Tudo é impermanente — quatro perguntas a Richard McGuire

Quatro perguntas

04.01.16

A ser­ro­te 21 adi­an­ta quin­ze pági­nas duplas do livro Aqui, de Richard McGuire, que será lan­ça­do pela Companhia das Letras no ano que vem. O pro­je­to ambi­ci­o­so, que abran­ge não fic­ção, qua­dri­nhos, memó­ri­as e até jane­las do com­pu­ta­dor, foi con­si­de­ra­do por Chris Ware como “a graphic novel que mudou tudo”, por explo­rar vári­os enre­dos que se desen­ro­lam simul­ta­ne­a­men­te. As tra­mas inter­co­nec­ta­das se sobre­põem e vão des­de a vida de uma tri­bo indí­ge­na, pas­san­do deti­da­men­te pelo dia a dia de uma famí­lia ame­ri­ca­na entre as déca­das de 1950 e 1980, até che­gar a um futu­ro bem dis­tan­te, nos anos 22.000. O pon­to de vis­ta, ao lon­go do livro, é sem­pre o mes­mo: o can­to de uma casa. Em entre­vis­ta ao Blog do IMS, McGuire diz que esco­lheu essa pers­pec­ti­va espe­cí­fi­ca por­que “a casa em si vai e vol­ta na his­tó­ria”, e ele que­ria que a “his­tó­ria fos­se mai­or que a casa, mai­or que a cida­de”.

Página dupla da graphic novel na ser­ro­te #21

Em rela­ção ao tem­po, “Aqui” vai pra fren­te e pra trás, em pas­sos peque­nos (pou­cos anos) ou enor­mes (cen­te­nas, milha­res de anos). Entre os prin­ci­pais assun­tos do livro, estão as idei­as de imper­ma­nên­cia e simul­ta­nei­da­de (“enquan­to isso…”). Você pode­ria expli­car como orga­ni­zou a estru­tu­ra não line­ar da his­tó­ria, base­a­da nas memó­ri­as e nas pro­je­ções?

Por cer­ca de um ano, fiz pes­qui­sas na área onde cres­ci, que não fica mui­to lon­ge de Manhattan, mais ou menos 45 minu­tos de car­ro na cos­ta de Nova Jersey. Foi diver­ti­do pes­qui­sar sobre fatos do pas­sa­do remo­to do ter­re­no, a ati­vi­da­de gla­ci­al, o tipo de vida que já exis­tiu ali. O pri­mei­ro esque­le­to com­ple­to de dinos­sau­ro foi encon­tra­do não mui­to lon­ge daque­le local. Há evi­dên­ci­as de que pes­so­as mora­ram lá cer­ca de onze mil anos atrás. Além dis­so, ten­tei ima­gi­nar como seria lá no futu­ro. Consultei um cien­tis­ta do cli­ma sobre as pre­vi­sões de ele­va­ção das marés. Fiz uma linha do tem­po num lon­go rolo de papel que pre­en­chia todo o meu ate­liê. Eu me ati­nha aos fatos que pla­ne­ja­va usar. Sabia que que­ria esse olhar mui­to dis­tan­te e que­ria tam­bém o olhar de per­to, os fatos pes­so­ais. Passei por mui­tas fotos de famí­lia, pro­cu­ran­do por momen­tos casu­ais, peque­nos even­tos, como uma mão encos­tan­do um ombro, ou um abra­ço, peque­nas inte­ra­ções huma­nas. Enquanto eu sele­ci­o­na­va as ima­gens, esta­va simul­ta­ne­a­men­te escre­ven­do o diá­lo­go num cader­no, e mui­to daqui­lo par­tiu de con­ver­sas entre­ou­vi­das, ou lem­bran­ças de con­ver­sas. O tom geral que eu que­ria era um tipo de con­ver­sa do “dia a dia”, os momen­tos da vida que pas­sam bati­do. Queria que o tex­to fos­se for­te o sufi­ci­en­te para se sus­ten­tar sozi­nho, sem as ima­gens. Comecei a ouvir aqui­lo como “uma voz”, mes­mo que aque­las falas fos­sem de mui­tas pes­so­as, e acho que [o livro] pode ser lido como um poe­ma. Sempre fiz mui­tas lis­tas, de coi­sas, assun­tos ou emo­ções que nós com­par­ti­lha­mos. Às vezes as lis­tas eram engra­ça­das, como “insul­tos ao lon­go do tem­po”. Em últi­ma aná­li­se, tudo foi cos­tu­ra­do ins­tin­ti­va­men­te, e come­cei a ver cone­xões entre essas coi­sas. Comparo a estru­tu­ra da cola­gem com a músi­ca. Tem “musi­ca­li­da­de” nos ecos das ima­gens e nos sons do tex­to, padrões que come­çam a se desen­vol­ver, e algu­mas cone­xões que apa­re­ce­ram me sur­pre­en­de­ram. Depois de cer­to tem­po, elas pas­sa­ram a ter vida pró­pria.

