Tradição e tradução — quatro perguntas a Rubens Figueiredo

Quatro perguntas

22.11.11

Passageiro do fim do dia (Companhia das Letras), o oita­vo livro do escri­tor cari­o­ca Rubens Figueiredo, cuja pri­mei­ra obra foi lan­ça­da em 1986, já detem o pos­to de roman­ce bra­si­lei­ro mais pre­mi­a­do do ano. Vencedor dos prê­mi­os São Paulo de Literatura e Portugal Telecom, o livro tra­ta, com esti­lo enxu­to e obje­ti­vo, da tra­je­tó­ria até um dis­tan­te bair­ro na peri­fe­ria de uma gran­de cida­de, onde o pro­ta­go­nis­ta em lon­gos soli­ló­qui­os pas­sa em revis­ta a sua vida e sua atu­al con­di­ção. Além de roman­cis­ta, Rubens, que já ganhou dois Prêmios Jabuti, tam­bém se des­ta­ca como um dos mais impor­tan­tes tra­du­to­res bra­si­lei­ros con­tem­po­râ­ne­os. É ele o res­pon­sá­vel, por exem­plo, pela nova tra­du­ção de Guerra e paz, de Tolstoi, recém-publi­ca­da no Brasil pela Cosac Naify. O autor res­pon­deu a qua­tro per­gun­tas do blog do IMS.

 

Passageiro do fim do dia se tor­nou o roman­ce bra­si­lei­ro mais pre­mi­a­do de 2011. Você se sen­te de algu­ma for­ma cobra­do em rela­ção às obras futu­ras, a cum­prir expec­ta­ti­vas que os prê­mi­os geral­men­te cri­am nos lei­to­res e edi­to­res?

Não me sin­to cobra­do. No meu caso, se me sen­tis­se assim, não have­ria a míni­ma chan­ce de escre­ver nada. Prefiro enca­rar os prê­mi­os como um incen­ti­vo, já que os incen­ti­vos são escas­sos em nos­sa ati­vi­da­de. As expec­ta­ti­vas não estão entre as moti­va­ções para escre­ver, no meu caso. Parece que eu escre­vo quan­do as expe­ri­ên­ci­as, as obser­va­ções e os ques­ti­o­na­men­tos que, com o tem­po, vão se for­man­do na minha cabe­ça alcan­ça­ram algu­ma den­si­da­de, toma­ram uma espé­cie de for­ma mais deli­ne­a­da. Aí sin­to a pres­são para escre­ver e ten­tar dizer o que estou ven­do e pen­san­do.

 

Como você se apre­sen­ta­ria para um lei­tor que che­gas­se aos seus
roman­ces ago­ra atraí­do pelos prê­mi­os que Passageiro ganhou? Em que tipo de lite­ra­tu­ra o senhor vê a sua obra encai­xa­da?

Talvez como um escri­tor que se pre­o­cu­pa menos com o que é ou deve ser a lite­ra­tu­ra toma­da iso­la­da­men­te, e mais com o que se pode dizer, com os recur­sos pró­pri­os de um roman­ce, a res­pei­to da soci­e­da­de em que vive­mos.

 

Passageiro tem um viés polí­ti­co entra­nha­do na nar­ra­ti­va, na medi­da em que tra­ta do coti­di­a­no que é comum a milha­res de bra­si­lei­ros e os pro­ble­mas enfren­ta­dos por essas pes­so­as, seja de infra­es­tru­tu­ra e até de pers­pec­ti­va de vida. O que você bus­ca ao se deter sobre esses aspec­tos?

Talvez a pre­mis­sa seja que um roman­ce, ou um con­to, faz par­te do nos­so esfor­ço geral de conhe­cer e com­pre­en­der nos­sa vida, de inves­ti­gar como se cons­ti­tu­em as rela­ções soci­ais e como esses mes­mos pro­ces­sos afe­tam nos­sa per­cep­ção des­sas rela­ções. Tudo isso pode ser ques­ti­o­na­do em ações e ges­tos coti­di­a­nos, tidos a prin­cí­pio como banais e irre­le­van­tes.

 

Nos últi­mos anos, auto­res rus­sos, dos quais o senhor é tra­du­tor dos mais res­pei­ta­dos, têm sido ampla­men­te rece­bi­dos no Brasil, cri­an­do uma espé­cie de onda até então iné­di­ta. Ao que você atri­bui esse movi­men­to?

Acredito que a lite­ra­tu­ra rus­sa tem mui­to a nos dizer por­que tem uma dife­ren­ça de fun­do em rela­ção à lite­ra­tu­ra que se con­so­li­dou nos paí­ses ricos ao lon­go do sécu­lo vin­te. A lite­ra­tu­ra rus­sa se rela­ci­o­na­va com a soci­e­da­de de uma for­ma dras­ti­ca­men­te diver­sa da for­ma que nos habi­tu­a­mos a ver como natu­ral. Eram obras que se inse­ri­am menos na lite­ra­tu­ra, como ins­ti­tui­ção ou mer­ca­do, e mais num deba­te ou numa polê­mi­ca vigo­ro­sa, dis­se­mi­na­da pela soci­e­da­de rus­sa, acer­ca dos des­ti­nos do país. Assim a dinâ­mi­ca des­sa polê­mi­ca e das trans­for­ma­ções soci­ais em cur­so pene­tra­va a fun­do na con­cep­ção e na com­po­si­ção daque­las obras. Da pers­pec­ti­va de tais obras, pode­mos ver de um ângu­lo dife­ren­te os pro­ces­sos que pro­du­zem e repro­du­zem nos­sa soci­e­da­de. Uma pers­pec­ti­va mais aber­ta a ques­ti­o­na­men­tos e por­ta­do­ra de uma crí­ti­ca bem menos teme­ro­sa e aca­nha­da.

 

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