O cineasta Andrea Tonacci

O cineasta Andrea Tonacci

Tonacci, cinema dos grandes

No cinema

23.12.16

A últi­ma estreia impor­tan­te do ano que está ter­mi­nan­do – sem falar nos block­bus­ters de féri­as – é sem dúvi­da Belos sonhos, de Marco Bellocchio, sobre o qual escre­vi aqui quan­do foi exi­bi­do na Mostra Internacional de São Paulo. Mas hoje é pre­ci­so falar de Andrea Tonacci (1944–2016), o imen­so cine­as­ta que aca­ba de nos dei­xar.

Num ano de gra­ves per­das para o cine­ma bra­si­lei­ro, esta foi uma das mais cruéis, pois Tonacci vivia uma fase de gran­de ener­gia e cri­a­ti­vi­da­de, com vári­os pro­je­tos em men­te ou em anda­men­to. Muito que­ri­do por seus ami­gos, cole­gas e cola­bo­ra­do­res (melhor seria dizer que todos os seus cole­gas e cola­bo­ra­do­res tor­na­vam-se ins­tan­ta­ne­a­men­te seus ami­gos), o cine­as­ta viu cres­cer nas últi­mas déca­das uma legião de jovens admi­ra­do­res, esti­mu­la­dos por seu tra­ba­lho, suas idei­as e seu afe­to.

Ética e esté­ti­ca

Ao lon­go de meio sécu­lo, Tonacci fil­mou mui­to e mos­trou rela­ti­va­men­te pou­co: ape­nas cin­co lon­gas-metra­gens, um úni­co deles de fic­ção, o hoje legen­dá­rio Bang bang (1971), mar­co intri­gan­te do cine­ma de inven­ção, impro­pri­a­men­te cha­ma­do de “mar­gi­nal”. Essa par­cimô­nia tem a ver com uma carac­te­rís­ti­ca cen­tral do cine­as­ta, o pro­fun­do sen­so de res­pon­sa­bi­li­da­de dian­te das ima­gens que cap­ta­va e exi­bia. A esté­ti­ca, para ele, nun­ca este­ve sepa­ra­da da éti­ca. Poderiam ser dele os ver­sos de John Keats: “Beauty is truth, truth beauty – that is all/ ye know on earth, and all ye need to know” (“A bele­za é ver­da­de; a ver­da­de, bele­za – isso é tudo/ o que se sabe na ter­ra, e tudo o que é pre­ci­so saber”.)

Da inqui­e­ta­ção dian­te do absur­do de um país em tran­se auto­ri­tá­rio, mani­fes­ta­da nos pri­mei­ros fil­mes (os cur­tas Olho por olho e Blá-blá-blá, o lon­ga Bang bang), o dire­tor evo­luiu nas déca­das seguin­tes para uma pre­o­cu­pa­ção ao mes­mo tem­po vis­ce­ral e cós­mi­ca com a con­di­ção e o des­ti­no dos povos indí­ge­nas, que era sua manei­ra de medi­tar sobre a huma­ni­da­de em geral.

Forjado na inter­lo­cu­ção com povos como os tim­bi­ras (Conversas no Maranhão, 1977–83),os cane­las (Discursos cane­las, 1979) e os ara­ras (Os ara­ras, 1980), esse pen­sa­men­to vivo desem­bo­cou num fil­me extra­or­di­ná­rio, Serras da desor­dem (2006), híbri­do sin­gu­lar de docu­men­tá­rio, fic­ção e autor­re­fle­xão.

Para recons­ti­tuir – e ao mes­mo tem­po repen­sar – a saga do índio Carapiru, que depois de esca­par ao mas­sa­cre de sua aldeia atra­ves­sou a pé vári­os esta­dos e viveu numa fazen­da de bran­cos sem falar uma pala­vra de por­tu­guês, Tonacci mis­tu­rou mate­ri­al de arqui­vo com pas­sa­gens reen­ce­na­das pelos pró­pri­os pro­ta­go­nis­tas da his­tó­ria (Carapiru, a famí­lia que o aco­lheu, o ser­ta­nis­ta Sidney Possuelo etc.). O resul­ta­do é um fil­me úni­co, uma das mais pun­gen­tes obras cine­ma­to­grá­fi­cas não só sobre a tra­gé­dia indí­ge­na, mas sobre a con­di­ção huma­na em geral.

O Carapiru reve­la­do por Tonacci é um homem que não se encai­xa na soci­e­da­de dos bran­cos e não con­se­gue mais vol­tar à sua con­di­ção tri­bal. É um pou­co como o per­so­na­gem Joe Christmas, de Luz em agos­to de William Faulkner, negro no mun­do dos bran­cos, bran­co no mun­do dos negros. Carapiru é um para­fu­so sol­to que, na sua deri­va, expõe a engre­na­gem cru­el do mun­do.

Cinema em cons­tru­ção

Serras da desor­dem não se con­ten­ta com o mero regis­tro des­sa aven­tu­ra, mas dis­cu­te a todo momen­to seu sen­ti­do – e as ques­tões morais envol­vi­das na sua trans­mu­ta­ção em cine­ma. Ao repe­lir toda e qual­quer ide­a­li­za­ção ou mis­ti­fi­ca­ção apa­zi­gua­do­ra, bem como toda e qual­quer este­ti­za­ção apra­zí­vel, o fil­me inten­si­fi­ca o des­con­for­to do espec­ta­dor bran­co dian­te des­sa “outra huma­ni­da­de” que o espe­lha, ques­ti­o­na e inter­ro­ga. Ao final, não per­gun­ta­mos sim­ples­men­te “quem é Carapiru”, mas sim “quem somos nós”. E não é esse o papel da gran­de arte?

A melhor manei­ra de hon­rar um cine­as­ta e fazer rever­be­rar a sua obra é ver e difun­dir seus fil­mes. O ide­al seria vê-los todos na tela gran­de, mas na fal­ta des­sa pos­si­bi­li­da­de a inter­net que­bra um gran­de galho. Serras da desor­dem está dis­po­ní­vel na ínte­gra no Youtube:

Outra pre­ci­o­si­da­de aces­sí­vel na rede é o cur­ta Blá-blá-blá, pro­ta­go­ni­za­do por um ins­pi­ra­do Paulo Gracindo:

Para quem não viu ou quer rever, há o geni­al Bang bang, que ain­da pro­vo­ca des­con­cer­to qua­se meio sécu­lo depois de rea­li­za­do:

Para con­cluir, o pró­prio Tonacci fala sobre seu últi­mo tra­ba­lho pron­to, o insó­li­to média-metra­gem Já vis­to, jamais vis­to (2014), uma refle­xão sobre sua pró­pria tra­je­tó­ria cine­ma­to­grá­fi­ca e pes­so­al, fei­ta com res­tos de fil­mes e pro­je­tos ina­ca­ba­dos. Testemunho de uma vida que ter­mi­nou quan­do ain­da esta­va em cons­tru­ção, como qua­se todas:

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