pro­por uma revo­lu­ção. Dessa vez, o alvo não são as for­mas artís­ti­cas, mas as cor­po­rais. Por isso, des­de o iní­cio o tex­to se anun­cia como um livro “sobre sexos de plás­ti­co e sobre a plas­ti­ci­da­de dos sexos”, toman­do como ele­men­to de aná­li­se o dil­do, ter­mo ori­gi­ná­rio da cul­tu­ra sexu­al nor­te-ame­ri­ca­na, que per­ma­ne­ce em inglês tan­to no ori­gi­nal espa­nhol quan­to na ver­são bra­si­lei­ra.

A rigor, tra­ta-se de uma des­sas deci­sões edi­to­ri­ais difí­ceis, cujas con­sequên­ci­as ain­da vão rever­be­rar duran­te mui­to tem­po. Manter dil­do quer dizer refor­çar a estra­nhe­za de um ter­mo que, trans­pos­to para o por­tu­guês como con­so­lo, por exem­plo, per­de­ria a ambi­gui­da­de do inglês, onde a pala­vra tam­bém desig­na alguém estú­pi­do ou des­pre­zí­vel. Plasticidade dos sexos é tan­to a inter­ro­ga­ção da pos­si­bi­li­da­de de um “sexo natu­ral” quan­to um des­do­bra­men­to da ideia – toma­da da filo­so­fia de Jacques Derrida – de suple­men­to ou pró­te­se de ori­gem. Preciado expli­ca que, se Marx usou o con­cei­to de mais-valia como cen­tral na sua crí­ti­ca ao capi­ta­lis­mo, tra­ta-se de ins­cre­ver o dil­do como ele­men­to cen­tral na sua crí­ti­ca à nor­ma sexu­al. Derrida pen­sou o suple­men­to a par­tir da sua crí­ti­ca à meta­fí­si­ca da lin­gua­gem e à hie­rar­quia entre fala e escri­ta. Preciado, que foi alu­na de Derrida, pen­sa o dil­do como um ele­men­to que evo­ca a noção de suple­men­to na filo­so­fia der­ri­di­a­na e com isso impe­de qual­quer natu­ra­li­za­ção de um sexo ori­gi­ná­rio. Foi ao fazer a crí­ti­ca da tra­di­ção filo­só­fi­ca como ten­do atri­buí­do à escri­ta a mar­ca de suple­men­to – em opo­si­ção à fala, esta tida como ori­gi­nal – que Derrida abriu cami­nho para pen­sar a per­for­ma­ti­vi­da­de de gêne­ro em Butler e plas­ti­ci­da­de sexu­al nos ter­mos de Preciado. Ou seja, é com a noção de suple­men­to de ori­gem que se abre a pos­si­bi­li­da­de de ques­ti­o­nar uma sexu­a­li­da­de pró­pria e natu­ral, que se opo­nha à arti­fi­ci­al, fabri­ca­da como um dil­do.

Aqui, sexo e escri­ta se encon­tram como suple­men­tos de ori­gem. Quando escre­ve­mos, como diz Gagnebin, “lem­bra­mos, mes­mo à nos­sa reve­lia, que mor­re­mos”. Lembramos, por­tan­to, que a vida natu­ral não exis­te sem os arti­fí­ci­os que nos man­têm vivos, e lem­bra­mos ain­da o quan­to a mor­te é estra­nha (embo­ra não sur­pre­en­den­te). Estranho, e infe­liz­men­te não sur­pre­en­den­te no mer­ca­do edi­to­ri­al bra­si­lei­ro, é que um mani­fes­to como o de Preciado este­ja escon­di­do nas pra­te­lei­ras das livra­ri­as, seja qua­se clan­des­ti­no, e que assim tes­te­mu­nhe um pou­co da his­tó­ria da lou­cu­ra de edi­tar livros no Brasil. Por fim, pode-se dizer que Manifesto con­tras­se­xu­al é um belo livro-obje­to, cujo furo que o atra­ves­sa des­de a capa mar­ca a ideia de uma não-tota­li­da­de, seja da obra, da escri­ta, ou da vida ou da mor­te. 

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