Tanta água e a vida dos tempos mortos

No cinema

16.09.13

"Tanta água"

Alfred Hitchcock tinha uma máxi­ma: “O dra­ma é a vida sem as par­tes cha­tas”. O que dizer então de toda uma linha­gem de fil­mes que se detêm jus­ta­men­te nas “par­tes cha­tas”, naque­les tem­pos mor­tos em que pare­ce não acon­te­cer nada? Não é nada fra­ca essa ver­ten­te, na qual pode­ría­mos incluir de Ozu a Lucrecia Martel, pas­san­do por Antonioni e pelo Wenders da pri­mei­ra fase, a des­pei­to das imen­sas dife­ren­ças cul­tu­rais, filo­só­fi­cas e esté­ti­cas que os sepa­ram.

Pois bem. É a essa linha que per­ten­ce o óti­mo Tanta água, lon­ga-metra­gem de estreia das uru­guai­as Ana Guevara e Leticia Jorge, mui­to bem rece­bi­do no últi­mo fes­ti­val de Berlim.

http://www.youtube.com/watch?v=h2QkZcdszBE

No fil­me, Alberto (Néstor Guzzini), qui­ro­prá­ti­co qua­ren­tão divor­ci­a­do, apro­vei­ta as féri­as para levar o filho peque­no (Joaquin Castiglioni) e a filha ado­les­cen­te (Malú Chouza) a uma estân­cia ter­mal. Chove qua­se o tem­po todo e eles ficam con­fi­na­dos a um cha­lé sem tele­vi­são nem com­pu­ta­dor.

Clausura e des­con­for­to

A situ­a­ção é mais exas­pe­ran­te para a garo­ta, Lucía, que nos hormô­ni­os de seus 16 anos osci­la entre o enfa­do e a inqui­e­ta­ção. É ela, na ver­da­de, a gran­de pro­ta­go­nis­ta do fil­me, a per­so­na­gem em que se con­cen­tra a ten­são e se ope­ram as trans­for­ma­ções.

A sen­sa­ção de clau­su­ra e des­con­for­to é refor­ça­da por uma decu­pa­gem que pri­vi­le­gia os clo­ses e por­me­no­res em enqua­dra­men­tos obs­truí­dos por algum obje­to (ou dis­tor­ci­dos pela água), mos­tran­do qua­se sem­pre ape­nas par­tes dos cor­pos e sone­gan­do ao espec­ta­dor os pla­nos aber­tos, as visões de con­jun­to.

Nos ínfi­mos deta­lhes é que obser­va­mos o dra­ma ínti­mo de cada  per­so­na­gem. Pequenos even­tos — como o encon­tro de Lucía com outra ado­les­cen­te em féri­as, ou o tom­bo de bici­cle­ta de seu irmão menor — sus­ci­tam reve­la­ções e mudan­ças sutis em cada um e no jogo de rela­ções.

Arte da melan­co­lia

A jul­gar pela lite­ra­tu­ra de auto­res como Juan Carlos Onetti e Mario Benedetti e pelo cine­ma de dire­to­res como Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll (o mais famo­so deles é Whisky), os uru­guai­os têm uma sin­gu­lar capa­ci­da­de de cap­tar e expres­sar a melan­co­lia do tem­po que pas­sa, da “vida que pode­ria ter sido e que não foi”.

Tanta água de cer­ta for­ma con­fir­ma essa ten­dên­cia e, para­do­xal­men­te, foge dela, ao cen­trar seu foco em Lucía, a ado­les­cen­te que traz em si o ger­me da rebel­dia e da trans­mu­ta­ção. Ainda não foi nes­tas féri­as, mas quem sabe nas pró­xi­mas?

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