Tião, amanhã

Cinema

16.04.15

(A Coleção IMS, de DVDs, está lan­çan­do Iracema, uma tran­sa amazô­ni­ca, rea­li­za­do em 1974 por Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Nos extras, há o regis­tro Ainda uma vez Iracema, fei­to em 2014 por Bodanzky.)

Paulo se tran­ca em casa “à pro­cu­ra de pal­pa­bi­li­da­de”. Tem medo de sair à rua, “o país é uma bos­ta de país”, a fábri­ca faliu, a mulher o aban­do­nou e ele, cer­ca­do de mil cai­xas de sutiãs, como se fos­se um repór­ter de tele­vi­são, anun­cia o fim do mila­gre bra­si­lei­ro: “apa­re­ceu enfim a gran­de caga­da naci­o­nal, mas­sa infor­me e mal­chei­ro­sa des­co­ber­ta no cen­tro de Brasília.” Ao tele­fo­ne, com o ami­go Oliveira, é cate­gó­ri­co: “Somos uma gen­te bur­ra, mui­to medío­cres. Uns covar­des. Você, por exem­plo: você é uma bes­ta”. Oliveira pro­tes­ta, lem­bra que afi­nal de con­tas inven­tou o azu­le­jo novo vitri­fi­ca­do que imi­ta um azu­le­jo velho. Paulo expli­ca, fala por metá­fo­ras, ele tam­bém é um imbe­cil: “O que eu que­ro dizer é o seguin­te: nós não exis­ti­mos, o Brasil é uma ilu­são. Existe só o povo, que está numa mer­da mas exis­te”. Pequenos bur­gue­ses como ele e Oliveira não exis­tem. “A fábri­ca, Oliveira, sabe em quan­to tem­po a fábri­ca desa­pa­re­ceu? Em 30 segun­dos. Deram uma gra­na pro Ministro, ele favo­re­ceu um gru­po estran­gei­ro e…”

Tião se tran­ca na estra­da à pro­cu­ra de dinhei­ro. Onde tem madei­ra, tem dinhei­ro, e o negó­cio dele é dinhei­ro. “Estou atrás de dinhei­ro. E me dei bem. Só não se dá bem nes­te país quem não sabe se virar, quem não tem cabe­ça”. Na ser­ra­ria, zom­ba da cren­ça ingê­nua na mãe natu­re­za: “natu­re­za é mãe coi­sa nenhu­ma! Natureza é meu cami­nhão, natu­re­za é a estra­da”. No bar, debo­cha de Iracema por­que acen­de cigar­ro no fós­fo­ro do outro e per­gun­ta se ele tem o cor­po fecha­do. Sinal de bur­ri­ce: “tu és bur­ra mes­mo, hein!” Burra como a gen­te mir­ra­da nas mar­gens do rio ou da estra­da, gen­te que está numa mer­da e nem exis­te. “Isso aqui é uma bos­ta!”, só exis­te quem sabe se dar bem como ele: “Eu sou mais eu, sou o Tião, o Tião Brasil Grande, podes crer. Estou atrás de dinhei­ro. E me dei bem. Só não se dá bem nes­te país quem não sabe se virar, quem não tem cabe­ça”.

Cena de Iracema, uma transa amazônica

Em casa, no Rio, ao tele­fo­ne com Oliveira, Paulo con­ver­sa tam­bém, numa espé­cie de linha cru­za­da, com um con­tra­cam­po dele. Conversa com Tião, que está no Amazonas, sete anos antes, cha­man­do Iracema de bur­ra, con­fi­an­te no negó­cio de madei­ra e no mila­gre: “Este país só pode ir pra fren­te! Ninguém segu­ra este país. Não segu­ra mes­mo!”. 