Aqui” é con­si­de­ra­da uma graphic novel, mas é mui­to par­ti­cu­lar. Mistura fic­ção, memó­ria, obje­to de arte, cola­gem, qua­dri­nhos, fil­me e até as múl­ti­plas jane­las aber­tas no com­pu­ta­dor. Como você des­cre­ve­ria esse for­ma­to, já que esse modo de con­tar uma his­tó­ria não é nada tra­di­ci­o­nal, com tan­tos enre­dos se desen­ro­lan­do ao mes­mo tem­po?

Eu vejo mais como um “livro de artis­ta” dis­far­ça­do de “graphic novel”. Acho que antes de qual­quer coi­sa sou um artis­ta, não um car­tu­nis­ta. Cartunistas são mui­to puros na devo­ção ao seu for­ma­to, e eu gos­to de expe­ri­men­tar for­ma­tos dife­ren­tes. A for­ça des­se for­ma­to espe­cí­fi­co é a pos­si­bi­li­da­de de mos­trar a simul­ta­nei­da­de, mas cada for­ma­to tem seus pon­tos for­tes. O “olhar” do meu tra­ba­lho muda de pro­je­to em pro­je­to. Esse livro pode pare­cer “não tra­di­ci­o­nal” em sua abor­da­gem, mas acho que ele é mui­to cla­ro e com­pre­en­sí­vel. Quero que meu tra­ba­lho seja diver­ti­do e con­vi­da­ti­vo para o lei­tor. Acho que nes­se caso a estru­tu­ra não line­ar com dife­ren­tes jane­las de infor­ma­ção é uma coi­sa com a qual todos nós esta­mos con­for­tá­veis hoje em dia, com as telas de com­pu­ta­dor. Além dis­so, acho que essa manei­ra não line­ar de con­tar uma his­tó­ria pode ser na ver­da­de mais pró­xi­ma do modo como todos nós pen­sa­mos. Estamos todos pulan­do de um lado para o outro no tem­po. Passamos nos­sos dias pro­je­tan­do o futu­ro, com pla­nos para fazer, ou lem­bran­do o que deve­ría­mos ter fala­do ou fei­to. Um ros­to na rua pode fazer com que você se lem­bre de alguém, uma músi­ca pode trans­por­tar você de vol­ta no tem­po, um chei­ro pode ati­var uma lem­bran­ça da sua infân­cia. Raramente esta­mos no momen­to, a não ser tal­vez quan­do o tele­fo­ne toca ou quan­do a cha­lei­ra api­ta.

A his­tó­ria se desen­vol­ve a par­tir da mes­ma pers­pec­ti­va, o can­to da casa de uma famí­lia. Você pode­ria falar um pou­co sobre o pro­ces­so de cri­a­ção do livro, espe­ci­al­men­te quan­do você pes­qui­sou sobre aspec­tos his­tó­ri­cos daque­le ter­re­no? Por que você esco­lheu aque­le pon­to de vis­ta espe­cí­fi­co?

