Tempos de corações empedrados

No cinema

25.10.13
Educação sentimental, de Julio Bressane

Educação sentimental, de Julio Bressane

O tem­po é cur­to, os fil­mes são mui­tos. Esse pode­ria ser o slo­gan da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (aqui, a pro­gra­ma­ção completa).Vamos então a eles, sem mais delon­gas.

Lições de har­mo­nia, do caza­que Emir Baigazin, Urso de Prata no fes­ti­val de Berlim. Um rapaz de um luga­re­jo do Cazaquistão, em con­fron­to com os bad boys do colé­gio onde estu­da. O arcai­co e o moder­no, o urba­no e o rural, a ciên­cia e a reli­gião, tudo em ten­são per­ma­nen­te num fil­me em que con­ci­são é sinô­ni­mo de pre­ci­são, sob o con­tro­le abso­lu­to do rit­mo, da luz e do enqua­dra­men­to por um dire­tor que não tem nem trin­ta anos. Um vero pro­dí­gio. Para se ter uma ideia, aqui vai uma bre­ve cena do fil­me, em que o pro­ta­go­nis­ta, alu­no bri­lhan­te de físi­ca, faz uma micro­ca­dei­ra elé­tri­ca para exe­cu­tar uma bara­ta:

http://www.youtube.com/watch?v=vyAUtTGL6A4

Ana Arabia, do isra­e­len­se Amos Gitai. Outra mara­vi­lha. Num úni­co pla­no-sequên­cia sem cor­tes (com per­dão da redun­dân­cia), acom­pa­nha­mos uma jor­na­lis­ta (Yuval Scharf) a entre­vis­tar mora­do­res de um bair­ro na peri­fe­ria de Jaffa para recons­ti­tuir a his­tó­ria de uma judia que, depois de sobre­vi­ver ao Holocausto, casou-se em Israel com um ope­rá­rio muçul­ma­no, geran­do uma pro­le híbri­da ára­be-isra­e­len­se. A câme­ra que pers­cru­ta cri­a­tu­ras e ambi­en­tes des­se peque­no peda­ço des­pe­da­ça­do do mun­do aca­ba reve­lan­do fra­tu­ras huma­nas e geo­po­lí­ti­cas de lon­go alcan­ce. Nada de dis­cur­sos ide­o­ló­gi­cos ou abs­tra­tos: tudo é seco e con­cre­to como as pedras pisa­das pelos per­so­na­gens. A pro­e­za é cri­ar um tom docu­men­tal e espon­tâ­neo num fil­me que cer­ta­men­te foi cons­truí­do meti­cu­lo­sa­men­te nos meno­res deta­lhes.

http://www.youtube.com/watch?v=VjVoiBtb0aU

Teatro dio­ni­sía­co

A far­ra do cir­co, docu­men­tá­rio de Roberto Berliner e Pedro Bronz sobre o Circo Voador, que mar­cou épo­ca no Rio de Janeiro dos anos 1980. Um espa­ço de pro­du­ção cul­tu­ral e diver­são onde pra­ti­ca­men­te nas­ce­ram gru­pos de tea­tro como o Asdrúbal Trouxe o Trombone e ban­das como Blitz e Barão Vermelho e por onde pas­sou a nata da poe­sia e da músi­ca popu­lar bra­si­lei­ra, de Caetano e Gil a Hermeto Paschoal, de Clementina de Jesus a Arrigo Barnabé. Um lugar que mis­tu­ra­va cir­co, dan­ça, tea­tro, músi­ca e poe­sia.

Mais do que um impres­si­o­nan­te res­ga­te de um momento/movimento artís­ti­co impor­tan­te, com mate­ri­al regis­tra­do pelo pró­prio Berliner no calor da hora, é uma cele­bra­ção de um fei­xe de uto­pi­as: a da arte como expres­são de liber­da­de indi­vi­du­al e comu­nhão soci­al, a da con­ci­li­a­ção do tra­ba­lho com a fes­ta, do eru­di­to com o popu­lar, do moder­no com o arcai­co. Teatro dio­ni­sía­co, como nas ori­gens. Vale con­tras­tar com os tris­tes tem­pos que vive­mos, nos quais, como diz a pro­ta­go­nis­ta de Educação sen­ti­men­tal, de Julio Bressane, “a tira­nia da eco­no­mia polí­ti­ca empe­drou o cora­ção do homem”.

Educação dos sen­ti­dos

Chegamos então a Educação sen­ti­men­tal, de Julio Bressane. Aqui, é outro depar­ta­men­to, é o lugar em que o cine­ma se inter­ro­ga a par­tir de seus pró­pri­os ter­mos: luz, som­bra, enqua­dra­men­to, pro­fun­di­da­de, rit­mo. Como vem acon­te­cen­do há tem­pos na obra do dire­tor, o “entre­cho” é redu­zi­do ao míni­mo para que cada pla­no tenha o máxi­mo de res­so­nân­cia e sig­ni­fi­ca­ção. Dois per­so­na­gens — uma mulher madu­ra (Josie Antello) e um rapaz inex­pe­ri­en­te (Bernardo Marinho) — e o entre­cru­za­men­to de dois mitos recor­ren­tes na cul­tu­ra oci­den­tal: o do amor de um mor­tal por uma deu­sa (Endimião e Selene) e o da edu­ca­ção sen­ti­men­tal de um jovem por uma mulher mais velha.

http://www.youtube.com/watch?v=kbcVilvLBR8

O local é o Rio de Janeiro atu­al, mas Bressane cons­trói, pelo dis­cur­so, pelos sig­nos dis­tri­buí­dos no qua­dro e sobre­tu­do pelo uso argu­to dos ruí­dos e da músi­ca, um espa­ço outro, lite­ral­men­te ana­crô­ni­co, isto é, não ape­nas fora de seu tem­po, mas em desa­cor­do com ele. Cada qua­dro é uma cons­te­la­ção de sig­nos e refe­rên­ci­as que indu­zem à inter­pre­ta­ção e ao pen­sa­men­to: de uma pin­tu­ra (sal­vo enga­no) de Frida Kahlo a um foto­gra­ma de Tabu, de Murnau; de uma dan­ça de Salomé à per­so­na­gem de Norma Desmond em Crepúsculo dos deu­ses, de Billy Wilder.

A últi­ma par­te do fil­me, com cenas de bas­ti­do­res e deta­lhes da fil­ma­gem, pro­ce­di­men­to recor­ren­te em Bressane, é mui­to mais do que a mera incor­po­ra­ção de um making of ao cor­po da obra: é ao mes­mo tem­po um guia de lei­tu­ra e um mul­ti­pli­ca­dor de sig­ni­fi­ca­dos do que se viu antes. Inútil ten­tar expli­car. Só ven­do.

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