Todas as primaveras

Correspondência

04.08.11

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Sérgio, meu caro,

Eu conhe­cia de ver­be­tes de enci­clo­pé­dia algu­mas das infor­ma­ções sobre essa tua rica tra­je­tó­ria nos anos 60, mas nada como colher dire­to na fon­te esse depoi­men­to pre­ci­o­so.

Puxa, você este­ve em Paris em maio de 68 e em Praga na pri­ma­ve­ra do “soci­a­lis­mo com ros­to huma­no” — e vol­tou com essas coi­sas todas na cabe­ça para o som­brio Brasil dos gene­rais. É sem­pre teme­rá­rio fazer para­le­los entre a obra de um artis­ta e sua vida pes­so­al, ou dedu­zir aque­la des­ta, mas não pos­so dei­xar de ver uma coe­rên­cia pro­fun­da entre a tua vivên­cia de expe­ri­ên­ci­as de liber­da­de e o cará­ter essen­ci­al­men­te liber­tá­rio da tua lite­ra­tu­ra.

Nada a ver com uma lite­ra­tu­ra enga­ja­da, pro­gra­má­ti­ca, mas jus­ta­men­te com o con­trá­rio, com a bus­ca de um esta­do per­ma­nen­te de dúvi­da e de cri­se, de ques­ti­o­na­men­to das cer­te­zas, tan­to no pla­no polí­ti­co como no moral e no esté­ti­co. O sen­ti­men­to que teus con­tos, nove­las e roman­ces me pas­sam — e que as tuas car­tas e con­ver­sas con­fir­mam — é a de uma liber­da­de extre­ma da ima­gi­na­ção, de uma aber­tu­ra cora­jo­sa para o ris­co, para a aven­tu­ra do espí­ri­to.

Sei que há mui­to tra­ba­lho, mui­ta trans­pi­ra­ção e mui­ta com­pe­tên­cia téc­ni­ca por trás des­se fazer, mas a sen­sa­ção que teus tex­tos trans­mi­tem é a de que, tan­to quan­to o lei­tor, você está des­co­brin­do as coi­sas, deci­fran­do o mun­do e espe­cu­lan­do sobre ele, no momen­to mes­mo em que escre­ve. As pala­vras não des­cre­vem um mun­do já pron­to e aca­ba­do, mas como que o des­ve­lam e o cri­am num mes­mo movi­men­to.

Um assun­to que ficou qua­se ausen­te de nos­sas car­tas ante­ri­o­res é o cine­ma, e eu gos­ta­ria de lem­brar aqui os fil­mes base­a­dos em nar­ra­ti­vas tuas. Salvo enga­no, são três lon­gas-metra­gens: Bossa nova, do Bruno Barreto; Crime deli­ca­do, do Beto Brant; e Um roman­ce de gera­ção, do David França Mendes.

Dos três, o fil­me do Bruno Barreto é o que me pare­ce mais dis­tan­te, no espí­ri­to e na letra, do tex­to que o ins­pi­rou, o con­to “Senhorita Simpson”. Do Crime deli­ca­do eu gos­to bas­tan­te, até escre­vi sobre ele, mas tal­vez a gen­te veja nele mais as pre­o­cu­pa­ções do Beto Brant do que pro­pri­a­men­te as tuas. Posso estar enga­na­do.

Mas o fil­me que eu acho mais inte­res­san­te dos três, no sen­ti­do de incor­po­rar em sua pró­pria fatu­ra a hibri­dez do tex­to ori­gi­nal, é Um roman­ce de gera­ção. Há ali uma esti­mu­lan­te mis­tu­ra de tea­tro, cine­ma, lite­ra­tu­ra, fic­ção, docu­men­tá­rio e depoi­men­to pes­so­al. Penso que esse fil­me expres­sa de manei­ra feliz a tua pos­tu­ra aber­ta, expe­ri­men­tal e sem cerimô­nia dian­te da cri­a­ção lite­rá­ria — e artís­ti­ca de um modo geral.

As pró­pri­as falhas, os pró­pri­os erros, hesi­ta­ções e cor­re­ções de rota são incor­po­ra­dos na obra, que dei­xa de ser vis­ta como um obje­to aca­ba­do, vene­ran­do e into­cá­vel, para se apre­sen­tar como orga­nis­mo vivo, ple­no de sur­pre­sas e sig­ni­fi­ca­dos pos­sí­veis.

São incon­tá­veis os escri­to­res e artis­tas que eu admi­ro, mas pou­cos são os que me trans­mi­tem essa potên­cia liber­tá­ria, essa sen­sa­ção de que o homem pode tudo o que sua fan­ta­sia for capaz de con­ce­ber.

Desculpe se caí no elo­gio ras­ga­do, mas eu pre­ci­sa­va apro­vei­tar esta opor­tu­ni­da­de pri­vi­le­gi­a­da para te agra­de­cer pelo imen­so pra­zer que os teus livros me pro­por­ci­o­nam.

Já espe­ro ansi­o­so pelo pró­xi­mo.

 

Grande abra­ço,

 

Zé Geraldo

 

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: cena do fil­me Um roman­ce de gera­ção (2008), de David França Mendes

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