Escolhi aque­le can­to ori­gi­nal­men­te por­que pen­sei na linha cor­tan­do o cen­tro como uma linha divi­só­ria, e achei que a his­tó­ria iria se desen­ro­lar para fren­te de um lado da linha, e para trás do outro. Isso foi bem no come­ço da ideia, em 1988. Um ami­go veio me visi­tar e me con­tou sobre o novo com­pu­ta­dor dele e o pro­gra­ma de “jane­las”, que era rela­ti­va­men­te novo naque­la épo­ca. Esse foi o gati­lho para a ideia de usar múl­ti­plos pla­nos de tem­po. Escrevi uma his­tó­ria cur­ta, de seis pági­nas, e foi a pri­mei­ra coi­sa que publi­quei, incluí­da na revis­ta Raw, de Art Spiegelman. Anos depois, achei que eu deve­ria ir mais fun­do e expan­dir aqui­lo para virar um livro. Em teo­ria, a ideia pode­ria se expan­dir ao infi­ni­to. O cômo­do na pri­mei­ra ver­são era um espa­ço mais gené­ri­co, e a his­tó­ria era mais um exer­cí­cio for­mal. Quando deci­di que usa­ria a casa onde cres­ci como loca­ção, virou uma his­tó­ria mais pes­so­al, cen­tra­da na minha famí­lia, que explo­de a par­tir daí. Bem do outro lado da rua, em fren­te à nos­sa casa, tinha uma cons­tru­ção his­tó­ri­ca. Quando cres­ci, ouvi dizer que Benjamin Franklin tinha mora­do lá, mas na minha pes­qui­sa des­co­bri que na ver­da­de era seu filho. Li a cor­res­pon­dên­cia entre os dois, e basi­ca­men­te eles esta­vam dis­cu­tin­do sobre a futu­ra revo­lu­ção, em lados opos­tos, pois seu filho era leal ao rei da Inglaterra. Benjamin Franklin pre­ci­sa­va cru­zar minha sala de estar para visi­tar seu filho e ten­tar fazer com que ele mudas­se de ideia. Ele ten­ta­va con­ven­cê-lo de que esta­va no lado erra­do da his­tó­ria. Aquela seria a últi­ma vez que eles se veri­am, ele even­tu­al­men­te foi deti­do e pre­so. Foi incrí­vel des­co­brir isso, é um micro­cos­mo das ori­gens do país. Era tão incrí­vel que fiquei com medo de que aqui­lo domi­nas­se as outras his­tó­ri­as, eu pre­ci­sa­va bai­xar o tom. No livro, tam­bém há uma cena em que minha mãe rece­be um gru­po de antro­po­lo­gis­tas que per­gun­tam se ela dei­xa­ria que esca­vas­sem o jar­dim, isso real­men­te acon­te­ceu. Eles esta­vam con­ven­ci­dos de que ali pos­si­vel­men­te teria sido um impor­tan­te cemi­té­rio dos Lenape, tri­bo de povos nati­vos dos que viveu lá. Ela não quis. Nunca mais olhei para o meu jar­dim do mes­mo jei­to.

Num pla­no pes­so­al, seus pais vive­ram naque­la casa por cin­quen­ta anos. Quando você ven­deu a casa, depois que eles mor­re­ram, o pro­ces­so todo – vol­tar para onde você cres­ceu, o luto, olhar as suas fotos de infân­cia e, depois, cri­ar um livro em que a casa é a pro­ta­go­nis­ta – foi mui­to catár­ti­co?

Foi mui­to catár­ti­co pas­sar um tem­po exa­mi­nan­do a vida que se desen­vol­veu ali. Tantas memó­ri­as vol­ta­ram enquan­to emba­lá­va­mos as coi­sas na casa, meus pais guar­da­vam tudo! Ao ana­li­sar as fotos, pude olhar para eles como indi­ví­du­os. Pude vê-los cres­cer, vi-os posan­do com outros namo­ra­dos antes que eles even­tu­al­men­te se conhe­ces­sem, casas­sem e tives­sem filhos. Meu pai tira­va fotos da gen­te todo ano na mes­ma loca­ção. Acho que essa série tam­bém foi uma semen­te impor­tan­te para o pro­je­to, era uma inter­se­ção entre tem­po e espa­ço! Incorporei algu­mas delas na sequên­cia do livro. A casa em si vai e vol­ta na his­tó­ria, eu que­ria que a his­tó­ria fos­se mai­or que a casa, mai­or que a cida­de. O mun­do em si é vis­to sen­do for­ma­do em um pon­to, e o fim do mun­do é men­ci­o­na­do na TV num docu­men­tá­rio cien­tí­fi­co, quan­do o sol pro­va­vel­men­te vai engo­lir a Terra. A ideia de que tudo é imper­ma­nen­te, de que as nos­sas vidas são todas mui­to cur­tas e de que é impor­tan­te apro­vei­tar o momen­to – o livro é, em últi­ma ins­tân­cia, sobre isso.

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