Teu protagonista não convence: refaça

Correspondência

13.04.11

Amigo André,

Folgo em saber que vai reto­mar o pro­je­to do teu roman­ce. Talvez tu não lem­bre bem, mas já me falou sobre ele em deta­lhes, da mes­ma for­ma que não me lem­bro bem dos deta­lhes, pois estou segu­ro de que está­va­mos os dois bêba­dos e, pro­va­vel­men­te, trans­tor­na­dos. É o da Múmia? Mas não, pre­fi­ro que não repi­ta nada, que­ro ser sur­pre­en­di­do quan­do tu me man­dar o ori­gi­nal. Acho que nem pre­ci­so dizer que a ami­za­de esta­rá anu­la­da caso tu não me inclua entre os teus pri­mei­ros lei­to­res. Pode até me man­dar o con­to do poe­ta con­cre­to, pra eu ir esquen­tan­do. Saberei ler no con­tex­to, não tema.

Aliás, inte­res­san­te tu ter escri­to isso: “Na facul­da­de eu escre­vi con­tos, não sei onde esta­va com a cabe­ça. São uns tex­tos pre­ten­si­o­sos, for­ça­dos, ain­da bem que só um foi publi­ca­do.” Eu tam­bém escre­vi uns con­tos na facul­da­de. Eu tam­bém não sabia onde esta­va com a cabe­ça. Eram uns tex­tos pre­ten­si­o­sos, for­ça­dos. Ainda bem que?não, peraí. Vários foram publi­ca­dos. Alguns até entra­ram no meu pri­mei­ro livro e podem ser lidos por todo mun­do, por­que dei­xo o PDF lá no meu site. Sem dra­ma, um livro tam­bém é seus defei­tos, como uma pes­soa.

Mas o que eu que­ria mes­mo dizer é que admi­ro medu­lar­men­te o que no fim das con­tas tu esco­lheu ou foi leva­do, qual títe­re, a fazer: ser edi­tor. Eu tive minha tem­po­ra­da como edi­tor, com o Mojo, quan­do cri­a­mos a Livros do Mal, e eu tira­va um pra­zer enor­me daqui­lo. Mas é difí­cil, e não é pra qual­quer um, e uma hora eu sen­ti que pre­ci­sa­va esco­lher entre edi­tar livros dos outros ou ten­tar escre­ver os meus. Não que sejam ati­vi­da­des exclu­den­tes, não neces­sa­ri­a­men­te. Pode-se ter talen­to para as duas. Mas difi­cil­men­te alguém terá ener­gia para as duas. Para se entre­gar de cora­ção, apon­tar a vida para as duas ao mes­mo tem­po. E tu não me con­ven­ceu, assim como não con­ven­ceu a si mes­mo, quan­to ten­tou dizer na tua últi­ma car­ta que ser edi­tor não é um tra­ba­lho cri­a­ti­vo à sua manei­ra. Um dos mai­o­res luga­res-comuns sobre o tra­ba­lho do escri­tor, pro­pa­ga­do com algu­ma frequên­cia por mim mes­mo, por­que falo sem pen­sar, é que o escri­tor tra­ba­lha sozi­nho. “Escolhi isso por­que não sei tra­ba­lhar com os outros.” O escri­tor tra­ba­lha com o edi­tor.

Todos os meus livros foram melho­ra­dos por edi­to­res, em dife­ren­tes graus, mas sem exce­ções. Vale até para os pri­mei­ros, inde­pen­den­tes, que cer­ta­men­te foram melho­ra­dos pelas suges­tões do Mojo, que até hoje está entre os meus pri­mei­ros lei­to­res, mas que na épo­ca da Livros do Mal tam­bém era uma espé­cie de edi­tor pra mim. Graças ao Luiz e à Marta, cor­tei tone­la­das de mimi­mi, expli­ca­ções des­ne­ces­sá­ri­as, redun­dân­ci­as, advér­bi­os e adje­ti­vos exces­si­vos, cenas bobas e cafo­ni­ces dos meus livros. A pri­mei­ra ver­são do Cordilheira foi pra­ti­ca­men­te recu­sa­da. Talvez ela tenha sido recu­sa­da. Não lem­bro bem, blo­que­ei a memó­ria. Mas os seis meses de tra­ba­lho adi­ci­o­nal base­a­do nos comen­tá­ri­os edi­to­ri­ais me per­mi­ti­ram fazer um livro melhor. Sem a tua aju­da, os diá­lo­gos da Cachalote sim­ples­men­te não seri­am o que são.

