Sonhando com personagens do noticiário

Correspondência

06.11.12

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Querida Vilma,

como vai de ven­da­val, vaci­lou e voou ou vazou veloz?

Ok, ok, sem gra­ci­nhas nem pia­das com a tem­pes­ta­de Sandy. Encontro-me num enros­co. Nem sei onde esta­va com a cabe­ça pra topar esse mai­ling ao léu. Se há ami­gos que elo­gi­am nos­sas tro­cas de dis­pa­ra­tes e pipa­ro­tes, há tam­bém quem chie. Um bró­der, escri­tor, múl­ti­plo e bru­to, veio me dizer que em minha car­ta tem mui­ta con­ver­sa fia­da, agen­da da sema­na demais e vida inte­ri­or de menos. Que só digo dos fatos do dia — e car­tas são ter­ri­tó­ri­os notur­nos. Intrometido esse ami­go, eu sei; um enxe­ri­do atrás de fofo­cas e das tre­tas que só diria ao meu ana­lis­ta (se eu o tives­se). Mas a cul­pa nem é dele, é da gen­te, que fala alto demais. Escritores falam demais de si mes­mos?

O fato, dona Vilma, é que minha vida inte­ri­or ado­e­ceu de notí­ci­as. Outro dia sonhei que ia entre­vis­tar o José Serra e des­co­bri que ele esta­va gra­ve­men­te doen­te. Nas últi­mas, dizen­do suas últi­mas pala­vras. Mal con­se­guia falar. Consegui, gra­ças a expe­di­en­tes esdrú­xu­los os quais não vale a pena citar, sedu­zir algu­mas enfer­mei­ras e aden­trei o recin­to hos­pi­ta­lar do vam­pi­ro tuca­no. E lá ele esta­va em sua lívi­da tum­ba, arre­ga­la­do, irre­me­di­a­vel­men­te care­ca e cer­ca­do de vári­os tubos de álco­ol gel. De doer o cora­ção. Sua enfer­mi­da­de ain­da era segre­do; nin­guém que­ria me res­pon­der que caz­zo o ex-minis­tro esta­va fazen­do no hos­pi­tal. E esta foi minha pri­mei­ra per­gun­ta. Ao que Serra me res­pon­deu, ape­nas com dolo­ro­so e inten­so olhar, ape­nas levan­tan­do vaga­ro­sa­men­te o len­çol… que escon­dia… mas não… não podia ser… Serra escon­dia uma xoxo­ti­nha! Era isso: o tuca­no havia se inter­na­do para fazer uma cirur­gia de mudan­ça de sexo, e a coi­sa deu com as cucui­as, por isso ele esta­va no bico do cor­vo. Acordei ime­di­a­ta­men­te, em cha­mas: pre­ci­so ligar pro jor­nal! Mandar um e-mail para a revis­ta! Tuitar, fei­ce­bu­car, gri­tar pela jane­la! O Serra virou tchut­chu­ca!

Aos pou­cos, porém, fui cain­do em mim (se é que meu ego, das altu­ras onde vive, dei­xa isso acon­te­cer) e saquei o ridí­cu­lo da situ­a­ção. De novo, tinha acon­te­ci­do: sonhei com per­so­na­gens do noti­ciá­rio. Onde foram parar meus sonhos sur­re­a­lis­tas, Vilma? Agora era isso: esta­va edi­tan­do uma entre­vis­ta que fiz com o Laerte, em que fala­va sobre seu tran­se­xu­a­lis­mo (só que o Laerte não quer tro­car de sexo, ele pen­sa ligei­ra­men­te em colo­car pei­tos, tem usa­do sutiã e vem se habi­tu­an­do à ideia de colo­car sili­co­ne, mas ape­nas se tra­ta de uma ideia por enquan­to), duran­te o últi­mo deba­te entre Fernando Haddad e José Serra. Metafísica nenhu­ma, minha cara. Meu ana­lis­ta (se eu tives­se um) ado­ra­ria que eu con­tas­se esse tipo de sonho. É sem­pre assim: sonho com o juiz Joaquim Barbosa tra­ba­lhan­do como ator em um fil­me sobre o PCC (no papel de líder), o Thomas Pynchon no ele­va­dor dizen­do “des­ce”, a Dilma me ali­san­do no escu­ri­nho do cine­ma (sobe), o Jimi Hendrix tro­can­do o pneu do car­ro (que eu não tenho nem nun­ca mais vou ter, depois do aci­den­te), o Neymar em uma ses­são de autó­gra­fos per­gun­tan­do o meu nome… É uma des­gra­ça, Vilma. Minha vida inte­ri­or virou minha time­li­ne no Twitter.

Enfim, tam­bém ando, ou melhor, caval­go, como o seu Rocinante, mui­to meta­fí­si­co, mas deve ser por­que não tenho comi­do nin­guém. Dei um tem­po na nos­sa peça e andei escre­ven­do alguns poe­mas sobre amo­res expres­sos. Nada como um expres­so e um pé na bun­da para nos empur­rar pra fren­te. Mas ago­ra che­ga, já deve estar saci­a­da a sede por vida inte­ri­or da nos­sa utó­pi­ca pla­teia. Quero saber mais de suas aulas cali­for­ni­a­nas (aque­la apa­ri­ção do esqui­lo inti­mi­da­dor, que con­to per­fei­to, que epi­fa­nia!). Como tem sido o emba­te Obama x Romney na aca­de­mia de Letras?

