Um amor de vizinha e a morte da comédia romântica

No cinema

10.10.14

Você já viu esse fil­me, com dife­ren­tes rou­pa­gens, elen­cos e cená­ri­os: um homem e uma mulher, que de iní­cio se anti­pa­ti­zam e hos­ti­li­zam, pas­sam aos pou­cos à com­pre­en­são mútua e final­men­te ao amor. O pro­tó­ti­po do gêne­ro tal­vez seja Aconteceu naque­la noi­te (1934), de Frank Capra, mas cine­as­tas como Hawks, Cukor, Wilder e Woody Allen tam­bém emba­ra­lha­ram e reem­ba­ra­lha­ram as car­tas des­se jogo com enge­nho e arte.

Pois bem: Um amor de vizi­nha, de Rob Reiner, é o mais recen­te reben­to da linha­gem. Melhor seria dizer: é o ates­ta­do do seu esgo­ta­men­to. O fun­do do poço. Se Melhor é impos­sí­vel(1997), do mes­mo rotei­ris­ta (Mark Andrus), ain­da era uma dilui­ção acei­tá­vel do gêne­ro, o novo fil­me é a dilui­ção da dilui­ção, em que não sobrou uma úni­ca ideia ori­gi­nal, um úni­co momen­to de bri­lho.

Vamos a uma sinop­se, sem pre­o­cu­pa­ção de evi­tar spoi­lers, pois tudo é pre­vi­sí­vel des­de os cré­di­tos ini­ci­ais. O viú­vo sexa­ge­ná­rio Oren Little (Michael Douglas), soli­tá­rio e rabu­gen­to, rece­be a incum­bên­cia de cui­dar da filhi­nha de dez anos de seu filho desa­jus­ta­do quan­do este vai pas­sar um tem­po na cadeia. A prin­cí­pio Oren rejei­ta a meni­na e esta aca­ba sen­do aco­lhi­do pela vizi­nha Leah (Diane Keaton), igual­men­te ses­sen­to­na e viú­va, que ten­ta tar­di­a­men­te uma car­rei­ra de can­to­ra de bar.

Piloto auto­má­ti­co

Mas cal­ma: como que por obra de um apli­ca­ti­vo de com­pu­ta­dor, todos os atri­tos se ama­ci­am, todos os con­fli­tos se con­ver­tem em har­mo­nia: Oren reve­la-se um avô cari­nho­so, o filho des­gar­ra­do na ver­da­de era um homem ínte­gro acu­sa­do injus­ta­men­te, as far­pas entre os dois vete­ra­nos vizi­nhos tor­nam-se bei­jos e carí­ci­as. De que­bra, Oren ven­de sua casa por uma for­tu­na a um jovem casal sor­ri­den­te e Leah des­pon­ta para o suces­so como can­to­ra.

Claro que o final feliz faz par­te do gêne­ro, mas aqui é tudo tão frou­xo e sem ins­pi­ra­ção que a per­gun­ta que fica no ar ao fim da ses­são é: por que esse fil­me foi fei­to? Para cum­prir uma cota de comé­di­as dra­má­ti­cas com men­sa­gem edi­fi­can­te e ato­res famo­sos usan­do belas loca­ções no lito­ral da Nova Inglaterra? As pia­das são gas­tas, a decu­pa­gem é um enfa­do­nho campo/contracampo, os ato­res pare­cem agir no pilo­to auto­má­ti­co.

Uma úni­ca cena inte­res­san­te, pelo comen­tá­rio soci­o­cul­tu­ral embu­ti­do nela: Oren, ten­tan­do ven­der sua casa a um jovem afro-ame­ri­ca­no endi­nhei­ra­do, colo­ca a foto de outro negro ele­gan­te no por­ta-retra­tos casu­al­men­te colo­ca­do sobre uma cômo­da. Durante a visi­ta do poten­ci­al com­pra­dor, faz uma brin­ca­dei­ra sobre Sammy Davis Jr., mas o rapaz igno­ra quem seja e diz que pen­sou que a casa per­ten­ces­se a Common. “Quem?”, per­gun­ta Oren, reve­lan­do não saber que a foto no por­ta-retra­tos era do rap­per e ator Common.

Ideias como essa, que pulu­lam nos melho­res fil­mes des­sa ver­ten­te, pon­tu­an­do e api­men­tan­do o entre­cho român­ti­co, aqui são soter­ra­das pelo lugar-comum e pela indo­lên­cia cri­a­ti­va.

O peque­no fugi­ti­vo

Em con­tras­te com a fla­ci­dez de Um amor de vizi­nha, tudo é fres­cor e encan­ta­men­to em O peque­no fugi­ti­vo (1953), de Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin, que está em car­taz em São Paulo e logo deve seguir para outras cida­des bra­si­lei­ras. Narra-se ali, em pre­ci­sas ima­gens em pre­to e bran­co, um dia e meio na vida de Joey (Richie Andrusco), um meni­no que foge de casa para Coney Island ao pen­sar erra­da­men­te que matou por aci­den­te o irmão mais velho. 

Durante as horas que pas­sa na ilha, tra­fe­gan­do entre banhis­tas que abar­ro­tam a praia e visi­tan­tes do gran­de par­que de diver­sões local, Joey expe­ri­men­ta o ter­ror e a mara­vi­lha de toda uma vida: a neces­si­da­de de ganhar o sus­ten­to, o medo de ser pre­so, a ver­ti­gi­no­sa liber­da­de, o espan­to das des­co­ber­tas. Sem des­co­lar em nenhum momen­to do per­so­na­gem, o fil­me faz com que o espec­ta­dor tam­bém viva, ele pró­prio, toda essa gama de sen­sa­ções e per­cep­ções.

Trata-se de um fil­me úni­co em vári­os sen­ti­dos. Seus rea­li­za­do­res – o escri­tor Ray Ashley e os fotó­gra­fos Morris Engel e Ruth Orkin – pra­ti­ca­men­te não segui­ram car­rei­ra no cine­ma. O fil­me não teve her­dei­ros dire­tos, embo­ra tenha sido admi­ra­do por cine­as­tas inde­pen­den­tes de vári­as gera­ções, de John Cassavettes a Jim Jarmusch, pas­san­do por Martin Scorsese. Um “pon­to fora da cur­va” no cine­ma ame­ri­ca­no, com uma pega­da qua­se neor­re­a­lis­ta e uma sau­dá­vel auto­no­mia com rela­ção às con­ven­ções nar­ra­ti­vas hollywo­o­di­a­nas. Em suma, um fil­me que não se deve per­der.

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