Truffaut e a vertigem do feminino

No cinema

17.07.15

Há cine­as­tas que são admi­ra­dos e res­pei­ta­dos a uma cer­ta dis­tân­cia, como que olha­dos de bai­xo para cima: Lang, Hitchcock, Bresson, Kubrick. Outros são sobre­tu­do ama­dos: Renoir, Fellini, Kurosawa, Truffaut. Há na obra des­tes últi­mos um calor huma­no que dá ao espec­ta­dor a ilu­são de ser ami­go pes­so­al, ínti­mo, de cada um deles.

É mais do que pro­vá­vel, por­tan­to, que a mega­ex­po­si­ção “Truffaut: um cine­as­ta apai­xo­na­do”, aber­ta esta sema­na no MIS de São Paulo, con­ver­ta-se num acon­te­ci­men­to ines­que­cí­vel para os ciné­fi­los pau­lis­ta­nos e visi­tan­tes da cida­de. A mos­tra, que vai até 18 de outu­bro, traz cer­ca de 600 itens, entre dese­nhos, fotos, obje­tos de cena e pes­so­ais, livros, revis­tas, rotei­ros, tre­chos de fil­mes e entre­vis­tas do dire­tor.

Mas o que tor­na Truffaut tão que­ri­do? Sua fil­mo­gra­fia é irre­gu­lar, com suces­sos e fra­cas­sos tan­to de públi­co como de crí­ti­ca, incur­sões nem sem­pre bem-suce­di­das em dis­tin­tos gêne­ros, do dra­ma de épo­ca à fic­ção cien­tí­fi­ca, da comé­dia ao poli­ci­al. Mesmo em seus pon­tos mais bai­xos, porém, é per­cep­tí­vel o seu amor ao cine­ma, a sua entre­ga ple­na a essa arte que ele via como a for­ma con­tem­po­râ­nea de rea­li­za­ção de uma neces­si­da­de mul­ti­mi­le­nar do homem, a de cri­ar fic­ções – e acre­di­tar nelas, ao menos por um par de horas.

Mulher, cine­ma, infân­cia

Em meio a essa obra plu­ral, hete­ro­gê­nea, dois eixos prin­ci­pais se des­ta­cam: a rela­ção de Truffaut com o amor – ou antes, com a mulher – e a rela­ção com o pró­prio cine­ma. Um tema sub­si­diá­rio seria o da infân­cia, mas vere­mos que no fun­do ele tem a ver com os outros dois.

No cora­ção do cine­ma de Truffaut está a mulher. Não por aca­so, ele dis­se cer­ta vez, em tom mais ou menos sério, que “o papel do dire­tor de cine­ma é mos­trar uma mulher boni­ta fazen­do coi­sas boni­tas”. Não se tra­ta de um cine­ma que bus­que o pon­to de vis­ta femi­ni­no. Com exce­ção, tal­vez, de A noi­va esta­va de pre­to (1967) e de A his­tó­ria de Adele H (1975), qua­se sem­pre o que vemos no cen­tro de seus fil­mes é um homem fas­ci­na­do, per­ple­xo e des­con­cer­ta­do pela mulher.

Isso é par­ti­cu­lar­men­te visí­vel na série com o per­so­na­gem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) – Os incom­pre­en­di­dosAntoine e ColetteBeijos proi­bi­dosDomicílio con­ju­galO amor em fuga – e em fil­mes como Jules e JimA noi­te ame­ri­ca­naDe repen­te num domin­go e, cla­ro, O homem que ama­va as mulhe­res. Um tre­cho admi­rá­vel des­te últi­mo sin­te­ti­za essa fas­ci­na­ção, esse des­con­cer­to, essa ver­ti­gem dian­te do femi­ni­no: 

Desnecessário dizer que um cer­to femi­nis­mo afoi­to cen­su­rou essa ado­ra­ção à mulher como uma for­ma dis­far­ça­da e insi­di­o­sa de machis­mo. Paciência. Desnecessário tam­bém notar que Truffaut, como George Cukor, foi um dire­tor de belas atri­zes: Jeanne Moreau, Françoise Dorleac, Catherine Deneuve, Jacqueline Bisset, Isabelle Adjani, Fanny Ardant. De todas ele sou­be cap­tar a deli­ca­de­za, a for­ça e o mis­té­rio.

Godard: amor e ódio

Mas o encan­to de Truffaut vem tam­bém de sua rela­ção rica e com­ple­xa com o pró­prio cine­ma. Curiosamente foi essa pai­xão comum que o apro­xi­mou e depois o afas­tou radi­cal­men­te de Jean-Luc Godard, o outro gran­de nome de sua tur­ma e gera­ção, a dos Cahiers du Cinéma e da Nouvelle Vague.

