Sudoeste, uma fábula fabulosa

No cinema

16.11.12

O cinema do IMS-RJ exibe o filme Sudoeste nos dias 16 e 17 de agosto, às 20h.

 

Dois fil­mes bra­si­lei­ros mui­to for­tes estão em car­taz e mere­cem — ou melhor, pre­ci­sam — ser vis­tos antes que sejam esma­ga­dos pelos block­bus­ters do momen­to.

Sobre Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes, já dis­cor­ri, ain­da que bre­ve­men­te, ao comen­tar o fes­ti­val de Brasília, que ele ven­ceu, empa­ta­do com Eles vol­tam.

Agora cabe des­ta­car, com urgên­cia, o extra­or­di­ná­rio Sudoeste, de Eduardo Nunes, que está em car­taz no Rio e em segui­da apor­ta em São Paulo e outras capi­tais.

Longa-metra­gem de estreia do dire­tor nite­roi­en­se, fes­te­ja­do por cur­tas como TerralA infân­cia da mulher bar­ba­daReminiscência, Sudoeste é um pro­je­to ambi­ci­o­so que demo­rou dez anos para se rea­li­zar, e o resul­ta­do impres­si­o­na por seu refi­na­men­to esté­ti­co e sua ousa­dia for­mal.

Seus dois tra­ços visu­ais mais evi­den­tes — a foto­gra­fia em pre­to e bran­co e o for­ma­to da tela (3,66:1), mais hori­zon­tal até do que o cine­mas­co­pe — não são meros caco­e­tes esti­lís­ti­cos, mas, ao con­trá­rio, ser­vem per­fei­ta­men­te à pro­pos­ta dra­má­ti­ca do fil­me, ao uni­ver­so físi­co e huma­no que ele cons­trói.

De seu entre­cho dra­má­ti­co, o que se pode dizer é que tra­ta de um dia na vida de um vila­re­jo lacus­tre, duran­te o qual se desen­ro­la toda a exis­tên­cia de uma mulher, Clarice (Raquel Bonfante, Simone Spoladore e duas outras atri­zes). Soa enig­má­ti­co? Assista ao fil­me para enten­der o que se pas­sa.

Tempos sobre­pos­tos

Ao situ­ar seus per­so­na­gens num lugar apa­ren­te­men­te para­do no tem­po, ou fora dele, Sudoeste se filia de algum modo a toda uma famí­lia de fil­mes bra­si­lei­ros recen­tes: Mãe e filha, de Petrus Cariry,Girimunho, de Clarice Campolina e Helvécio Marins, Histórias que só exis­tem quan­do lem­bra­das, de Júlia Murat. Reparando melhor, são, todas elas, obras em que se sobre­põem duas ordens de tem­po: o tem­po cícli­co, cir­cu­lar, e o tem­po his­tó­ri­co ou cro­no­ló­gi­co. Um ante­ce­den­te mais ou menos pró­xi­mo seria A ostra e o ven­to (1997), do vete­ra­no Walter Lima Jr., e um ante­pas­sa­do mais remo­to, Limite(1930), de Mário Peixoto. Essa espé­cie de nega­ção do con­tem­po­râ­neo por tan­tos jovens cine­as­tas pode­ria ser um tema inte­res­san­te de pes­qui­sa e aná­li­se. Mas vol­te­mos ao fil­me.

À teia de tem­pos sobre­pos­tos pre­sen­tes nos outros exem­plos cita­dos, Sudoeste acres­cen­ta mais um, que é, diga­mos, um tem­po meta­fí­si­co ou mes­mo fan­tás­ti­co. A apro­xi­ma­ção aqui, tan­to em ter­mos plás­ti­cos como filo­só­fi­cos, é com o cine­ma de Tarkóviski, com ecos tam­bém (até pela seme­lhan­ça da pai­sa­gem, dos botes etc.) do Mizoguchi de Contos da lua vaga. Talvez a asso­ci­a­ção soe um tan­to for­ça­da, mas nin­guém nega­rá que o apu­ro plás­ti­co da foto­gra­fia de Mauro Pinheiro Jr. na cons­tru­ção de um espaço/tempo espe­ci­fi­ca­men­te cine­ma­to­grá­fi­co só encon­tra para­le­lo nos melho­res momen­tos do cine­ma rus­so, japo­nês ou nór­di­co.

Poesia visu­al

Alguns crí­ti­cos viram no fil­me um exces­so este­ti­zan­te que teria obs­cu­re­ci­do “a his­tó­ria a ser con­ta­da”. Discordo. Um dos méri­tos mai­o­res de Sudoeste é o de não ser a ilus­tra­ção audi­o­vi­su­al de uma his­tó­ria pré-exis­ten­te (num livro, ou num rotei­ro), mas o de engen­drar sua nar­ra­ti­va a cada pla­no, por meio da luz, do rit­mo, dos efei­tos sono­ros — e só aces­so­ri­a­men­te pelo diá­lo­go, aliás escas­so.

Filme em que não há um úni­co pla­no feio, des­cui­da­do ou des­ne­ces­sá­rio, Sudoeste é pró­di­go em momen­tos de gran­de poe­sia visu­al:  um bar­ra­co sobre pala­fi­tas quei­man­do soli­tá­rio no meio do lago, a jane­la que se abre (como uma tela de cine­ma) para cri­an­ças brin­can­do de cor­rer na chu­va, a sali­na que se esten­de a per­der de vis­ta com seus peque­nos mon­tes de sal e seus minús­cu­los lagos, uma vela que se acen­de cri­an­do o mun­do ao seu redor etc.

Algumas últi­mas infor­ma­ções: o fil­me foi roda­do nas pro­xi­mi­da­des de Arraial do Cabo, na cha­ma­da região dos lagos, e ganhou no Festival do Rio do ano pas­sa­do o prê­mio espe­ci­al do júri, o de foto­gra­fia e o da Fipresci (crí­ti­ca inter­na­ci­o­nal), con­quis­ta­do tam­bém no Festival de Toulouse. O elen­co tem ain­da a vete­ra­na Léa Garcia, como uma espé­cie de bru­xa, Dira Paes, Mariana Lima e Everaldo Pontes, entre outros.

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