Abril de 1981: nos cine­mas, lado a lado, Eu te amo, fil­me recém con­cluí­do, e Iracema, uma tran­sa amazô­ni­ca, rea­li­za­do sete anos antes, mas só então libe­ra­do pela cen­su­ra. Desse encon­tro não pla­ne­ja­do entre Paulo, o indus­tri­al de Arnaldo Jabor, e Tião, o cami­nho­nei­ro de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, resul­ta algo entre uma con­ver­sa ao tele­fo­ne, uma con­ver­sa de bote­quim e um monó­lo­go inte­ri­or: num pre­sen­te sus­pen­so no tem­po, o pas­sa­do fala com o futu­ro. O cami­nho­nei­ro com Iracema, em Belém, e o indus­tri­al com Oliveira, no Rio, pare­cem um mes­mo per­so­na­gem, um só em con­ver­sa com seus botões. Entre um fil­me e outro Tião tro­cou a Amazônia pelo Rio de Janeiro, o cami­nhão na estra­da pelo apar­ta­men­to na cida­de, o negó­cio de madei­ra pela fábri­ca de sutiãs e aban­do­nou o ape­li­do de estra­da, Brasil Grande, por um nome mais ade­qua­do para o novo papel de indus­tri­al, Paulo. A mes­ma cara, a de Paulo César Pereiro. O mes­mo per­so­na­gem em dois ins­tan­tes do “mila­gre”: o Paulo do fil­me de 1981, no apar­ta­men­to, à pro­cu­ra de coi­sas con­cre­tas, é o Tião do fil­me de 1974, na estra­da da flo­res­ta em cha­mas. O que Tião vê da jane­la do cami­nhão é qua­se o mes­mo que Paulo vê da jane­la de seu apar­ta­men­to e por isso, sete anos depois repe­te o que dis­se sete anos antes: “isso aqui é tudo uma bos­ta!”. 

Bem enten­di­do: o Paulo de Jabor não foi ima­gi­na­do como uma con­ti­nu­a­ção do Tião de Bodanzky e Senna. O segun­do fil­me não é um com­ple­men­to do pri­mei­ro. Mas estas his­tó­ri­as inde­pen­den­tes uma da outra, vis­tas uma ao lado da outra, mos­tram o indus­tri­al fali­do como um duplo do moto­ris­ta cami­nhão con­ten­te com “o negó­cio de madei­ra”. O lan­ça­men­to simul­tâ­neo colo­cou em evi­dên­cia este (não pla­ne­ja­do) diá­lo­go entre estas repre­sen­ta­ções da mon­ta­gem e da des­mon­ta­gem do “mila­gre bra­si­lei­ro”. A con­ver­sa entre Iracema, uma tran­sa amazô­ni­ca e Eu te amo se man­tém viva e atu­an­te com o pas­sar do tem­po. Além do que dizem quan­do vis­tos sepa­ra­da­men­te, eles reve­lam algo mais quan­do com­pre­en­di­dos como eta­pas de um mes­mo pro­ces­so, dimen­sões da mes­ma his­tó­ria: con­tam como o cami­nhão de madei­ra de Tião, um outro-eu do indus­tri­al da fábri­ca de sutiãs, der­ra­pou na estra­da do Brasil gran­de e atro­pe­lou Paulo, um outro-eu do cami­nho­nei­ro. 

Numa con­ver­sa com Maria, que encon­trou ao aca­so na rua, Paulo mos­tra o vídeo que gra­vou quan­do a mulher foi embo­ra e se diz mui­to frá­gil, “um pier­rô apai­xo­na­do, um pier­rô ele­trô­ni­co”. Diz que tem medo de sair à rua. Acha que está fican­do lou­co, “só mes­mo cor­tan­do a cabe­ça”. Tem “rai­va de estar sofren­do”, acha esse negó­cio de amor é um tro­ço ridí­cu­lo, “ficar pen­san­do numa só pes­soa, é absur­do.” Imaginemos esta con­fis­são do indus­tri­al fali­do reci­ta­da pelo moto­ris­ta de cami­nhão apai­xo­na­do só por dinhei­ro. Imaginemos que Pereio, ao inter­pre­tar Paulo, tenha se lem­bra­do de Tião (Paulo, ontem?) e usa­do esta lem­bran­ça para comen­tar Paulo – é mais ou menos assim que esta fala apa­re­ce em Eu te amo. Do mes­mo modo, o pro­ces­so às aves­sas, ima­gi­ne­mos o diá­lo­go de Tião reci­ta­do por Paulo (Tião, ama­nhã?). O que pode­mos ima­gi­nar (Pereio, para inter­pre­tar Paulo, ins­pi­rou-se em Tião?) e o que pode­mos deli­rar (Pereio, para inter­pre­tar Tião, ins­pi­rou-se em Paulo que ain­da não exis­tia?), reve­la o que Jabor, Bodanzky e Senna fazem em seus fil­mes: o intér­pre­te nos diz o que o per­so­na­gem dis­se e tam­bém, ou prin­ci­pal­men­te, que não acre­di­ta no que o per­so­na­gem diz. Exagera a eufo­ria do moto­ris­ta de cami­nhão e cari­ca­tu­ra o sofri­men­to do indus­tri­al. Debocha de ambos para assim dar vida a per­so­na­gens que não se levam a sério.

