Trapaça e os malandros com gravata e capital

No cinema

14.02.14

Houve um tem­po em que rece­ber dez indi­ca­ções ao Oscar era coi­sa para épi­cos como O pode­ro­so che­fão ou O últi­mo impe­ra­dor. Hoje isso acon­te­ce com um fil­me de entre­te­ni­men­to ligei­ro como Trapaça.

Nada con­tra o entre­te­ni­men­to ligei­ro, mui­to menos con­tra o sub­gê­ne­ro espe­cí­fi­co em que se enqua­dra o tra­ba­lho de David O. Russell, a far­sa de viga­ri­ce ou malan­dra­gem, que pro­du­ziu exem­pla­res deli­ci­o­sos, de Golpe de mes­tre (George Roy Hill) a Os safa­dos (Frank Oz), pas­san­do pelo bra­si­lei­ro Vai tra­ba­lhar, vaga­bun­do (Hugo Carvana), pelo argen­ti­no Nove rai­nhas (Fabián Bielinsky) e pelos pri­mei­ros fil­mes de David Mamet.

De todo modo, a chu­va de indi­ca­ções para Trapaça tal­vez diga mui­to sobre a pobre­za da pro­du­ção e dos cri­té­ri­os da Hollywood atu­al.

http://www.youtube.com/watch?v=YwpdoUcocMA

Mas vamos ao fil­me. Há algo de rela­xa­do, qua­se mam­bem­be, na sua cons­tru­ção, e de trô­pe­go no seu anda­men­to nar­ra­ti­vo, o que con­diz com o cará­ter de seus pro­ta­go­nis­tas — o tram­bi­quei­ro pro­fis­si­o­nal Irving Rosenfeld (Christian Bale), sua par­cei­ra e aman­te Sydney (Amy Adams) e o agen­te do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper) que os des­mas­ca­ra e os coop­ta para tra­ba­lhar para a polí­cia.

A his­tó­ria se pas­sa em Nova York e em Nova Jersey nos anos 1970, o que cria uma atmos­fe­ra seme­lhan­te à dos fil­mes de Martin Scorsese ambi­en­ta­dos no sub­mun­do dos peque­nos mafi­o­sos — além de pro­pi­ci­ar o recur­so a uma pode­ro­sa e nos­tál­gi­ca tri­lha sono­ra que vai de Elton John a David Bowie, de Santana a Paul McCartney, tem­pe­ra­dos pelo jazz de Duke Ellington, Ella Fitzgerald e Thelonious Monk.

Anti-herói sedu­tor

A evo­ca­ção do cine­ma de Scorsese é refor­ça­da pela atu­a­ção hiper-rea­lis­ta de Christian Bale, ator que se trans­for­ma fisi­ca­men­te de um papel a outro como fazia o jovem Robert De Niro. Claro que as seme­lhan­ças param por aí. Trapaça care­ce do vigor, do rigor e da ambi­ção dos melho­res tra­ba­lhos de Scorsese.

Mas, vol­tan­do a Bale, a carac­te­ri­za­ção que ele faz do des­gla­mo­ri­za­do e ain­da assim sedu­tor tram­bi­quei­ro Rosenfeld — que já entra em cena no con­tra­pé, ten­tan­do labo­ri­o­sa­men­te dis­far­çar a care­ca — é um dos pon­tos altos do fil­me. Mas há outras vir­tu­des dig­nas de nota.

Uma delas é o fato de emba­ra­lhar, sem juí­zos mora­lis­tas, as viga­ri­ces dos cri­mi­no­sos comuns e as far­sas “ofi­ci­ais” mon­ta­das pelos polí­ti­cos e pela polí­cia. (Talvez este­ja­mos tes­te­mu­nhan­do uma — e das gran­des — no Brasil de hoje.) Os pés de chi­ne­lo e os “malan­dros com con­tra­to, com gra­va­ta e capi­tal”. O mun­do das apa­rên­ci­as igua­lan­do uns e outros em tor­no da máxi­ma de Rosenfeld: “As pes­so­as acre­di­tam no que que­rem acre­di­tar”.

Outro méri­to é ser uma nar­ra­ti­va poli­ci­al sem per­se­gui­ção de car­ros, sem tiros e pra­ti­ca­men­te sem san­gue. No tru­cu­len­to e pou­co sutil cine­ma hollywo­o­di­a­no atu­al, isso é no míni­mo um alí­vio.

Trapaça ali­via, Ozu sal­va

Para os ciné­fi­los mais exi­gen­tes, porém, uma alter­na­ti­va a ser reco­men­da­da com entu­si­as­mo é ver ou rever o clás­si­co de Yasujiro Ozu Era uma vez em Tóquio (1953), que estreia hoje (14 de feve­rei­ro) em cópia res­tau­ra­da no CineSESC, em São Paulo, e tam­bém está em car­taz até 28 de feve­rei­ro no IMS-RJ.

Também cha­ma­do de Viagem a Tóquio e Contos de Tóquio, é uma obra-pri­ma abso­lu­ta, que ins­pi­rou recen­te­men­te uma espé­cie de rema­ke, Uma famí­lia em Tóquio, de Yôji Yamada. Vale a pena cote­jar os dois, mas, se tiver que optar, fique com o ori­gi­nal.

Na his­tó­ria do casal de ido­sos que sai da pro­vín­cia para visi­tar os filhos em Tóquio e des­co­bre que não tem mais lugar na vida atri­bu­la­da deles na metró­po­le, Ozu con­den­sa suas prin­ci­pais pre­o­cu­pa­ções sobre a pas­sa­gem do tem­po, a oci­den­ta­li­za­ção da vida japo­ne­sa, o fio tênue das rela­ções afe­ti­vas e fami­li­a­res. Seus pla­nos dis­cre­tos, sere­nos e pre­ci­sos estão entre os mais belos que o cine­ma já pro­du­ziu.

http://www.youtube.com/watch?v=okdVootHvKA

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