Um animal grotesco

Música

27.06.12

Poucas ban­das de pop con­tem­po­râ­neo pas­sa­ram por tan­tas mudan­ças quan­to a ame­ri­ca­na Of Montreal — ou pelo menos do gêne­ro indie pop, um gêne­ro por si só inde­fi­ní­vel, pois o con­cei­to de inde­pen­den­te está em cons­tan­te movi­men­to, e Of Montreal é uma das pro­vas des­se movi­men­to.

O gru­po tem suas raí­zes fin­ca­das no Elephant 6, um cole­ti­vo sur­gi­do na cida­de de Athens, Geórgia, que pre­ga­va uma vol­ta aos méto­dos de gra­va­ção ses­sen­tis­tas dos Beach Boys da épo­ca dos dis­cos Pet Sounds e Smile. Desse meio, sur­gi­ram vári­as das ban­das mais impor­tan­tes da músi­ca “alter­na­ti­va”: Neutral Milk Hotel (que, após lan­çar o já canô­ni­co In the aero­pla­ne over the sea, desa­pa­re­ceu com­ple­ta­men­te, por lou­cu­ra do músi­co Jeff Mangum), The Apples in Stereo, e outras que rece­be­ram mui­to des­ta­que na épo­ca (isto é, em mea­dos dos anos 90) e depois caí­ram no ostra­cis­mo, como Beulah e Olivia Tremor Control. Psicodelia, fuzz, dis­tor­ção e bom humor: essas eram algu­mas das carac­te­rís­ti­cas dos gru­pos do Elephant 6.

Of Montreal não era exce­ção. Seus pri­mei­ros dis­cos pare­cem homenagens/sátiras ao som dos Beach Boys. O humor era oni­pre­sen­te: des­de um dis­co con­cei­to que con­ta uma his­tó­ria fic­tí­cia sobre Dustin Hoffman em uma banhei­ra até músi­cas sobre um filó­so­fo anão e uma frei­ra cheia de amor para dar. Tudo isso emba­la­do em um pop fofi­nho não tão dis­si­mi­lar de Belle & Sebastian.

http://www.youtube.com/watch?v=eyJVPx8tiiI

Em 2004, isso come­çou a mudar. Foi quan­do a ban­da lan­çou Satanic panic in the attic, dis­co que cau­sou fris­son na crí­ti­ca espe­ci­a­li­za­da que con­si­de­ra­va o cole­ti­vo Elephant 6 mor­to e enter­ra­do. A cha­ve para a res­sur­rei­ção de uma ban­da do movi­men­to tal­vez este­ja no fato de que foi a par­tir des­se álbum que Of Montreal come­çou a rom­per os dog­mas que defi­ni­am o que era uma ban­da de Elephant 6. Satanic panic come­ça de for­ma ambi­ci­o­sa, com uma peque­na tri­lo­gia sobre o uso de LSD: pri­mei­ro a ale­gria com os pri­mei­ros efei­tos (“Disconnect the dots”), depois o tran­se com­ple­to (“Lysergic Bliss”), e, por fim, uma ten­ta­ti­va deses­pe­ra­da de con­se­guir sair do esta­do alte­ra­do de cons­ci­ên­cia (“Will you come and fet­ch me”). No entan­to, a fai­xa que pode ser vis­ta como mais impor­tan­te para a evo­lu­ção da ban­da é “Rapture rapes the muses”. Nesta can­ção, Kevin Barnes e com­pa­nhia usam mais recur­sos ele­trô­ni­cos do que o nor­mal e enga­tam uma bati­da dan­çan­te. Não deu outra: virou hit nas pis­tas. Deve ter sido aí, espe­cu­lo, que Of Montreal notou que seu talen­to não era ape­nas para fazer pia­das com refe­rên­ci­as eru­di­tas em um som psi­co­dé­li­co.