Paulo bus­ca pal­pa­bi­li­da­de, “nós não exis­ti­mos”. Maria não sabe se está mui­to lou­ca ou mui­to rou­ca. Em cri­se, à pro­cu­ra de coi­sas con­cre­tas e ver­da­dei­ras fecha­dos num apar­ta­men­to, eles se escon­dem por trás de fin­gi­men­tos. Tião está no lugar ide­al para quem sabe se virar, ele se dá bem num lugar em que todos pare­cem se dar mal: a flo­res­ta está em cha­mas, a gen­te mir­ra­da des­ce o rio em dire­ção à cida­de com o sonho de seguir via­gem até a cida­de gran­de. Iracema não vai fazer como Creuza ou Umbelina – não é pio­lho para se ori­en­tar pela cabe­ça dos outros, mas não enter­rou o seu umbi­go ali, e repe­te para si mes­ma: “o meu des­ti­no é cor­rer mun­do”. Do des­ti­no nin­guém foge, reza o para­cho­que do cami­nhão em que Tião trans­por­ta madei­ra. GraçasaDeus, com­ple­men­ta o letrei­ro do bar­co em que Iracema des­ce o Rio a cami­nho de Belém.

O indus­tri­al sem fábri­ca e o moto­ris­ta com mui­ta madei­ra no cami­nhão são tipos ins­pi­ra­dos tan­to na fic­ção do “mila­gre bra­si­lei­ro” inven­ta­da pela dita­du­ra mili­tar quan­to num per­so­na­gem cri­a­do por Pereio ao lon­go da déca­da de 1970. Paulo e Tião não são ape­nas per­so­na­gens com a mes­ma cara – têm os mes­mos ges­tos e o mes­mo modo de falar.  O jei­to de um é o jei­to do outro, são iguais em tudo. Paulo é Tião seis anos depois.

É pos­sí­vel que Pereio tenha sido esco­lhi­do para viver Paulo por­que um dia foi Tião. Ou melhor, por­que mes­mo antes de ser o cami­nho­nei­ro da tran­sa amazô­ni­ca, já havia inter­pre­ta­do esse mes­mo per­so­na­gem em fil­mes ante­ri­o­res. Foi esco­lhi­do pelo modo de atu­ar a meia dis­tân­cia dos per­so­na­gens, como quem com­põe pri­mei­ro uma ima­gem men­tal do per­so­na­gem para, em segui­da, na cena, cri­ti­cá-lo com umas tan­tas maca­qui­ces que reve­lam mais o ator que crí­ti­ca o per­so­na­gem do que o per­so­na­gem que o ator inter­pre­ta. Normal, até cer­to pon­to. Como Jabor obser­vou cer­ta vez, pen­san­do tal­vez no tra­ba­lho de Pereio, os ato­res de cine­ma cos­tu­mam domi­nar os per­so­na­gens, ao con­trá­rio dos ato­res de tea­tro. No tea­tro, dis­se, “a gen­te se lem­bra do Hamlet de Lawrence Olivier. No cine­ma a gen­te se lem­bra do Clark Gable, e não do per­so­na­gem, Rhett Butler” (de E o ven­to levou / Gone with the Wind, de Victor Fleming, 1939).

