Equipe IMS

Mundo em ruínas, cinema vivo

José Geraldo Couto

26.05.17

Mesmo num mercado exibidor estrangulado como o nosso, o cinema brasileiro às vezes encontra brechas para nos revelar boas surpresas. É o caso de três filmes de diretores estreantes em longas-metragens que estão em cartaz no país. São bem diferentes entre si em temática, linguagem narrativa e tamanho de produção, mas, cada um à sua maneira, trazem um novo alento para os cinéfilos.

A ruína da mente adolescente

Victor Heringer

22.05.17

Se nos fosse dado escolher um autor como farol da imaturidade, um olho mal-humorado fixo nesta terra de memes e videoclipes tumultuados por bundas e carros possantes, Witold Gombrowicz seria o mais apropriado. Sua ficção lida como nenhuma outra com a transição entre a criança e o adulto, e com as cicatrizes que ela pode deixar no corpo envelhecido. O último filme de Andrzej Żuławski foi uma adaptação de Cosmos, romance de 1965, o último que Gombrowicz escreveu. Żuławski lançou o filme em 2015 e morreu em 2016; Gombrowicz, em 1969. Poderíamos tentar ler um significado nessa coincidência de fins de linha, mas é melhor não.

Entre a província e o mundo

José Geraldo Couto

19.05.17

Nos filmes de Mariano Cohn e Gastón Duprat, como este O cidadão ilustre, há sempre uma relação tensa e ambígua entre uma Argentina culta, cosmopolita, europeizada, e uma Argentina profunda, rude e arcaica. Esse conflito se traduz invariavelmente, em termos dramatúrgicos, nos desajustes entre um artista de talento e seu entorno, entre o absoluto da criação estética e as contingências do cotidiano. Entre arte e cultura, em suma, entendida esta última em seu sentido mais amplo, antropológico.

Urgentes, na contramão

José Geraldo Couto

12.05.17

Não há tempo nem espaço para abordar todos os filmes relevantes em cartaz. Cabe então falar dos mais urgentes, isto é, daqueles que, por trafegarem na contramão do mercado, correm o risco de ser logo expelidos do circuito exibidor: Beduíno, o novo filme de Julio Bressane, Éden, de Bruno Safadi, e o documentário Crônica da demolição, de Eduardo Ades.

Trama, treta, drama

Kleber Mendonça Filho

11.05.17

Eu vi essa cópia nova de O que terá acontecido a Baby Jane? (1962), de Robert Aldrich, no Festival de Londres, em 2012, e me chamou a atenção a reação da plateia. Não sei se eu havia construído a minha própria relação com o filme em casa, mas eu me lembrava de um verdadeiro horror movie. Naquela sala de cinema, muita gente parecia rir, e logo descobri que eu também ria, um tipo tenso de riso pós-moderno, uma liberação coletiva de energia humana.

Crônica da demolição

Eduardo Ades

10.05.17

A história do Palácio Monroe é relativamente conhecida por todos que se interessam pela história do Rio de Janeiro ou por arquitetura. Eu me lembro de, criança, minha mãe me apontar a praça vazia e contar que ali existia um palácio. Acontece que, tanto para mim, como para a maioria das pessoas que conhece o caso, o Palácio Monroe faz parte das mitologias da cidade. A gente sabe que existiu esse prédio e que nenhuma explicação satisfatória foi dada para a sua demolição - e seguimos assim.

Crime, castigo e compaixão nas Filipinas

José Geraldo Couto

05.05.17

Assistir a um filme do filipino Lav Diaz é uma experiência tanto sensorial como espiritual.  Rodado em preto e branco, com os longos e belos planos fixos característicos de Diaz, A mulher que se foi, ganhador do Leão de Ouro no último festival de Veneza, é uma obra comparativamente curta na filmografia do diretor: não chega a quatro horas de duração.

Os filmes de maio

Equipe IMS

02.05.17

Fique por dentro da programação completa para maio da Sala José Carlos Avellar, o cinema do Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, com datas e horários das exibições e instruções para compra de ingressos. Um dos muitos destaques são sessões especiais do clássico O que terá acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich.

Os grandes sóis violentos

José Geraldo Couto

27.04.17

“O sonho acabou; quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou.” A frase da canção de Gilberto Gil talvez seja uma maneira de resumir em poucas palavras o espírito de No intenso agora. Qualquer descrição ou sinopse será empobrecedora e ilusória, inclusive esta: o documentário de João Moreira Salles, exibido no Rio e em São Paulo no festival É Tudo Verdade, organiza e discute imagens filmadas na China maoísta de 1966, na França de maio de 1968, na Tchecoslováquia da Primavera de Praga e no Brasil da ditadura militar.

Os sonhos geométricos de Antonioni

José Geraldo Couto

20.04.17

Quando se fala em modos de apreensão do espaço-tempo diferentes daquele do cinema narrativo clássico, herdeiro do romance realista do século XIX, um nome que sempre vem à tona é o de Michelangelo Antonioni, um dos expoentes do cinema moderno. A boa notícia é que o Centro Cultural Banco do Brasil apresenta a partir do próximo dia 26 em São Paulo e no Rio uma retrospectiva completa da obra do diretor italiano. No mês que vem a mostra chega também a Brasília.