Tiradentes, o anti-Oscar

No cinema

27.01.17

Não vamos falar, ao menos por enquan­to, dos fami­ge­ra­dos “fil­mes do Oscar”, que inun­dam as telas e a mídia todo iní­cio de ano. Tem tem­po para isso. Hoje é dia de falar da Mostra de Cinema de Tiradentes, a ple­no vapor em sua vigé­si­ma edi­ção. Entre os fes­ti­vais bra­si­lei­ros, é o que apos­ta mais radi­cal­men­te no cine­ma auto­ral, de inven­ção, de expe­ri­ên­cia, ou seja lá como se quei­ra cha­mar esse punha­do de fil­mes estra­nhos ao mer­ca­do e aves­sos às clas­si­fi­ca­ções. De cer­to modo, é o anti-Oscar.

Predominam aqui os jovens rea­li­za­do­res, mas há des­ta­que tam­bém para os vete­ra­nos que não se cur­va­ram às con­ven­ções e con­ve­ni­ên­ci­as (esté­ti­cas, polí­ti­cas, mer­ca­do­ló­gi­cas). Uma das home­na­ge­a­das des­te ano foi a atriz e cine­as­ta Helena Ignez, e um dos fil­mes mais aguar­da­dos é Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho, que com­pa­re­ce tam­bém com um novo cur­ta, Gozo/gozar.

Mas vamos aos novos. Dos sete lon­gas-metra­gens con­cor­ren­tes da mos­tra Aurora, vi qua­tro. Dois ain­da serão exi­bi­dos hoje (sex­ta-fei­ra, 27 de janei­ro) e per­di a ses­são de Baronesa, de Juliana Antunes, mui­to bem rece­bi­do pelo públi­co e pela crí­ti­ca.

Cinema em esboço

Os qua­tro vis­tos são um bom retra­to do que cos­tu­ma ser a pro­du­ção que tra­fe­ga por Tiradentes: esti­mu­lan­tes, inven­ti­vos, ínte­gros, mas tam­bém um tan­to falhos, por vezes clau­di­can­tes, como pro­je­tos que não se cum­pri­ram total­men­te. Em con­jun­to, pas­sam a ideia de um cine­ma em esbo­ço, em for­ma­ção, em bus­ca de um cami­nho mais fir­me.

O mais bem-suce­di­do dos qua­tro, isto é, aque­le que pare­ce levar a cabo mais intei­ra­men­te sua pro­pos­ta, é Sem raiz, de Renan Rovida. Produzido pela Tela Suja, que se apre­sen­ta como um “cole­ti­vo anti­ca­pi­ta­lis­ta”, o fil­me retra­ta o coti­di­a­no, os sonhos e frus­tra­ções de qua­tro tra­ba­lha­do­ras da Grande São Paulo: uma desem­pre­ga­da que ven­de flo­res no semá­fo­ro, uma ope­ra­do­ra de tele­mar­ke­ting que sonha em cons­truir uma cre­che, uma cor­re­to­ra imo­bi­liá­ria que quer morar no cam­po e uma pro­fes­so­ra uni­ver­si­tá­ria vin­da da Argentina.

Com uma mise-en-scè­ne ao mes­mo tem­po pre­ci­sa e aber­ta ao impro­vi­so e ao aca­so, fei­ta pre­do­mi­nan­te­men­te de pla­nos fixos mais ou menos lon­gos, a nar­ra­ti­va obser­va suas per­so­na­gens a uma espé­cie de meia-dis­tân­cia, per­mi­tin­do que entrem em qua­dro os ruí­dos e “sujei­ras” da metró­po­le. Por meio des­sas his­tó­ri­as pes­so­ais, deli­neia-se cla­ra­men­te o movi­men­to sufo­can­te, anô­ni­mo e oni­pre­sen­te do capi­tal, a tor­nar pre­cá­ri­as as rela­ções e res­trin­gir os espa­ços para o dese­jo e o sonho. Um belo lon­ga de estreia do dire­tor e, sal­vo enga­no, tam­bém de seu cole­ti­vo.

Pornochanchada revisitada

Outro lon­ga igual­men­te ani­ma­dor, mas por moti­vos dife­ren­tes, é o docu­men­tá­rio Histórias que nos­so cine­ma (não) con­ta­va, da tam­bém estre­an­te Fernanda Pessoa. É um fil­me de mon­ta­gem, supos­ta­men­te só com cenas de por­no­chan­cha­das dos anos 1970, nas quais a dire­to­ra pin­çou refe­rên­ci­as à rea­li­da­de do perío­do de auge e iní­cio do declí­nio da dita­du­ra mili­tar. Digo “supos­ta­men­te” por­que a com­pi­la­ção inclui tre­chos de lon­gas de Antônio Calmon, como Nos emba­los de Ipanema (1978) e Terror e êxta­se (1979), que difi­cil­men­te pode­ri­am ser enqua­dra­dos no gêne­ro.