O Tião de Iracema e o Paulo de Eu te amo são, prin­ci­pal­men­te, Paulo César Pereio – o per­so­na­gem que antes do negó­cio de madei­ra, antes da falên­cia da fábri­ca, foi o sol­da­do fan­far­rão que se pro­põe a mon­tar um fuzil de olhos ven­da­dos (o Pedro de Os fuzis, de Ruy Guerra, 1964); o ban­di­do com más­ca­ra de maca­co e ócu­los de sol (em Bang bang, de Andrea Tonacci, 1971); o pre­gui­ço­so que pas­sa o dia dei­ta­do no sofá da sala (o Patrício de Toda nudez será cas­ti­ga­da, de Arnaldo Jabor, 1972), e o malan­dro beber­rão e joga­dor de sinu­ca (o Russo de Vai tra­ba­lhar vaga­bun­do, de Hugo Carvana, 1974). Entre o Tião de Iracema e o Paulo de Eu te amo, Pereio empres­tou a iro­nia de seu per­so­na­gem para Carlos Diegues (em Chuvas de verão, 1978), e para Walter Lima Jr. (em A lira do delí­rio, 1978). Em todos estes fil­mes, embo­ra com dife­ren­tes ape­li­dos, Pereio inter­pre­ta o per­so­na­gem Pereio. Chama-se Paulo no fil­me de Jabor, Tião, no de Bodanzky e Senna, mas é aque­le mes­mo que no fil­me de Walter Lima Jr. aten­de pelo nome ver­da­dei­ro: Pereio.

Imaginemos: Paulo Tião Pereio tal­vez tenha come­ça­do defi­nir sua per­so­na­li­da­de no sol­da­do que dá um tiro erra­do em Os fuzis – brin­ca­va com a arma, mirou numa cabra, acer­tou um homem. Ou, ima­gi­ne­mos: tal­vez as fic­ções da déca­da de 1970 rea­li­za­ram em Pereio algo entre­vis­to numa ima­gem do docu­men­tá­rio Opinião públi­ca (de Arnaldo Jabor, 1967), a do garo­to cas­ti­ga­do com uns puxões de ore­lha depois de fazer care­tas para a câme­ra. Na irre­ve­rên­cia do meni­no – quem sabe? –, um esbo­ço do per­so­na­gem que vai sen­do ela­bo­ra­do pas­so a pas­so em outros fil­mes até se dese­nhar por intei­ro no moto­ris­ta do Brasil Grande.

O meni­no apa­re­ce na cena em que um homem mais velho acon­se­lha um jovem a “estu­dar, para mais tar­de assu­mir uma gran­de res­pon­sa­bi­li­da­de. Tudo na vida con­se­gui­mos com tra­ba­lho” – garan­te. É pre­ci­so “tra­ba­lhar sem­pre, em defe­sa da pátria”, dar tudo de si para “defen­der essa pátria que lhe reco­nhe­ce como filho, e este pavi­lhão que é a ban­dei­ra bra­si­lei­ra”. Tião Paulo meni­no inva­de a con­ver­sa para, sem pala­vras, só care­tas, ante­ci­par o riso gro­tes­co e o comen­tá­rio debo­cha­do de Tião Paulo (ele cres­ci­do e o Brasil “gran­de”) dian­te da cren­ça ingê­nua do dono da ser­ra­ria em Belém. Ele acre­di­ta que “a natu­re­za é mãe e cria todo mun­do”, e acre­di­ta, mais ain­da, que “a mai­or mãe é nos­sa nação, a nação bra­si­lei­ra!”.  Tião Paulo tra­duz em pala­vras o que quan­do meni­no dis­se com ges­tos e care­tas para a câme­ra: “isso aqui é uma bos­ta!”. 