Uma vez, num deba­te do qual par­ti­ci­pei, alguém suge­riu que os mei­os digi­tais aca­ba­ri­am matan­do a figu­ra do edi­tor, pois o autor pode­ria levar o tra­ba­lho dire­to ao lei­tor, sem inter­me­diá­ri­os etc. E eu dis­se que podem até matar o edi­tor, não duvi­do que acon­te­ça, mas em pou­co tem­po ele será res­sus­ci­ta­do por auto­res trê­mu­los e desam­pa­ra­dos. O mer­ca­do pode­rá mudar à von­ta­de que o edi­tor esta­rá encai­xa­do em algum lugar, tal­vez como uma espé­cie de con­sul­tor fre­e­lan­cer cujo tra­ba­lho será res­pei­ta­do como o das melho­res casas edi­to­ri­ais.

Mas é cla­ro que a ambi­ção da auto­ria deve sedu­zir todo edi­tor. Todo livro que nos encan­ta, que se conec­ta de ver­da­de com nos­so ser vital, pare­ce ter sido escri­to com faci­li­da­de jus­ta­men­te por­que ocor­re uma inter­se­ção dos dois con­jun­tos, a sub­je­ti­vi­da­de do autor e a do lei­tor, uma inter­se­ção que sem­pre este­ve lá ou que é engen­dra­da pelo pró­prio livro ao afe­tar o lei­tor de manei­ra subs­tan­ci­al duran­te e/ou depois da lei­tu­ra. Parece meio ine­vi­tá­vel que alguém tenha opta­do por dizer aque­las coi­sas daque­la manei­ra. No entan­to, o edi­tor conhe­ce tão bem como o autor a difi­cul­da­de de con­ver­ter a visão de mun­do em lin­gua­gem, ou o rei­no ide­al da ima­gi­na­ção em uma nar­ra­ti­va pron­ta, escri­ta no papel. Pra quem dedi­ca tem­po da vida a cri­ar his­tó­ri­as, a ima­gi­na­ção vai se tor­nan­do a refe­rên­cia, uma rea­li­da­de total da qual as pala­vras não dão con­ta por mais que se expan­da, reor­ga­ni­ze e lapi­de o tex­to. Se tu (André) pen­sa no teu roman­ce, apos­to que vê toda a his­tó­ria ali, na nuvem dian­te da tes­ta ou na tela atrás das pál­pe­bras, todos os per­so­na­gens, as rela­ções entre cada ele­men­to da his­tó­ria, todo o dia­gra­ma holo­grá­fi­co, abso­lu­ta­men­te tudo que dese­ja comu­ni­car. Aquilo exis­te, e pare­ce tão pal­pá­vel.

Mas aí tu sen­ta na fren­te do tecla­do.

É por isso que eu amo os edi­to­res, por­que eles sabem dis­so, mes­mo que não tenham a ambi­ção de serem auto­res. Eles enten­dem o pro­ces­so, sus­pei­to que podem até mes­mo sen­tir o pro­ces­so e se colo­car no lugar do autor em mui­tos casos, mas estão, gros­so modo, livres da vai­da­de, do deses­pe­ro, do nar­ci­sis­mo, da segu­ran­ça, da inse­gu­ran­ça, da con­vic­ção, da ansi­e­da­de, da tei­mo­sia, da ceguei­ra, da eufo­ria, da arro­gân­cia, da humil­da­de, do medo, da pre­ten­são, para não dizer da even­tu­al mega­lo­ma­nia, blo­queio cri­a­ti­vo, ter­ror, para­noia, delí­rio e por vezes lou­cu­ra do autor. Mas eles enten­dem o papel que uma, algu­mas, vári­as ou todas essas coi­sas podem desem­pe­nhar no tra­ba­lho do autor e estão — são os úni­cos, na gran­de mai­o­ria dos casos — em posi­ção de aju­dar.

Esses tem­pos andei pen­san­do seri­a­men­te, pela pri­mei­ra vez, numa per­gun­ta tão repe­ti­da que a gen­te se acos­tu­ma a res­pon­der com levi­an­da­de ou galhar­dia: por que fui escre­ver em vez de fazer outra coi­sa? (Não que se esco­lha qual­quer coi­sa nes­sa vida, nem pre­ci­so dizer, mas é impe­ri­o­so agir como se tudo fos­se uma esco­lha, então con­ti­nue comi­go.) Tudo bem, eu sem­pre fui meio qui­e­to, tinha von­ta­de de me expres­sar etc., mas a ver­da­de é que ten­tei vári­as outras manei­ras de fazer isso antes de escre­ver. A ideia de ser pin­tor, desig­ner ou músi­co me sedu­zia mui­to mais do que a figu­ra do escri­tor na ado­les­cên­cia, mas foi só na escri­ta que encon­trei algu­ma recom­pen­sa ver­da­dei­ra. Em par­te, foi a des­co­ber­ta de uma incli­na­ção até então des­co­nhe­ci­da para lidar com essa lin­gua­gem espe­cí­fi­ca, ok, essa par­te é fácil.

