Suspense gourmet

Cinema

21.03.12

Um homem con­vi­da o ami­go psi­qui­a­tra para almo­çar e come­ça a falar sobre um pos­sí­vel pro­ble­ma men­tal; por vári­as vezes, conhe­ci­dos dis­se­ram tê-lo avis­ta­do em algum can­to da cida­de, mas ele não se lem­bra de ter esta­do nes­tes luga­res. Na ver­da­de, ele tem cer­te­za abso­lu­ta de que, em tais momen­tos, esta­va em outro local, fazen­do outra coi­sa. O pro­ble­ma não seria tão gra­ve se, aos pou­cos, o tal sósia não come­ças­se a apa­re­cer tam­bém no clu­be que fre­quen­ta e a inte­ra­gir com seus ami­gos, que são inca­pa­zes de notar qual­quer dife­ren­ça em sua apa­rên­cia ou com­por­ta­men­to. Mais gra­ve ain­da, o sósia come­ça a apa­re­cer em sua casa e, apa­ren­te­men­te, pos­sui a sua pró­pria cha­ve. Perturbado, ele man­da tro­car a fecha­du­ra e resol­ve fal­tar no ser­vi­ço, mas nin­guém dá con­ta de sua ausên­cia, pois o homem mis­te­ri­o­so apa­re­ceu em seu lugar e exe­cu­tou suas tare­fas da mes­ma for­ma que ele pró­prio teria fei­to. No mes­mo dia, ele deci­de se dis­trair, vai ao cine­ma e, ao che­gar tar­de da noi­te em casa, encon­tra a lou­ça suja do jan­tar que seu “outro eu” come­ra. Ele per­gun­ta ao psi­qui­a­tra se é pos­sí­vel estar fisi­ca­men­te em um lugar e men­tal­men­te em outro, com­ple­ta­men­te dife­ren­te, mas com tan­to deta­lhe e rea­lis­mo que esse lugar ima­gi­ná­rio lhe pare­ça o ver­da­dei­ro. Mas ele logo se lem­bra de ter assis­ti­do ao fil­me e de ter se cer­ti­fi­ca­do, no dia seguin­te, de que era aque­le mes­mo que esta­vam exi­bin­do, e que não pode­ria ter sido sua ima­gi­na­ção. Confuso, ele des­cre­ve a sen­sa­ção de estar sen­do cer­ca­do por esse outro homem, tão idên­ti­co a ele que nin­guém pare­ce per­ce­ber se tra­tar de um impos­tor e que, pou­co a pou­co, vai toman­do a sua vida para si, até que ele mes­mo desa­pa­re­ça por com­ple­to, expul­so de sua pró­pria vida. Este é o enre­do de “The Case of Mr. Pelham”, um dos melho­res epi­só­di­os da série de tele­vi­são Alfred Hitchcock Presents, exi­bi­da na déca­da de 1950 e 1960.

Com dez tem­po­ra­das, pou­co mais de duzen­tos e ses­sen­ta epi­só­di­os, e con­vi­da­dos ilus­tres como Vincent Price, Christopher Lee, Peter Lorre, Steve McQueen, Bette Davis, entre mui­tos outros (inclu­si­ve a recor­ren­te Patricia Hitchcock, filha de Alfred Hitchcock), tra­ta-se de um pro­gra­ma tele­vi­si­vo de qua­li­da­de rara, base­a­do prin­ci­pal­men­te em atu­a­ções for­tes e rotei­ros excep­ci­o­nais (dois dos melho­res epi­só­di­os de toda a série, “Man From the South” e “Lamb to the Slaughter”, são adap­ta­ções do exce­len­te livro de con­tos de Roald Dahl, “Tales of the Unexpected”; sem falar na con­tri­bui­ção de sete epi­só­di­os de Ray Bradbury e de três epi­só­di­os de Cornell Woolrich, autor do con­to que deu ori­gem à obra-pri­ma “Janela Indiscreta”) — e isso tudo mui­to antes da HBO apa­re­cer com The Sopranos, The Wire, Mad Men, etc., séri­es de qua­li­da­de ver­da­dei­ra­men­te cine­ma­to­grá­fi­cas. Hitchcock nos mos­tra que não é de hoje que as fron­tei­ras entre o cine­ma e a tele­vi­são vêm se estrei­tan­do, ao pon­to de qua­se per­der­mos de vis­ta a divi­são que os sepa­ra. Na série, é cla­ro, os epi­só­di­os são mais cur­tos, pos­su­em uma dura­ção de mais ou menos vin­te e cin­co minu­tos (em 1962, o pro­gra­ma seria reba­ti­za­do para The Alfred Hitchcock hour e os epi­só­di­os pas­sa­ri­am a ter uma hora cada), as situ­a­ções são mais sim­ples, não há tan­ta expe­ri­men­ta­ção téc­ni­ca como, por exem­plo, as sequên­ci­as fei­tas em ani­ma­ção de Um cor­po que cai, mas o impac­to das tra­mas não dei­xa de ser o mes­mo de alguns dos melho­res exem­plos de sua cine­ma­to­gra­fia.