Quando você res­pon­der já pode­rá me dizer quem ganhou, se o negão ou o negui­nho. Estou com medo, Vilma. Acho que o negão deu mole no pri­mei­ro deba­te, pare­cia meio dis­traí­do, sem fome de bola. Acho que o mór­mon vai fatu­rar e os EUA vão entrar em outra guer­ra cre­ti­na. Falar em mór­mon, outro dia esti­ve falan­do pra uns alu­nos lotan­do uma peque­na bibli­o­te­ca de Vargem Grande Paulista, região metro­po­li­ta­na de São Paulo. Parecia uma mis­sa, havia umas cem pes­so­as supe­ra­ten­tas, que­ri­am saber sobre livros, jor­na­lis­mo, inter­net, car­rei­ra, uni­ver­si­da­de, foi exaus­ti­vo falar por duas horas sem parar, não sei como vocês pro­fes­so­res con­se­guem. Um garo­to me inqui­riu, meio cabrei­ro, por que eu tinha publi­ca­do livros com os nomes Infernos pos­sí­veis e Céu de Lúcifer — e me suge­riu ler O Livro de Mórmon. Disse a ele que já tinha lido e que eu admi­ra­va espe­ci­al­men­te, em sua dou­tri­na, a ado­ção da poli­ga­mia, uma prá­ti­ca mui­to cora­jo­sa, eu dis­se, meio dis­traí­do, ape­sar da gra­na que deve ser ban­car tro­cen­tos casa­men­tos, eu mal ban­co um cine­ma para uma ami­ga. Acho que ele não gos­tou do meu comen­tá­rio, inad­ver­ti­do por supu­es­to, já que, como dis­se, esta­va can­sa­do, e se piru­li­tou. Mas no geral foi mui­to baca­na a pales­tra, as pes­so­as pare­ci­am tão inte­res­sa­das e caren­tes, e tal­vez por isso pare­ces­sem tão mais vivas do que em qual­quer outro lugar. Vivemos em um mun­do de men­ti­ra, essa zona oes­te onde só habi­tam as figu­ri­nhas do Facebook e as memes do Twitter.

Logo depois da pales­tra, Vilma, conhe­ci um cara cujo filho tinha sido mor­to por cin­co poli­ci­ais, que se jus­ti­fi­ca­ram afir­man­do que o garo­to tinha resis­ti­do à pri­são. O pai inves­ti­gou o cri­me e des­co­briu que os poli­ci­ais havi­am erra­do — tinham exe­cu­ta­do um “sus­pei­to” a san­gue frio (o velho papo de “ati­tu­de sus­pei­ta” que nos­sa bra­va PM pau­lis­ta ado­ra, tem vis­to os mas­sa­cres diá­ri­os na região metro­po­li­ta­na? E a cara de pau do nos­so secre­tá­rio de segu­ran­ça?) — e os colo­cou na cadeia (a notí­cia está aqui). O cara, que tra­ba­lha­va na pre­fei­tu­ra e por isso esta­va na bibli­o­te­ca, me mos­trou o bra­ço: ali o ros­to do filho, enci­man­do a pala­vra “Herói”. No que estou te escre­ven­do isso, uma joa­ni­nha veio voan­do e pou­sou na tela do meu com­pu­ta­dor. Não sei o que isso quer dizer. Não sei o que aque­la cena quis me dizer. Eu olha­va para a tatu­a­gem do homem, olha­va para a cara do sujei­to que tinha per­di­do o seu filho. Eu tinha lido a notí­cia no jor­nal, mas não sabia que a cara dele era aque­la e a cara dele era aque­la que me olha­va, a cara de quem olha­va para a mor­te todo dia. Saí da pales­tra esgo­ta­do, can­sa demais dar aula, can­sa demais falar de si mes­mo; naque­la noi­te tive um sonho mais estra­nho que o do Serra. Mas acho melhor guar­dar pra mim. E a joa­ni­nha só pode ser paren­te do seu esqui­lo.

Beijo,

Ronaldo

P.S.: Vamos falar mal da capa da Veja toda sema­na, Vilma? Essa falan­do mal da maco­nha é gro­tes­ca­men­te ruim. Esqueceram com­ple­ta­men­te como se faz jor­na­lis­mo ali.

P.S.2: Aquele meu bró­der bru­to aca­bou de ope­rar o umbi­go. Deve ser por isso que recla­mou que não tenho vida inte­ri­or. Mas ele está bem, obri­ga­do.

P.S.3: Segue um poe­ma para ilu­mi­nar (ou tur­var) a peça.

À espe­ra da pró­xi­ma visi­ta

, ten­ta man­ter den­tro da men­te um espa­ço ina­bi­tá­vel
como aque­les car­ri­nhos de mon­ta­nha-rus­sa que sem­pre saem vazi­os
um espa­ço enig­má­ti­co fei­to uma simu­la­ção de incên­dio
e den­tro de você os fun­ci­o­ná­ri­os des­cem as esca­das em silên­cio

então eis você aqui de novo
você e você
abso­lu­te begin­ners

em bre­ve os sinos e os sexos e os cân­ti­cos e os gozos
e depois um conhe­ci­men­to lus­co-fus­co uma rea­ção extra­pi­ra­mi­dal
afi­nal todo mun­do sabe algu­ma coi­sa que você não sabe

sim baby moro a uma rua do fim do mun­do
e até em casa me sin­to visi­ta
traz só vinho pois não que­ro saber de mais notí­ci­as
não que­ro mais saber de espe­rar o mar me tra­zer men­sa­gens

teu espa­ço ina­bi­tá­vel te cochi­cha
que no fim a gen­te só arru­ma a casa pra pró­pria visi­ta
não há air­bag con­tra o amor
e quem joga paci­ên­cia com o des­ti­no sem­pre capo­ta

sim baby a gen­te só se encon­tra mes­mo no fim
e quan­do o fim che­ga
a gen­te não sabe mais de onde veio

* Na ima­gem que ilus­tra a home do post: o segun­do deba­te entre Obama e Romney.

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