Em Opinião públi­ca o mais velho que fala e o jovem que ouve se com­por­tam como quem não se dá con­ta de estar sen­do fil­ma­dos. Também na sala, uma mulher ajei­ta o cabe­lo, pin­ta as unhas e fala ao tele­fo­ne igual­men­te sem dar aten­ção à câme­ra. Só mes­mo o olhar curi­o­so do garo­to na por­ta que dá para o cor­re­dor reve­la a pre­sen­ça do cine­ma na sala. Ele faz care­tas, coça a bar­ri­ga, coça a cabe­ça, dan­ça, rebo­la, pula. E des­se modo, embo­ra mui­to pro­va­vel­men­te isto não tenha sido pen­sa­do no ins­tan­te da fil­ma­gem, o meni­no Tião Paulo cobre com um comen­tá­rio irô­ni­co a afir­ma­ção de que “tudo na vida se con­se­gue com tra­ba­lho”. O mais velho diz para o jovem que com esfor­ço e dedi­ca­ção é pos­sí­vel “che­gar ao apo­geu, che­gar a ser Presidente da República”. O irre­qui­e­to Tião Paulo está bem per­to da câme­ra, qua­se fora de foco, ten­tan­do subir no tri­pé, enfi­ar o dedo na len­te. Daí a ins­tan­tes, agar­ra­do pela mãe, repre­en­di­do com uns belis­cões e puxões de ore­lha, é joga­do de cas­ti­go num can­to do sofá.

Imaginemos: o meni­no Tião Paulo ficou lá, de cas­ti­go, todo o tem­po, até, cres­ci­do, e sob o codi­no­me de Patrício, zom­bar da con­ver­sa tea­tral, melo­dra­má­ti­ca, de Geni e Herculano em Toda a nudez será cas­ti­ga­da. Do lado de lá do tele­fo­ne, Herculano, pres­tes a que­brar o jura­men­to fei­to no cemi­té­rio sobre o cor­po da mulher na hora do enter­ro: mor­rer para vida, jamais casar-se de novo. Do lado de cá, Geni, pron­ta a mor­rer como pros­ti­tu­ta para se entre­gar à pai­xão por Herculano. Tião Paulo, como um pon­to de tea­tro, sopra para Geni o tex­to cor­re­to: ela deve fin­gir indi­fe­ren­ça. Deve dizer que só fala com Herculano depois do casa­men­to. Em cena, um dra­ma­lhão, ges­tos tea­trais, sofri­men­to exa­ge­ra­do, lágri­mas deses­pe­ra­das, pela impos­si­bi­li­da­de de Geni esca­par do pas­sa­do de pros­ti­tu­ta e Herculano do futu­ro de exco­mun­ga­do. No entan­to, mais do que os per­so­na­gens no cen­tro da ação, o espec­ta­dor se dá con­ta mes­mo é de um intro­me­ti­do tão fora do con­tex­to quan­to o meni­no de Opinião públi­ca. No tele­fo­ne, Herculano qua­se cho­ra de um lado, Geni qua­se cho­ra do outro e Tião Paulo, indi­fe­ren­te e irô­ni­co, repe­te e repe­te: “Esnoba! Esnoba! Diz: Só casan­do! Só casan­do!”

Imaginemos que o meni­no Tião Paulo tenha se edu­ca­do não pelos con­se­lhos do mais velho de Opinião públi­ca, mas pelo gri­to desar­ti­cu­la­do do Bandido da luz ver­me­lha, (de Rogério Sganzerla, 1968): “Quando a gen­te não pode fazer nada, a gen­te se ava­ca­lha. A gen­te se ava­ca­lha e se escu­lham­ba”. Aprendida a lição, umas tan­tas per­so­nas antes de che­gar à ida­de adul­ta na tran­sa amazô­ni­ca de Iracema, a mais que per­fei­ta repre­sen­ta­ção do cida­dão de uma ilu­são de país onde tudo pode desa­pa­re­cer em 30 segun­dos, a fábri­ca de sutiãs e a flo­res­ta em cha­mas.