Feita a res­sal­va, é impres­si­o­nan­te como o docu­men­tá­rio reve­la o que, naque­la fil­mo­gra­fia tão sub­va­lo­ri­za­da, esta­va dian­te dos nos­sos olhos e no entan­to não vía­mos, pelo menos não com a devi­da aten­ção: refe­rên­ci­as não ape­nas ao arbí­trio mili­tar, mas às con­tra­di­ções soci­ais, à segre­ga­ção raci­al, às ques­tões de gêne­ro, às mudan­ças de cos­tu­mes e às rea­ções a elas, à avas­sa­la­do­ra pre­sen­ça da tele­vi­são e da publi­ci­da­de, ao avan­ço da soci­e­da­de de con­su­mo.

Interessante mes­mo seria obser­var a recep­ção de Histórias que nos­so cine­ma (não) con­ta­va por dife­ren­tes pla­tei­as, em ter­mos de fai­xa etá­ria (quem viveu e quem não viveu aque­la épo­ca) e de extra­ção soci­al. Uma coi­sa é cer­ta: o públi­co popu­lar que lota­va os cine­mas para ver aque­las por­no­chan­cha­das não exis­te mais. Nas últi­mas déca­das hou­ve uma eli­ti­za­ção do cir­cui­to exi­bi­dor, e a deman­da popu­lar por fic­ção e entre­te­ni­men­to pas­sou a ser supri­da hege­mo­ni­ca­men­te pela TV.

Autorreferência e metalinguagem

O pró­prio cine­ma é tam­bém, des­de o títu­lo, o tema cen­tral de Um fil­me de cine­ma, de Thiago B. Mendonça, ven­ce­dor do Aurora do ano pas­sa­do com Jovens infe­li­zes. Desta vez, tra­ta-se de uma curi­o­sa fic­ção “fami­li­ar” estre­la­da pelas duas filhas do dire­tor, em espe­ci­al Bebel, de uns oito anos, que dese­ja fazer um fil­me para a esco­la e pede empres­ta­da a câme­ra do pai (Rodrigo Scarpelli), um cine­as­ta em cri­se cri­a­ti­va.

Essa his­tó­ria sin­ge­la, que espe­lha par­ci­al­men­te a pró­pria situ­a­ção fami­li­ar do dire­tor, aca­ba assu­min­do um tom de fábu­la infan­til que home­na­geia o “pri­mei­ro cine­ma” (de Lumière e Méliès a Chaplin e Buster Keaton) como um ter­ri­tó­rio de des­co­ber­ta, inven­ção e poe­sia aná­lo­go à infân­cia. A arti­cu­la­ção de cenas dos fil­mes mudos com a nar­ra­ti­va fami­li­ar nem sem­pre fun­ci­o­na bem, e a ence­na­ção pare­ce por vezes um tan­to frou­xa, mas o resul­ta­do final é mais que sim­pá­ti­co e dei­xa a sen­sa­ção de que tudo o que veio depois já esta­va ins­cri­to, ao menos em potên­cia, naque­le cine­ma dos pio­nei­ros.

Por fim, Subybaya, de Leo Pyrata, é uma comé­dia meta­lin­guís­ti­ca cen­tra­da na cons­tru­ção de uma per­so­na­gem femi­ni­na no Brasil de hoje e nas ques­tões de gêne­ro que isso sus­ci­ta. O desen­vol­vi­men­to da nar­ra­ti­va, que acom­pa­nha o dia a dia de uma jovem insa­tis­fei­ta de clas­se média de Belo Horizonte, é pon­tu­a­do por crí­ti­cas de um gru­po de impla­cá­veis espec­ta­do­ras femi­nis­tas. A pia­da se com­ple­ta com a atu­a­ção do pró­prio dire­tor como um per­so­na­gem de macho cafa­jes­te. O tom é um tan­to juve­nil, com uma auto­crí­ti­ca que aca­ba fun­ci­o­nan­do como auto­de­fe­sa, mas não dei­xa de ser diver­ti­do.

Dito tudo isso, o gran­de méri­to da Mostra de Tiradentes dos últi­mos anos – reve­lar e fomen­tar uma pro­du­ção inqui­e­ta, à mar­gem do mer­ca­do – traz tam­bém um ris­co e um desa­fio. O ris­co é de que esse oásis de liber­da­de cri­a­ti­va se tor­ne uma bolha, uma redo­ma, em que os rea­li­za­do­res dia­lo­guem somen­te com seus pares e com o públi­co ciné­fi­lo local, que se habi­tu­ou à “estra­nhe­za” de seus fil­mes. O desa­fio é não dei­xar que isso acon­te­ça, é aju­dar essa pro­du­ção a ganhar visi­bi­li­da­de e encon­trar suas pla­tei­as. Quem dis­se que é fácil?

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