Ken Regan

Allen Ginsberg e Bob Dylan

Ken Regan

Allen Ginsberg e Bob Dylan

Sou um poeta e sei disso’

Literatura

13.10.16

Nos últi­mos anos, quan­do o nome de Bob Dylan era cota­do para o Nobel de Literatura, sem­pre havia quem pro­tes­tas­se con­tra a pos­si­bi­li­da­de de o mai­or prê­mio lite­rá­rio do mun­do ser con­ce­di­do a um com­po­si­tor. Nesta quin­ta, a Academia Sueca enfim o reco­nhe­ceu como cri­a­dor de “novas expres­sões poé­ti­cas den­tro da gran­de tra­di­ção da can­ção ame­ri­ca­na”, encer­ran­do uma polê­mi­ca que, a rigor, nun­ca fez sen­ti­do. Afinal de con­tas, Dylan foi acei­to como poe­ta des­de o iní­cio de sua car­rei­ra musi­cal por nin­guém menos que Allen Ginsberg.

O autor de “Uivo”, um dos pais do movi­men­to beat que revo­lu­ci­o­nou a cul­tu­ra ame­ri­ca­na na déca­da de 1950, ouviu Dylan pela pri­mei­ra vez em 1963. A músi­ca era “A hard rain’s a-gon­na fall”. Ao escu­tar os ver­sos, uma suces­são avas­sa­la­do­ra de ima­gens de um mun­do em desor­dem ame­a­ça­do por um dilú­vio bíbli­co, Ginsberg cho­rou. “Senti que a tocha tinha sido pas­sa­da para a gera­ção seguin­te”, dis­se o poe­ta em entre­vis­ta incluí­da no docu­men­tá­rio de Martin Scorsese sobre Dylan, No direc­ti­on home.

Um regis­tro sim­bó­li­co des­sa rela­ção entre os dois está no céle­bre cli­pe de “Subterranean home­sick blu­es”, lan­ça­do em 1965, no momen­to em que Dylan escan­da­li­zou os puris­tas ao tro­car o vio­lão pela gui­tar­ra elé­tri­ca. O vídeo mos­tra o com­po­si­tor de 24 anos enca­ran­do a câme­ra com uma expres­são entre o desa­fio e o des­dém, enquan­to dei­xa cair car­ta­zes com frag­men­tos dos ver­sos. Ao fun­do, com a incon­fun­dí­vel bar­ba des­gre­nha­da, Ginsberg con­ver­sa ani­ma­da­men­te com alguém fora de qua­dro. Para mar­car sua posi­ção trans­for­ma­do­ra na cul­tu­ra dos anos 1960, Dylan con­vo­ca o poe­ta revo­lu­ci­o­ná­rio da déca­da ante­ri­or.

Na ami­za­de entre Dylan e Ginsberg, o poe­ta mais velho era men­tor mas tam­bém apren­diz do mais jovem. O men­tor apa­re­ce na sur­re­al visi­ta que os dois fize­ram ao túmu­lo de Jack Kerouac, outro padro­ei­ro beat, em 1975. Durante o pas­seio pelo cemi­té­rio de Lowell, cida­de natal do autor de Pé na estra­da, Ginsberg fala a Dylan sobre trans­cen­dên­cia e poe­sia (“É isso que vai acon­te­cer com você?”, diz, apon­tan­do a lápi­de). Os dois leem tre­chos de poe­mas de Kerouac, do livro Mexico City blu­es, que o com­po­si­tor cita como uma de suas gran­des influên­ci­as. O momen­to foi cap­ta­do no fil­me Reinaldo e Clara, diri­gi­do pelo pró­prio Dylan, sobre os bas­ti­do­res de uma tur­nê sua que teve par­ti­ci­pa­ção de Ginsberg.

Já o Ginsberg apren­diz se mos­tra nas vári­as oca­siões em que con­fes­sou seu des­lum­bra­men­to com a poe­sia de Dylan. Mais de uma vez, dis­se que os ver­sos do ami­go muda­ram sua for­ma de pen­sar o pró­prio ofí­cio. Convidado a assi­nar o tex­to de apre­sen­ta­ção do dis­co Desire, de 1976, o poe­ta des­cre­veu as can­ções do álbum como “o ápi­ce da poe­sia-músi­ca sonha­da nos anos 1950”.

Compositor, músi­co, can­tor e escri­tor de pro­sa e poe­sia, Dylan nun­ca ligou para fron­tei­ras entre gêne­ros. Se a his­tó­ria do Nobel tam­bém é fei­ta de omis­sões (como a do pró­prio Ginsberg), o prê­mio des­ta quin­ta-fei­ra ilu­mi­na a posi­ção sin­gu­lar de Dylan na his­tó­ria da lite­ra­tu­ra. Sua obra deve tan­to à influên­cia deci­si­va de músi­cos folk, como Woody Guthrie, quan­to ao diá­lo­go cri­a­ti­vo com gera­ções de poe­tas, dos beats a Rimbaud, de Whalt Whitman a Dylan Thomas, de quem tomou empres­ta­do o pseudô­ni­mo. Em um ver­so irô­ni­co da can­ção “I shall be free no 10”, de 1964, ele já resu­mia tudo: “I’m a poet and I know it” (“sou um poe­ta e sei dis­so”).

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