Suspense ao sul

No cinema

16.09.16

Por um feliz aca­so, estão che­gan­do aos cine­mas pra­ti­ca­men­te ao mes­mo tem­po dois fil­mes de sus­pen­se de cine­as­tas bra­si­lei­ros da nova gera­ção. Por vias dife­ren­tes, eles are­jam e revi­ta­li­zam esse gêne­ro tão pou­co cul­ti­va­do entre nós. A boa notí­cia é que ambos são óti­mos.

Mate-me por favor, lon­ga-metra­gem de estreia da cari­o­ca Anita Rocha da Silveira, que aca­ba de entrar em car­taz, tal­vez pos­sa ser defi­ni­do como um sus­pen­se juve­nil, dada a fai­xa etá­ria de seus per­so­na­gens, o espec­tro de suas refe­rên­ci­as e a agi­li­da­de pop de sua abor­da­gem.

O silên­cio do céu, do pau­lis­ta Marco Dutra (de Trabalhar can­sa e Quando eu era vivo), que estreia no pró­xi­mo dia 22, é ine­qui­vo­ca­men­te um fil­me madu­ro, um sus­pen­se tão adul­to que leva o gêne­ro à fron­tei­ra com a tra­gé­dia.

Mate-me por favor

Em Mate-me por favor, rapa­zes e garo­tas – prin­ci­pal­men­te garo­tas – de um colé­gio de clas­se média da Barra da Tijuca vivem seu coti­di­a­no ado­les­cen­te sob a som­bra de uma série de cri­mes sexu­ais come­ti­dos, ao que pare­ce, por um úni­co psi­co­pa­ta.

A pro­e­za mai­or da dire­to­ra é equi­li­brar o fio ten­so do sus­pen­se e do mis­té­rio com o dia a dia pro­sai­co de cole­gi­ais, com seus típi­cos pro­ble­mas e pre­o­cu­pa­ções (as intri­gas amo­ro­sas, as curi­o­si­da­des eró­ti­cas, as riva­li­da­des, a bus­ca de iden­ti­da­de e afir­ma­ção). Um jogo per­ma­nen­te entre ten­são e dis­per­são, que, na mise-en-scè­ne, se expres­sa numa osci­la­ção entre uma abor­da­gem natu­ra­lis­ta e a inser­ção de momen­tos de fan­ta­sia e esti­li­za­ção, qua­se cli­pes inde­pen­den­tes enxer­ta­dos no cor­po da nar­ra­ti­va (um cul­to evan­gé­li­co notur­no e moder­ni­nho, uma core­o­gra­fia funk no pátio do colé­gio, um ros­to que olha dire­ta­men­te para a câme­ra e gol­fa san­gue pela boca).

O real e o ima­gi­ná­rio se entre­cru­zam numa espé­cie de entre-lugar cri­a­do pelo fil­me e expres­so de modo mui­to feliz em sua insó­li­ta geo­gra­fia. É, para come­çar, um fil­me cari­o­ca em que não se vê o mar. A mai­or par­te de sua ação exter­na se pas­sa num mata­gal e des­cam­pa­do entre a mon­ta­nha e os fun­dos dos edi­fí­ci­os resi­den­ci­ais da Barra. É como se fos­se um espa­ço vazio em que se pro­je­ta o ima­gi­ná­rio ator­men­ta­do daque­las meni­nas.

Em par­ti­cu­lar de uma delas, Bia (a exce­len­te Valentina Herszage), que se tor­na obce­ca­da pelos assas­si­na­tos em série a pon­to de se iden­ti­fi­car com as víti­mas: a cena em que ela bei­ja a boca ensan­guen­ta­da de uma delas, ago­ni­zan­te, a pre­tex­to de fazer res­pi­ra­ção boca a boca, é uma das mais for­tes do fil­me. Com seus silên­ci­os per­tur­ba­do­res, suas ati­tu­des impre­vis­tas, seu ros­to de esfin­ge, Bia é a ima­gem con­den­sa­da da ado­les­cên­cia e seu mis­té­rio irre­du­tí­vel.

Com uma habi­li­da­de sur­pre­en­den­te para uma estre­an­te em lon­ga, Anita Rocha da Silveira arti­cu­la os códi­gos de pelo menos dois gêne­ros, os teen hor­ror movi­es ame­ri­ca­nos (com uma pis­ca­de­la aos fil­mes de mor­tos-vivos) e o gial­lo ita­li­a­no, com sua vis­to­sa este­ti­za­ção do san­gui­no­len­to.

