Super Piano Bros

Música

07.03.16

A músi­ca ins­tru­men­tal bra­si­lei­ra nun­ca foi exa­ta­men­te popu­lar, com a gri­tan­te exce­ção de Villa-Lobos, mas tor­nar a pro­du­ção naci­o­nal na área mais conhe­ci­da sem­pre foi um dos obje­ti­vos de Alexandre Dias, fun­da­dor do Instituto do Piano Brasileiro, que se diz um “mili­tan­te da cau­sa”. Especialista na obra de Ernesto Nazareth, Alexandre tem for­ma­ção de pia­nis­ta e toca­rá no Recital Ernesto Nazareth 150+3, no dia 19 de mar­ço, no IMS-RJ.

Sempre pen­san­do em como aumen­tar o públi­co inte­res­sa­do em músi­ca bra­si­lei­ra, e como tirar obras incrí­veis do res­tri­tís­si­mo gue­to dos eru­di­tos, Alexandre recor­reu a outra pai­xão sua: os vide­o­ga­mes. Como expe­ri­men­to, lan­çou dois víde­os, unin­do cenas de jogos clás­si­cos como Super Mario Bros e Chrono Trigger, a músi­ca bra­si­lei­ra para pia­no cui­da­do­sa­men­te esco­lhi­da para cada cena.

Os víde­os, que foram mui­to bem rece­bi­dos, jun­tam-se de for­ma ines­pe­ra­da a todo um uni­ver­so de víde­os no Youtube nos quais a músi­ca de vide­o­ga­mes é o foco, sen­do rein­ter­pre­ta­da cons­tan­te­men­te: há vári­os canais fazen­do ver­sões a capel­la, em vio­lão ou pia­no solo de tri­lhas clás­si­cas.

Alexandre Dias des­co­briu os games quan­do cri­an­ça, na gera­ção 8-bits, isto é, com o NES, mais conhe­ci­do no país como Nintendinho. Os vide­o­ga­mes não per­mi­ti­am tri­lhas com­ple­xas, res­trin­gin­do-se a uma sono­ri­da­de de sin­te­ti­za­do­res monofô­ni­cos. Ainda assim, com­po­si­to­res como Koji Kondo (Super Mario Bros., Zelda) con­se­gui­ram se des­ta­car, ape­sar das limi­ta­ções téc­ni­cas.

Você pas­sa horas e horas jogan­do vide­o­ga­me, e a tri­lha repe­te tan­tas vezes que você inter­na­li­za elas, e mui­tas vezes se apai­xo­na pelas músi­cas. Tenho a con­vic­ção de que a músi­ca dos jogos mar­cam tan­to os joga­do­res por­que pas­sa­mos a espe­rar por ela, sen­ti­mos ale­gria quan­do toca um tema espe­ra­do”, afir­ma.

Apaixonar-se pela repe­ti­ção. De cer­to modo, Alexandre argu­men­ta, para gos­tar de com­ple­xas peças de músi­ca eru­di­ta, o pro­ces­so é o mes­mo. Precisamos escu­tar inú­me­ras vezes a mes­ma peça de Villa-Lobos para con­se­guir­mos apre­en­dê-la, deco­di­fi­car a estru­tu­ra. E que lugar melhor para escu­tar vári­as vezes o mes­mo tema que o vide­o­ga­me?

Foi a par­tir des­ta refle­xão que Alexandre bolou esta pro­vo­ca­ção em dois atos: “Quis des­per­tar o poten­ci­al que há na rela­ção entre músi­ca eru­di­ta e músi­ca de vide­o­ga­mes. Os jogos tem mui­tos fãs, e os víde­os gera­ram mui­tas rea­ções dís­pa­res. Há puris­tas que fica­ram inco­mo­da­dos com a mis­tu­ra. As pes­so­as ficam tão acos­tu­ma­das a asso­ci­ar a figu­ra do Sonic ou do Mario a uma tri­lha espe­cí­fi­ca que não gos­ta­ram de ouvir outra músi­ca naque­la cena. Mas o gamer, a par­tir des­sa pro­vo­ca­ção, pode pas­sar a se inte­res­sar mais por músi­ca ins­tru­men­tal bra­si­lei­ra.”

Apesar de ter ela­bo­ra­do essa mis­tu­ra que pode pare­cer um sacri­lé­gio a mui­tos joga­do­res, Alexandre Dias se diz fã de vári­as tri­lhas famo­sas, como a de Chrono Trigger, clás­si­co do Super Nintendo, com­pos­ta por Yasunori Mitsuda, e a do supra­ci­ta­do Super Mario Bros., de Koji Kondo. Por outro lado, cri­ti­ca músi­cas que só tem uma par­te, não explo­ram tim­bres, são mui­to monotô­ni­cas, o que ocor­re des­de o tem­po do Atari até o Playstation 4.

Penso que os pro­gra­ma­do­res de jogos” – e há uma indús­tria cres­cen­te no Brasil – “podi­am apro­vei­tar mais a músi­ca bra­si­lei­ra. Há mui­tos tra­ba­lhos ins­tru­men­tais em domí­nio públi­co que pode­ri­am ser usa­dos. Podiam se valer do gêne­ro musi­cal cha­ma­do toca­ta, que con­sis­te em músi­cas rápi­das em modo per­pé­tuo, que pos­su­em um rit­mo pujan­te. As toca­tas são óti­mas para sono­ri­zar jogos. Não à toa, o pri­mei­ro vídeo tem três toca­tas”.

A série de víde­os pre­ten­de con­ti­nu­ar, des­ta vez com um cola­bo­ra­dor auxi­li­an­do na esco­lha de jogos. Material não fal­ta­rá: o cená­rio dos jogos inde­pen­den­tes está em expan­são no mun­do todo, e a cada dia novos games são cri­a­dos com visu­ais impres­si­o­nan­tes (não ape­nas em ter­mos téc­ni­cos, mas artís­ti­cos). A impor­tân­cia da músi­ca nos games se tor­nou inques­ti­o­ná­vel: Hotline Miami, suces­so recen­te ins­pi­ra­do na esté­ti­ca da déca­da de 1980, foi ven­di­do com a tri­lha pren­sa­da em vinil; Journey, jogo de ares meta­fí­si­cos, teve a tri­lha exe­cu­ta­da ao vivo por uma orques­tra enquan­to um joga­dor per­cor­ria o des­lum­bran­te cená­rio vir­tu­al, tam­bém ao vivo – a gra­ça é que a tri­lha se adap­ta con­for­me a cena do jogo.

A músi­ca bra­si­lei­ra é a mais rica do mun­do. Ela implo­ra para ser apro­vei­ta­da”, diz Alexandre Dias. Fãs de vide­o­ga­mes des­pi­dos de pre­con­cei­tos que assis­ti­rem aos víde­os ten­de­rão a con­cor­dar. 

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