Ambos dis­cí­pu­los de André Bazin, eles mili­ta­ram jun­tos como crí­ti­cos nos Cahiers em defe­sa do cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no “de autor” (Ford, Hawks, Hitchcock, Welles) e con­tra o aca­dê­mi­co e embo­lo­ra­do “cine­ma de qua­li­da­de fran­ce­sa” que vigo­ra­va nos anos 1950. Truffaut escre­veu o rotei­ro do pri­mei­ro lon­ga de Godard (Acossado, 1959) e jun­tos fize­ram o lin­do cur­taUne his­toi­re d’eau (1961). Depois des­sa fase heroi­ca, afas­ta­ram-se cada vez mais. Enquanto Godard radi­ca­li­za­va sua rup­tu­ra com o cine­ma nar­ra­ti­vo con­ven­ci­o­nal, Truffaut bus­ca­va se apri­mo­rar e apro­fun­dar no domí­nio des­sa nar­ra­ti­va, che­gan­do a decla­rar que, com o tem­po, des­co­briu que não havia nada como a decu­pa­gem clás­si­ca, isto é, com o cine­ma ilu­si­o­nis­ta, que con­duz o olhar do espec­ta­dor sem que este per­ce­ba.

No cen­tro des­sa dis­cór­dia está A noi­te ame­ri­ca­na (1973), em que o pró­prio Truffaut atua como um cine­as­ta às vol­tas com os dra­mas e comé­di­as dos bas­ti­do­res da rea­li­za­ção de um fil­me. É um dos gran­des suces­sos da car­rei­ra do dire­tor e um dos fil­mes mais que­ri­dos por seus admi­ra­do­res. Mas Godard, que havia des­cons­truí­do esté­ti­ca e poli­ti­ca­men­te a rea­li­za­ção cine­ma­to­grá­fi­ca em O des­pre­zo (1963), acu­sou o ex-ami­go de mis­ti­fi­car e fal­se­ar seu méti­er. (Curiosamente, as tri­lhas dos dois fil­mes foram com­pos­tas pelo gran­de Georges Delerue, par­cei­ro habi­tu­al de Truffaut.)

Não é neces­sá­rio tomar par­ti­do de um ou de outro, nem tam­pou­co con­si­de­rar que o “ver­da­dei­ro cine­ma” é o de Truffaut ou o de Godard. Mais vale enca­rar essa rela­ção de amor e ódio como um momen­to úni­co do cine­ma, em que duas obras dis­tin­tas ao extre­mo, mas liga­das de modo umbi­li­cal, ilu­mi­nam-se mutu­a­men­te e enri­que­cem a sen­si­bi­li­da­de do espec­ta­dor. Neste tre­cho de A noi­te ame­ri­ca­na, vemos uma dupla home­na­gem do dire­tor a Delerue e a seus cine­as­tas favo­ri­tos: 

O homem-meni­no

Chegamos então à infân­cia, tema caro a Truffaut. Crianças ou pré-ado­les­cen­tes estão no cen­tro de Os incom­pre­en­di­dosO garo­to sel­va­gem Idade da ino­cên­cia, mas o que me pare­ce mais inte­res­san­te é o modo como, em pra­ti­ca­men­te todos os fil­mes do dire­tor, os homens adul­tos se desar­mam, se fra­gi­li­zam e de cer­to modo vol­tam a ser cri­an­ças dian­te da mulher e dian­te do pró­prio cine­ma.

Antoine Doinel é um adul­to que ao lon­go do tem­po se casa, tem vári­os empre­gos e no entan­to segue sen­do um meni­no con­fu­so e tra­ves­so, assim como o pro­ta­go­nis­ta (Charles Denner) de O homem que ama­va as mulhe­res. E Ferrand, o cine­as­ta de A noi­te ame­ri­ca­navivi­do pelo pró­prio Truffaut, não dei­xa de ver o seu ofí­cio como uma gran­de brin­ca­dei­ra de faz-de-con­ta, ou, como dis­se Orson Welles, “o mai­or tren­zi­nho elé­tri­co que um garo­to já teve”.

Faltou falar de outra rela­ção fun­da­men­tal, entre Truffaut e a lite­ra­tu­ra, mas fica para outra oca­sião.

Para fina­li­zar, como um rega­lo ou um ape­ri­ti­vo, vai aqui um tre­cho de Jules e Jim em que com­pa­re­cem o amor, a ami­za­de, a infân­cia, o cine­ma, tudo jun­to e mis­tu­ra­do, mos­tran­do de res­to que, com ou sem tra­pa­ça, em Truffaut a mulher sem­pre ven­ce:

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