Embalada por funk cari­o­ca, can­ções român­ti­cas de gos­to duvi­do­so e um hor­ren­do gos­pel pop, essa moça­da que não cos­tu­ma apa­re­cer no nos­so cine­ma bus­ca deci­frar o mun­do e inse­rir-se nele à sua manei­ra.

É um fil­me deci­di­da­men­te femi­ni­no. Ainda que sejam víti­mas – reais ou poten­ci­ais – da vio­lên­cia mas­cu­li­na, é a for­ça do dese­jo e do ima­gi­ná­rio des­sas meni­nas que move tudo.

O silên­cio do céu

Se a vio­lên­cia con­tra a mulher per­pas­sa Mate-me por favor, toda a ação dra­má­ti­ca de O silên­cio do céu gira em tor­no de um estu­pro, apre­sen­ta­do de modo bru­tal já nas pri­mei­ras ima­gens. Adaptação de um roman­ce do argen­ti­no Sergio Bizzio, o fil­me se pas­sa em Montevidéu (ori­gi­nal­men­te seria em Buenos Aires) e con­ta com elen­co de três paí­ses (Brasil, Argentina e Uruguai), embo­ra seja uma pro­du­ção bra­si­lei­ra.

Uma pos­sí­vel sinop­se sem spoi­ler seria a seguin­te: em sua casa num bair­ro de clas­se média de Montevidéu, uma esti­lis­ta de moda bra­si­lei­ra, Diana (Carolina Dieckmann), é imo­bi­li­za­da e estu­pra­da por dois homens. Seu mari­do, o rotei­ris­ta de tele­vi­são Mario (Leonardo Sbaraglia), che­ga em casa a tem­po de pre­sen­ci­ar o ato, mas não con­se­gue agir. Sua mulher não sabe que ele viu tudo. Ela não con­ta nada a ele, ele não con­ta nada a ela.

A par­tir des­se acon­te­ci­men­to bru­to – e do silên­cio em tor­no dele – se  desen­vol­ve, como que em espi­ral, uma ten­sa e intrin­ca­da nar­ra­ti­va, que ora assu­me o pon­to de vis­ta de Mario, ora a de Diana. Esse des­lo­ca­men­to do olhar, bem como o hábil desen­vol­vi­men­to da dia­lé­ti­ca entre o mos­trar e o ocul­tar, man­têm o espec­ta­dor em per­ma­nen­te esta­do de aten­ção e des­co­ber­ta, como nos melho­res sus­pen­ses.

A obses­são doen­tia do pro­ta­go­nis­ta em inves­ti­gar em segre­do todo um lado des­co­nhe­ci­do da vida de sua ama­da faz lem­brar dois fil­mes, o clás­si­co Um cor­po que cai, de Hitchcock, e o recen­te Para minha ama­da mor­ta, de Aly Muritiba, ain­da que as tra­mas e os con­tex­tos sejam com­ple­ta­men­te diver­sos nos três casos.

Por mais que os per­so­na­gens, tan­to ela como ele, se expo­nham na locu­ção em off que repro­duz seus flu­xos de cons­ci­ên­cia, algo neles sem­pre per­ma­ne­ce opa­co e ines­cru­tá­vel.

Há um deta­lhe de ence­na­ção que não deve pas­sar bati­do: quan­do vê pela jane­la a mulher sen­do estu­pra­da, Mario pega uma gran­de pedra, entra em casa com ela, mas hesi­ta em usá-la con­tra os agres­so­res e a dei­xa sobre uma mesa de tra­ba­lho, tro­can­do-a por uma gran­de tesou­ra. Pois bem: duran­te todo o fil­me essa pedra per­ma­ne­ce­rá pou­sa­da no mes­mo lugar, sem que nin­guém a tire dali ou ques­ti­o­ne a sua pre­sen­ça. É como que a repre­sen­ta­ção visu­al, con­cre­ta, de um peso ou obs­tá­cu­lo indi­zí­vel que pas­sa a exis­tir entre o casal.

A ausên­cia de um final feliz ou reden­tor, pode­ría­mos dizer, é resul­ta­do des­sa pedra no meio do cami­nho.

Curiosidades bio­grá­fi­cas: Anita Rocha da Silveira, dire­to­ra de Mate-me por favor, é neta da gran­de psi­qui­a­tra Nise da Silveira; Chino Darín, o estu­pra­dor de cabe­ça ras­pa­da de O silên­cio do céu, é filho de Ricardo Darín.

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