Turistas experientes navegando pela literatura brasileira

IMS na FLIP

03.07.15

O IMS abriu as por­tas de sua casa na FLIP ontem, uma quin­ta-fei­ra nubla­da, com as ruas de Paraty já lota­das de lei­to­res. Na casa, a expo­si­ção de Maureen Bisilliat mos­tra­va uma recons­tru­ção foto­grá­fi­ca da via­gem empre­en­di­da por Mário de Andrade, home­na­ge­a­do da Festa, em O turis­ta apren­diz. Como em outros anos, o IMS con­tou com a pre­sen­ça de con­vi­da­dos da pro­gra­ma­ção ofi­ci­al para deba­te­rem acer­ca de seus livros e per­so­na­gens favo­ri­tos em bate-papos gra­va­dos na Rádio Batuta.

A série de con­ver­sas come­çou às 17h, com o poe­ta e pro­fes­sor Eucanaã Ferraz falan­do de sua gran­de pai­xão, Carlos Drummond de Andrade, em mesa medi­a­da por Samuel Titan Jr. (cli­que aqui para escu­tar). Eucanaã esco­lheu espe­ci­fi­ca­men­te A rosa do povo, que con­si­de­ra “o melhor de toda a poe­sia bra­si­lei­ra”, e bus­cou dis­se­car as inqui­e­tu­des que Drummond colo­cou no papel, reve­lan­do ao públi­co um poe­ta que “não con­si­de­ra pos­sí­vel estar feliz, e quan­do está feliz, isso se trans­for­ma em um sen­ti­men­to de cul­pa”.

Eucanaã Ferraz e Samuel Titan Jr. em conversa sobre Carlos Drummond de Andrade

A rosa do povo tem uma face­ta cole­ti­va, soci­al, que ten­ta lidar jus­ta­men­te com essa sen­sa­ção de cul­pa que per­meia a obra do poe­ta, o que não sig­ni­fi­ca que o livro é facil­men­te rotu­lá­vel. Além dis­so, o livro de Drummond se reve­la um mar de con­tra­di­ções, a come­çar pelos dois pri­mei­ros poe­mas (“Consideração do poe­ma” e “Procura da poe­sia”), que ser­vem de pre­fá­cio, e que pare­cem indi­car duas manei­ras mui­to dife­ren­tes do fazer poé­ti­co: “Os  [dois] poe­mas se negam. Ele não opta por uma linha”, dis­se Eucanaã. Ou seja: esta­mos dian­te de um livro mui­to mais pro­ble­má­ti­co do que os lei­to­res às vezes fazem pare­cer. Drummond faz um poe­ma liga­do ao mun­do, mas pare­ce cons­ci­en­te de que não é capaz de mudá-lo, e osci­la entre apos­ta e des­con­fi­an­ça nes­se pro­je­to lite­rá­rio.

Quando per­gun­ta­do por Samuel Titan sobre as bali­zas de A rosa do povo, Eucanaã encan­tou a pla­teia com uma lei­tu­ra de “Elefante”. Por pedi­do do públi­co, encer­rou a fala com a lei­tu­ra de outros três poe­mas, que jus­ta­men­te mos­tram como o livro é mul­ti­fa­ce­ta­do.

O segun­do con­vi­da­do do dia foi o gran­de pes­qui­sa­dor musi­cal e crí­ti­co José Ramos Tinhorão, cujo acer­vo é guar­da­do pelo IMS. Em con­ver­sa (cli­que aqui para escu­tar) tam­bém medi­a­da por Samuel Titan Jr., ele falou da obra de Eça de Queirós e a de Aluísio Azevedo. “Eça tal­vez tenha sido mais estu­da­do no Brasil que em Portugal. Os por­tu­gue­ses tinham uma impli­cân­cia com o autor. Embora de esti­lo afran­ce­sa­do, os livros de Eça são abso­lu­ta­men­te por­tu­gue­ses”, come­çou Tinhorão, ao falar da ale­gria de sua relei­tu­ra de A capi­tal.

Maureen Bisilliat bate um papo com José Ramos Tinhorão antes da fala de Tinhorão sobre Eça de Queirós e Aluísio Azevedo

O crí­ti­co tra­çou diver­sos para­le­los entre a obra do por­tu­guês e Aluísio Azevedo, que pare­cem ser igno­ra­dos pelos bió­gra­fos. Os dois têm uma gran­de seme­lhan­ça de car­rei­ra nos aspec­tos mais mun­da­nos: são pro­vin­ci­a­nos, exer­cem car­rei­ra diplo­má­ti­ca. Além dis­so, ambos come­ça­ram a escre­ver em folhe­tins para jor­nal, o que era finan­cei­ra­men­te mui­to mais van­ta­jo­so para o autor, além de faci­li­tar na hora de publi­car em for­ma­to de livro a his­tó­ria. E, na car­rei­ra diplo­má­ti­ca, ambos escre­vem fora de seus paí­ses natais, per­cor­ren­do o mun­do, mas se man­tém pro­fun­da­men­te liga­dos à sua ter­ra: “Eça é mui­to por­tu­guês, e Aluísio, mais do que bra­si­lei­ro, é regi­o­nal”, argu­men­tou Tinhorão.

A últi­ma con­vi­da­da da noi­te foi a fotó­gra­fa Maureen Bisilliat, que con­tou a Marília Scalzo (cli­que aqui para escu­tar) sobre o pro­je­to de recri­ar foto­gra­fi­ca­men­te o tra­je­to de Mário de Andrade em O turis­ta apren­diz (Belém – Manaus, Manaus – Porto Velho). “Mário tem um humor feroz”, comen­tou Maureen, que escre­veu um diá­rio duran­te a via­gem que dia­lo­ga com a obra do autor bra­si­lei­ro. A fotó­gra­fa lem­brou que o pró­prio Mário tinha fei­to fotos na sua via­gem, que lidam com a pre­ca­ri­e­da­de e pare­cem avant-gar­de.

Maureen Bisilliat e Marília Scalzo na gravação do programa da Rádio Batuta

Relembrando o iní­cio de sua pró­pria car­rei­ra, Maureen con­tou de seu tra­ba­lho como foto­jor­na­lis­ta, e exal­tou uma épo­ca per­di­da, da revis­ta Cruzeiro, onde havia uma pre­o­cu­pa­ção artís­ti­ca mai­or com as ima­gens. Encerrando a con­ver­sa, a fotó­gra­fa con­tou uma ane­do­ta de um encon­tro com Guimarães Rosa, que dis­se a Maureen que ela com­pre­en­de­ria a lin­gua­gem do ser­ta­ne­jo por ter san­gue irlan­dês. 

Público conversa no coquetel

Encerrando a pro­gra­ma­ção, o IMS cele­brou a aber­tu­ra ofi­ci­al da expo­si­ção e o lan­ça­men­to da revis­ta ser­ro­te #20 com um ani­ma­do coque­tel. 

, , ,