Mas o prin­ci­pal, acre­di­to hoje, tem a ver com esse iso­la­men­to radi­cal do momen­to cri­a­ti­vo, a sepa­ra­ção crí­ti­ca, na lite­ra­tu­ra, entre o ato expres­si­vo e o ins­tan­te da frui­ção alheia. Que é o opos­to, tal­vez, do que acon­te­ce com o ator, que pode até se pre­pa­rar em reclu­são, mas terá de desem­pe­nhar para a pla­teia, para a equi­pe de fil­ma­gem ou pelo menos para o dire­tor ou ope­ra­dor de câme­ra em algum momen­to. Mesmo um pin­tor, ele pode tra­ba­lhar em reclu­são, mas se pen­sa­mos na obra, ela se ofe­re­ce intei­ra a quem espi­ar pela fres­ta duran­te o pro­ces­so, a pes­soa bate o olho num qua­dro ina­ca­ba­do e ali está ele, ina­ca­ba­do mas intei­ro, um foto­gra­ma total daque­la eta­pa do tra­ba­lho.

O escri­tor de lite­ra­tu­ra não ape­nas pode tra­ba­lhar em reclu­são, ele é qua­se obri­ga­do a fazer isso, e não se pode bater o olho num ori­gi­nal ina­ca­ba­do, não se pode apre­en­dê-lo de ime­di­a­to, é pre­ci­so ler, per­cor­rer todo o per­cur­so da obra ina­ca­ba­da numa situ­a­ção que exclui o autor tan­to quan­to o pro­ces­so cri­a­ti­vo do autor exclui o lei­tor. O autor esta­rá sozi­nho no que faz até o fim do pro­ces­so e em geral por um bom tem­po após o fim do pro­ces­so tam­bém, e pode haver meses entre o pon­to final e aque­le dia em que o pri­mei­ro lei­tor da obra se apro­xi­ma e diz algu­ma coi­sa.

Caso não tenha fica­do rocam­bo­les­co demais pra enten­der, foca nis­so, nes­sa cisão extre­ma dos luga­res que ocu­pam o autor enquan­to tra­ba­lha e o lei­tor quan­do lê. Eu acho que é isso que me fez ade­rir à escri­ta. Que haja esse iso­la­men­to e esse des­com­pas­so e que, ape­sar dis­so, se pos­sa ler um con­to, um roman­ce ou um poe­ma e não ape­nas ter a impres­são de que foi fácil, óbvio ou ine­vi­tá­vel que alguém o tenha inven­ta­do e escri­to daque­la manei­ra, mas de que ele foi escri­to para nós ou, em casos extre­mos, subli­mes, por nós mes­mos. E hou­ve um momen­to da minha vida em que con­cluí que era des­se jogo que eu pre­ci­sa­va ten­tar par­ti­ci­par, no papel de autor, e que seria melhor tran­si­tar nis­so e fra­cas­sar do que ser bem-suce­di­do em qual­quer outra coi­sa.

Os bons edi­to­res que conhe­ço enten­dem isso, arris­co dizer. Fica cla­ro quan­do tu come­ça a tocar nes­se tipo de assun­to, meio enver­go­nha­do, na defen­si­va, cren­te da inu­ti­li­da­de do esfor­ço, ima­gi­nan­do com os lei­to­res riri­am, e como os crí­ti­cos riri­am, e como teus ami­gos e teus pais riri­am, e como qual­quer tran­seun­te que fos­se abor­da­do ale­a­to­ri­a­men­te riria, mas não os edi­to­res, eles escu­tam esse tipo de coi­sa e dizem tudo que pre­ci­sa ser dito com um ace­no de cabe­ça cur­to, às vezes na ver­ti­cal, às vezes na hori­zon­tal, ou na dia­go­nal ou para todos os lados, depen­den­do do caso, e com isso tudo está dito, por­que tu sabe que eles tam­bém sabem, e ago­ra vamos ao que inte­res­sa: teu pro­ta­go­nis­ta não con­ven­ce. Refaça.

Tchê, tal­vez essa seja minha últi­ma car­ta por um tem­po. Preciso dar um pou­co de aten­ção pro meu livro e me enfi­ar num can­to por umas sema­ni­nhas. Espero que enten­da. (Percebe ago­ra como toda essa car­ta visa­va úni­ca e somen­te a per­su­a­são afe­ti­va e a chan­ta­gem emo­ci­o­nal?) Mas pode­mos seguir falan­do por men­sa­gens de tex­to no celu­lar, o cha­ma­do “tor­pe­do”.

Melhoras aí no min­di­nho.

My best wishes,

Danny G.

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