Diferentemente das pro­du­ções da HBO, os epi­só­di­os não são sequen­ci­ais, mas cada um apre­sen­ta um enre­do dife­ren­te, com per­so­na­gens dife­ren­tes, o que faz com que não haja neces­si­da­de de assis­tir as tem­po­ra­das ou os epi­só­di­os em ordem, tor­nan­do a expe­ri­ên­cia toda um pou­co menos peno­sa (mes­mo com toda a qua­li­da­de de The Sopranos, tal­vez a melhor série de tele­vi­são já fei­ta, há quem se sin­ta inti­mi­da­do com as seis tem­po­ra­das do pro­gra­ma, saben­do que pre­ci­sa­rá assis­tir todos os epi­só­di­os em ordem para acom­pa­nhar o desen­ro­lar da his­tó­ria até sua con­clu­são, isso sem falar na imer­são pro­fun­da nas vidas nem sem­pre agra­dá­veis dos per­so­na­gens). Com dezes­se­te epi­só­di­os diri­gi­dos por ele mes­mo, Hitchcock ofe­re­ce um entre­te­ni­men­to mais leve, mas nem por isso mais bobo ou fei­to com menos cui­da­do.

Poucos são os auto­res que con­se­gui­ram esta­be­le­cer, com ou sem o auxí­lio de outras mídi­as além da pró­pria, um uni­ver­so tão reco­nhe­cí­vel em nos­so ima­gi­ná­rio. Hitchcock, na tele­vi­são, refor­ça os mes­mos ele­men­tos de seus fil­mes: loi­ras peri­go­sas, homens usan­do ter­nos, pos­sí­veis víti­mas de cons­pi­ra­ções ela­bo­ra­das ou da con­fu­são de suas pró­pri­as men­tes, de idei­as fixas, do sobre­na­tu­ral, da estric­ni­na, do arsê­ni­co, da pól­vo­ra, da ten­ta­ti­va de exe­cu­tar o cri­me per­fei­to, do deta­lhe esque­ci­do… Além dis­so, há um sen­so de humor deli­ci­o­so como, por exem­plo, no epi­só­dio em que um gru­po de velhi­nhas deso­cu­pa­das deci­de come­ter uma série de assas­si­na­tos para con­se­guir cha­mar a aten­ção do vizi­nho boni­tão que, por aca­so, é dete­ti­ve da polí­cia. O mais mór­bi­do na situ­a­ção é que elas matam entre elas e, assim, o gru­po que ini­ci­al­men­te tinha cin­co velhi­nhas vai dimi­nuin­do, tudo na espe­ran­ça de rece­ber mais uma visi­ta do dete­ti­ve. Há tam­bém, como não pode­ria fal­tar, algo de com­ple­ta­men­te bizar­ro, como no epi­só­dio “The Glass Eye”, em que uma mulher soli­tá­ria se apai­xo­na por um ven­trí­lo­quo, mas aca­ba por des­co­brir que o ven­trí­lo­quo é, na ver­da­de, o bone­co.

Hitchcock con­se­guiu esta­be­le­cer tal uni­ver­so da mes­ma for­ma que as séri­es da HBO con­quis­ta­ram públi­co pelo mun­do, lidan­do com ques­tões uni­ver­sais, que pode­ri­am se pas­sar em qual­quer país, como o des­con­ten­ta­men­to com o tra­ba­lho, o casa­men­to, com a soli­dão e a mono­to­nia da roti­na diá­ria — todos moti­vos váli­dos que nos fazem jus­ta­men­te bus­car por entre­te­ni­men­to no cine­ma, na tevê ou, no caso da mai­o­ria de seus per­so­na­gens, em pro­ble­mas com a lei. E, como The Sopranos, The Wire e Mad Men, Hitchcock o faz com qua­li­da­de, com com­ple­xi­da­de, sem nun­ca tra­tar o espec­ta­dor como débil men­tal (coi­sa fre­quen­te nas pro­du­ções menos cui­da­do­sas). O dire­tor dis­se, uma vez, que os fil­mes não deve­ri­am ser como fati­as da rea­li­da­de, mas como fati­as de bolo. Mas não se tra­ta de qual­quer bolo por­ca­ria e sim da mais fina e deli­ci­o­sa sobre­me­sa gour­met.

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: o cine­as­ta Alfred Hitchcock.

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