Tatuagem, revolução dionisíaca

No cinema

14.11.13

Os ato­res Jesuíta Barbosa e Irandhir Santos, em cena do fil­me Tatuagem

Tatuagem, de Hilton Lacerda, pre­mi­a­do nos fes­ti­vais de Gramado e do Rio, não gas­ta mais do que dois minu­tos para defi­nir seu con­fli­to dra­má­ti­co bási­co.

O pri­mei­ro pla­no mos­tra o colo­ri­do e bri­lho­so cená­rio do caba­ré Chão de Estrelas, defi­ni­do por uma voz em off como “o Moulin Rouge do subúr­bio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da fave­la”, que “faz tre­mer toda for­ma de auto­ri­da­de”. Corta para um rapaz de cami­se­ta rega­tas sen­ta­do numa cama. A ima­gem se abre len­ta­men­te, mos­tran­do as bar­ras do beli­che como se fos­sem as de uma pri­são. Ele está, logo enten­de­mos, num quar­tel, entre outros recru­tas que pres­tam ser­vi­ço mili­tar.

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Estamos em Recife, em 1978. É na opo­si­ção entre o caba­ré e o quar­tel, entre a anar­quia e a ordem, o dese­jo e a auto­ri­da­de, que Tatuagem defi­ni­rá a sua retó­ri­ca e a sua esté­ti­ca. O amor entre o recru­ta Arlindo, vul­go Fininha (Jesuíta Barbosa), e o líder do Chão de Estrelas, Clécio (Irandhir Santos), con­du­zi­rá essa tri­pla ten­são: afe­ti­va, polí­ti­ca, espa­ci­al.

Impossível ver Tatuagem e não lem­brar ime­di­a­ta­men­te de outro fil­me reci­fen­se recen­te, A febre do rato, de Claudio Assis. Ambos foca­li­zam comu­ni­da­des liber­tá­ri­as à mar­gem — e a con­tra­pe­lo — da soci­e­da­de esta­be­le­ci­da, cada uma delas lide­ra­da por um artis­ta visi­o­ná­rio, encar­na­do nos dois casos por Irandhir Santos. E, cla­ro, ambos foram rotei­ri­za­dos por Hilton Lacerda.

Mas as dife­ren­ças entre as duas obras são mui­tas e não se limi­tam à foto­gra­fia (o pre­to e bran­co de Febre em con­tras­te com o colo­ri­do exu­be­ran­te de Tatuagem), nem ao fato de uma delas se pas­sar nos dias de hoje e a outra em 1978. A dis­pa­ri­da­de é sobre­tu­do de tom, ou antes, de sen­ti­men­to.

Deboche e amor

Se o fil­me de Claudio Assis é um mani­fes­to furi­o­so, em que o desa­fio à auto­ri­da­de assu­me a for­ma da pro­vo­ca­ção agres­si­va, em Tatuagem a arma pre­fe­ren­ci­al é o debo­che, e o sen­ti­men­to pre­do­mi­nan­te é o amor, sob suas vari­a­das for­mas: eró­ti­co, fra­ter­no, fami­li­ar.

No cen­tro de tudo está o ines­pe­ra­do roman­ce entre o recru­ta e o artis­ta (além de dire­tor do Chão de Estrelas, Clécio é ator, can­tor, dan­ça­ri­no e coreó­gra­fo). Duas sequên­ci­as qua­se con­tí­guas reve­lam com extre­ma sen­si­bi­li­da­de o sur­gi­men­to des­se amor lou­co. A pri­mei­ra é um pla­no sem cor­tes de Clécio can­tan­do “Esse cara”, de Caetano Veloso, numa pano­râ­mi­ca que ter­mi­na exa­ta­men­te no final da músi­ca e fla­gra Fininha, de meio per­fil, total­men­te des­con­cer­ta­do. Pouco depois, Clécio põe na vitro­la um dis­co de Dolores Duran e dan­ça com o recru­ta ao som de “A noi­te do meu bem”. “Nunca dan­cei assim com um homem antes”, diz Fininha. “E eu nun­ca dan­cei assim com um sol­da­do”, res­pon­de Clécio, numa estra­té­gia recor­ren­te do rotei­ro, que é a de tem­pe­rar com humor os momen­tos mais sen­ti­men­tais, e vice-ver­sa. Só essas duas sequên­ci­as já vale­ri­am o fil­me.

Mas há mui­to mais. Há as cenas de sexo ao mes­mo tem­po deli­ca­das e cru­as — tão raras no cine­ma de hoje, no Brasil e no mun­do -; há as bre­ves e epi­fâ­ni­cas inser­ções de ima­gens domés­ti­cas em super-8 (e do “fil­me den­tro do fil­me” fei­to por um poe­ta do gru­po); há a modu­la­ção sutil das ares­tas pro­du­zi­das em cada uma das rela­ções entre os per­so­na­gens; há a figu­ra encan­ta­do­ra do filho de Clécio e Deusa (Sylvia Prado), o meni­no Tuca (Deyvid Queiroz de Morais), encar­na­ção da liber­da­de e da ale­gria de viver; há, além da atu­a­ção extra­or­di­ná­ria dos dois pro­ta­go­nis­tas, a notá­vel pre­sen­ça de Rodrigo Garcia como a esfu­zi­an­te Paulete; há, por fim, a tri­lha sono­ra do DJ Dolores, que vai de Puccini ao can­tor bre­ga Johnny Hooker, pas­san­do por Dalva de Oliveira.

Pintura rupes­tre do futu­ro

Tudo isso sem per­der de vis­ta a carac­te­ri­za­ção do Chão de Estrelas como uma ilha de liber­da­de em meio a um con­tex­to repres­si­vo, um oásis regi­do pelo prin­cí­pio do pra­zer, um lugar de pro­du­ção de cul­tu­ra a par­tir da pre­ca­ri­e­da­de dos mei­os e da ousa­dia das idei­as. Cada cena con­den­sa em si toda uma con­cep­ção de soci­e­da­de, de cul­tu­ra e de rela­ções huma­nas, em que o afe­to é um agen­te quí­mi­co que atra­ves­sa as clas­ses, os gêne­ros e as gera­ções. Uma afir­ma­ção de uto­pia resu­mi­da na fra­se do poe­ta-cine­as­ta Joubert (Silvio Restiffe): “Aqui come­ça­mos a fazer a pin­tu­ra rupes­tre de um novo tem­po”.

Quase qua­ren­ta anos depois, essa pro­mes­sa dio­ni­sía­ca ain­da não se cum­priu. Por isso mes­mo, no país dos Felicianos e Bolsonaros, Tatuagem é um fil­me vio­len­ta­men­te atu­al.

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