Terceira parábola

Colunistas

30.09.15

Leio que uma com­pa­nhia ven­deu mais de 13 milhões de celu­la­res em três dias, des­de que come­çou a comer­ci­a­li­zar seu novo mode­lo. Menos por bir­ra do que pela mais com­ple­ta fal­ta de neces­si­da­de, con­ti­nuo com um mode­lo de qua­tro anos atrás, da mes­ma com­pa­nhia, e com o tablet de pri­mei­ra gera­ção, que me deram quan­do os tablets foram inven­ta­dos.

Pouco a pou­co, entre­tan­to, a cada nova atu­a­li­za­ção auto­má­ti­ca (e mui­tas vezes inex­pli­cá­vel) dos pro­gra­mas que esses tele­fo­nes e tablets pre­ci­sam para fun­ci­o­nar, meus mode­los per­fei­ta­men­te fun­ci­o­nais vão se desa­tu­a­li­zan­do e se tor­nan­do obso­le­tos e ino­pe­ran­tes pela ação deli­be­ra­da da pró­pria empre­sa que os cri­ou e ven­deu, até o dia que não me res­ta­rá outra saí­da senão me ren­der aos novos mode­los, se qui­ser con­ti­nu­ar usan­do os pro­gra­mas e os apli­ca­ti­vos pelos quais paguei.

Leio, na mes­ma edi­ção do mes­mo jor­nal, que che­fes de Estado do mun­do intei­ro estão suan­do em bicas para fechar as con­tas de suas eco­no­mi­as e che­gar à con­fe­rên­cia do cli­ma, em Paris, no final do ano, com as melho­res metas de polí­ti­ca ambi­en­tal já apre­sen­ta­das até hoje – mas que, devi­do à gra­vi­da­de da situ­a­ção em que nos encon­tra­mos, podem ser tão pífi­as quan­to impro­vá­veis.

E aí eu pen­so: que lógi­ca é essa que aplau­de os lan­ça­men­tos suces­si­vos de novos mode­los de tele­fo­ne total­men­te dis­pen­sá­veis, enquan­to paí­ses de todo o mun­do dizem estar fazen­do o impos­sí­vel para man­ter em 2 graus cen­tí­gra­dos a pro­je­ção de aque­ci­men­to glo­bal (embo­ra os cál­cu­los já mos­trem que os esfor­ços atu­ais não serão sufi­ci­en­tes para man­tê-lo abai­xo de 3,5 graus no final do sécu­lo)? O que pas­sa pela cabe­ça de quem cor­re à loja do fabri­can­te de tele­fo­nes, ávi­do pelo novo mode­lo, e ao mes­mo tem­po diz zelar pela sal­va­ção do pla­ne­ta? O que ain­da impe­de esse indi­ví­duo de ver a con­tra­di­ção entre o que ele diz e o que ele faz – para não falar do pró­prio fabri­can­te?

É cla­ro que não fal­ta­rá quem diga, indig­na­do com minha ceguei­ra, que uma coi­sa nada tem a ver com a outra, que os tele­fo­nes não são a cau­sa dire­ta do aque­ci­men­to glo­bal e que sem a cor­ri­da às lojas a eco­no­mia que­bra­ria e, com ela, o bem-estar da huma­ni­da­de. Então, esta­ría­mos entre a cruz e a cal­dei­ri­nha? A últi­ma das “Três Parábolas”, um tex­to de 1895 incluí­do na edi­ção pri­mo­ro­sa dos con­tos com­ple­tos de Tolstói que a CosacNaify aca­ba de lan­çar, com tra­du­ção de Rubens Figueiredo e fotos mag­ní­fi­cas de Prokúdin-Gorskii, ilus­tra bem o para­do­xo e o silo­gis­mo.

Um gru­po de via­jan­tes se extra­via e che­ga a um impas­se de galhos e espi­nhos no meio do mato. Parte do gru­po, ten­tan­do se con­ven­cer de que não estão per­di­dos, insis­te em seguir em fren­te. Outra par­te, con­cluin­do que já teri­am che­ga­do ao des­ti­no se esti­ves­sem no bom cami­nho, se dis­per­sa em todas as dire­ções, na ten­ta­ti­va desar­vo­ra­da de encon­trar um nor­te. Um homem, que não con­cor­da nem com uma coi­sa nem com outra, suge­re que, antes de tomar qual­quer deci­são, deve­ri­am refle­tir e ana­li­sar onde estão, com base no sol e nas estre­las. Logo é acu­sa­do de pre­gui­ço­so e imo­bi­lis­ta.

O pri­mei­ro gru­po dos via­jan­tes seguiu em fren­te na dire­ção que já vinha seguin­do, o segun­do gru­po come­çou a se movi­men­tar de um lado para outro, mas nem um nem outro se apro­xi­mou do des­ti­no, sequer con­se­gui­ram sair da mata fecha­da e dos espi­nhos e até ago­ra estão vagan­do sem rumo. (…) As pes­so­as inven­tam todos os mei­os pos­sí­veis, menos o úni­co capaz de sal­vá-las, (…) sen­tem o desas­tre de sua situ­a­ção e fazem todo o pos­sí­vel para se esqui­var, porém jus­ta­men­te o que, com cer­te­za, ali­vi­a­ria sua situ­a­ção, isso elas não que­rem fazer de jei­to nenhum, e qual­quer con­se­lho para agir assim as dei­xa mais irri­ta­das do que qual­quer outra coi­sa.”

Podem me cha­mar de pre­gui­ço­so, imo­bi­lis­ta ou ingê­nuo, mas é difí­cil não se espan­tar com a ceguei­ra de quem con­ti­nua se dei­xan­do levar por uma tri­lha de espi­nhos, con­ven­ci­do de que está no cami­nho cer­to e de que não have­rá mai­o­res con­sequên­ci­as à fren­te. Enquanto outros seguem pro­cla­man­do que, pelo lucro, até o sui­cí­dio vale a pena.

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