São fil­mes de esti­los dife­ren­tes estes em que Pereio age do mes­mo modo. E con­vém acen­tu­ar: em Iracema, o mes­mo dei­xa de ser o mes­mo de sem­pre. Até então todo fei­to de deso­be­di­ên­cia e maus modos, herói sem nenhum cará­ter, pro­je­ção da recu­sa do espec­ta­dor à ordem impos­ta pela dita­du­ra, Tião, na tran­sa amazô­ni­ca, está mais pró­xi­mo de uma repre­sen­ta­ção do poder mili­tar, ou de uma incons­ci­en­te incor­po­ra­ção dos valo­res da dita­du­ra, do que de uma efe­ti­va nega­ção dela. Embora no cen­tro, Tião é um fora do qua­dro na estru­tu­ra de com­po­si­ção des­se fil­me, que na ver­da­de, se ocu­pa de Iracema e da mui­ta gen­te que atra­ves­sa a ima­gem por um ins­tan­te: o bar­quei­ro que ven­de açaí por um pou­co de dinhei­ro e três gar­ra­fas de cacha­ça, a mulher que não tem cor­po, o rei da catu­a­ba, os que vivem do “negó­cio de tira­ção de madei­ra”, os que se dei­xam ficar à mar­gem da estra­da, os que for­ce­jam no tra­ba­lho para abrir cami­nho na flo­res­ta, todos aque­les que na cida­de se com­pri­mem na rua para o Círio de Nazaré e no cam­po são ven­di­dos para tra­ba­lho escra­vo. Ninguém sabe deles, eles não sabem quem são, nem sabem onde estão. Tudo “gen­te mir­ra­da”, nas pala­vras de Tião. Gente pobre, “da pobre­za que está em des­va­lor aí no mun­do”, nas pala­vras do tra­ba­lha­dor que con­ta como per­deu as ter­ras que com­prou.

Na tela, Iracema cor­re qua­se como um docu­men­tá­rio. O espec­ta­dor apre­en­de as ima­gens dos tre­chos de fic­ção como se elas fos­sem o regis­tro dire­to de uma cena real­men­te acon­te­ci­da. Eu te amo, ao con­trá­rio, cor­re como uma cena livre­men­te ima­gi­na­da, uma fic­ção ambi­en­ta­da num espa­ço mais per­to do tea­tro que da rea­li­da­de, do sonho que da vigí­lia. Imaginemos: no pri­mei­ro, a câme­ra está vol­ta­da para o que exis­te (o povo?); no segun­do, para o que não exis­te (os peque­nos bur­gue­ses?). Existir como um não-exis­tir tal­vez seja a ques­tão comum aos dois fil­mes. Paulo se sen­te joga­do para fora do mun­do, a fábri­ca aca­bou em 30 segun­dos. Tião joga Iracema fora (“se vira!”), para o mun­do, e dei­xa esca­par uma ques­tão até então não men­ci­o­na­da (Paulo ontem, não esta­va à pro­cu­ra de pal­pa­bi­li­da­de): o cami­nhão cus­tou 140 milhões. Na estra­da, além de madei­ra, car­re­ga­va a dívi­da. Ele, então, em pou­cas pala­vras, sem subli­nhar o que diz com uma de suas habi­tu­ais care­tas irô­ni­cas, expli­ca: pagou 50 à vis­ta, paga 4 por mês, tem de ganhar no míni­mo 10 por mês para poder pagar a dívi­da. Joga Iracema fora no meio da estra­da por­que “não dá para ficar de rabi­cho com mulher”. 

Iracema tal­vez pos­sa ser vis­to como uma con­ver­sa sobre o que não exis­te, sobre a fic­ção do Brasil Grande inven­ta­da pelo gover­no mili­tar em tor­no da Transamazônica, e Eu te amo, como uma con­ver­sa sobre o que vive só como apa­rên­cia e não tem exis­tên­cia con­cre­ta. Os dois fil­mes se ali­men­tam de uma comum von­ta­de de repre­sen­tar em suas his­tó­ri­as o país como um todo. A tele­vi­são e as cai­xas de sutiãs do indus­tri­al fali­do e os ade­si­vos do cami­nho­nei­ro – as ban­dei­ras de todos os esta­dos e a pala­vra de ordem da dita­du­ra, “Brasil, ame-o ou dei­xe-o” – fazem do apar­ta­men­to de Paulo e do cami­nhão de Tião duas ima­gens-sín­te­ses do país. Sete de setem­bro de 1975: no Rio, enquan­to o exér­ci­to des­fi­la para come­mo­rar o Dia da Pátria, Paulo come­ça o namo­ro com Bárbara, que, médi­ca legis­ta, pai sue­co, mãe bra­si­lei­ra, “pare­cia até per­so­na­gem de Ingmar Bergman”. Em Belém, enquan­to toda a gen­te come­mo­ra o Círio de Nazaré, Tião con­vi­da Iracema para seguir com ele no cami­nhão, flo­res­ta aden­tro, estra­da a fora.  Sete anos depois do setem­bro em que Paulo conhe­ceu Bárbara Bergman e, no Círio de Nazaré, Tião conhe­ceu Iracema, moto­ris­ta e indus­tri­al se encon­tram. O cami­nhão que Tião diri­gia ontem atro­pe­la Paulo, o Tião ama­nhã. O indus­tri­al que ontem se dava bem na tran­sa amazô­ni­ca foi à falên­cia.

Duplamente aban­do­na­do, pela fábri­ca e pela mulher, Paulo, enver­go­nha­do, diz que é “um cara que sen­te, um cara que se emo­ci­o­na”, mas o que o espec­ta­dor de fato per­ce­be nes­ta apa­ren­te con­fis­são sofri­da é o tom de zom­ba­ria do ator. Pereio está de fato inte­res­sa­do em mos­trar que Paulo, se é que de fato sofre, exa­ge­ra o sofri­men­to. O ator não ves­te a pele de fra­gi­li­da­de do per­so­na­gem. Ao con­trá­rio, no exa­ge­ro da inter­pre­ta­ção mos­tra o quan­to des­pre­za o sofri­men­to de Paulo. Desse mes­mo modo, com exa­ge­ros seme­lhan­tes, expres­sou idên­ti­co des­pre­zo pela ale­gria de Tião, por sua auto­con­fi­an­ça e entu­si­as­mo dian­te da pro­mes­sa de rique­za com a Transamazônica. Na afe­ta­ção da voz, nas pala­vras que engo­le pela meta­de, no olhar de sos­laio, no exa­ge­ro da care­ta, na tes­ta fran­zi­da, na boca tor­ta, em tudo pura zom­ba­ria. O per­so­na­gem zom­ba de tudo, o ator zom­ba do per­so­na­gem, diz o que pen­sa de Tião e de Paulo. Nenhum enten­di­men­to pos­sí­vel. Não se levam a sério, um des­pre­za o outro. Ou, tal­vez, ambos, ator e per­so­na­gem, com a lição do ban­di­do da luz ver­me­lha na memó­ria, sen­tem que não podem fazer nada e se ava­ca­lham. Tião sabe que é pre­ci­so se virar de qual­quer modo para pagar a dívi­da do cami­nhão. Tem de segu­rar algum dinhei­ro no país que nin­guém segu­ra. Paulo sabe que é bur­ro, covar­de, uma bes­ta, um peque­no bur­guês. Ficou sem dinhei­ro algum, dei­xou de exis­tir no país que não exis­te.

De repen­te o mun­do (ou a ilu­são do Brasil Grande?) se des­faz dian­te de Tião Paulo como se nun­ca tives­se exis­ti­do. Os bons tem­pos da madei­ra, do gado, da natu­re­za no cami­nhão, do mila­gre, a fábri­ca e a mulher desa­pa­re­ce­ram em 30 segun­dos – ele des­per­ta para um pesa­de­lo.

De repen­te o mun­do se des­faz dian­te de Maria: ela come­ça a pen­sar que é um sonho de outra pes­soa. 

De repen­te, e aqui de modo real­men­te trá­gi­co, o mun­do se des­faz dian­te de Iracema. A ilu­são de ser uma bra­si­lei­ra, não uma índia, mas uma bra­si­lei­ra, com o des­ti­no de cor­rer o mun­do, aca­ba. Ela é joga­da fora. Na mar­gem da estra­da, é engo­li­da pela poei­ra do cami­nhão do Brasil Grande.

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