A expe­ri­men­ta­ção com sons ele­trô­ni­cos se apro­fun­dou em The sun­lan­dic twins (2005) e o gru­po che­gou ao seu ápi­ce cri­a­ti­vo (de acor­do com mui­ta gen­te) no dis­co sub­se­quen­te, Hissing fau­na, are you the des­troyer (2007). Apesar de não aban­do­nar o humor e as refe­rên­ci­as (sim, sem­pre as refe­rên­ci­as — por bem ou por mal, Kevin Barnes é um entu­si­as­ta de name­drop­ping, a pon­to de você ficar espe­ran­do uma cita­ção a Wong Kar-Wai, Georges Bataille ou Camus), Hissing fau­na sur­giu como um álbum devas­ta­do­ra­men­te con­fes­si­o­nal. Problemas gra­ves no casa­men­to, a difi­cul­da­de de man­ter a mono­ga­mia, pro­ble­mas com anti­de­pres­si­vos (Nesta músi­ca ele afir­ma: “Chemicals / don’t stran­gle my pen” e “Come on moodshift / Shift back to good again”), abu­so de subs­tân­ci­as, cer­ta con­fu­são sexu­al, tudo isso está lá. É um álbum de angús­tia mas­cu­li­na, um pou­co ima­tu­ro, mas com­ple­ta­men­te deses­pe­ra­do. Um Pinkerton da nova déca­da, qui­çá.

http://www.youtube.com/watch?v=AAjwKiIqI7Q

Foi mais ou menos por essa épo­ca (OK, foi um pou­co antes) que os shows do Of Montreal pas­sa­ram a ficar real­men­te doi­dos. Não há outra expres­são ade­qua­da. Doidos. Dançarinos que tro­cam de figu­ri­nos esta­pa­fúr­di­os, mui­ta maqui­a­gem, homens ves­ti­dos de mulhe­res. Kevin Barnes de som­bra azul tocan­do nu no pal­co…

Todavia, des­de o divi­sor de águas Hissing fau­na, nada mais foi o mes­mo. Os dis­cos que vie­ram depois ten­ta­ram levar a expe­ri­men­ta­ção pop para outros luga­res — fler­tan­do com o funk e o soul — e os resul­ta­dos são diver­sos. A con­fu­são sexu­al se tor­nou o tema cen­tral quan­do Barnes dá voz ao per­so­na­gem Georgie Fruit — uma espé­cie de Ziggy Stardust de Barnes, isto é, uma per­so­na — que é um qua­ren­tão que pas­sou por vári­as mudan­ças de sexo… Poderia fun­ci­o­nar de for­ma incrí­vel, mas é pra­ti­ca­men­te con­sen­so entre a crí­ti­ca que nenhum dos dis­cos novos che­gou per­to de Hissing fau­na.

Mas então, como tudo isso se desen­ro­lou ontem, em São Paulo, quan­do a ban­da subiu ao pal­co do Cine Joia?

***

O show come­çou com a empol­gan­te “Suffer for fashi­on”, mas de um modo um pou­co esqui­si­to: pare­cia que a acús­ti­ca do lugar não com­bi­na­va para o tipo de som da ban­da. Tais pro­ble­mas desa­pa­re­ce­ram em segui­da. Especulo os moti­vos: a) ajei­ta­ram o som; b) a minha mudan­ça para mais per­to do pal­co melho­rou a audi­ção; c) parei de me impor­tar. Logo na segun­da can­ção (“The party is crashing us”), o públi­co come­çou a pular e a dan­çar de for­ma bas­tan­te rit­ma­da para uma mul­ti­dão.

Dois dan­ça­ri­nos ves­tin­do rou­pas que repre­sen­ta­vam sabe-se lá o quê entra­ram jogan­do balões para a pla­teia. A par­tir de então, foi só ale­gria. A ban­da emen­dou um hit após o outro, focan­do o reper­tó­rio na fase mais bem-suce­di­da da ban­da (Hissing fau­na e arre­do­res), igno­ran­do tan­to o últi­mo dis­co como os pri­mei­ros. Teve chu­va de papéis pica­dos, per­for­man­ces malu­cas por par­te dos dan­ça­ri­nos (que usa­vam cabe­ças de por­co, rou­pas meio mexi­ca­nas, entre outros figu­ri­nos), gui­tar­ris­ta se ati­ran­do na pla­teia…

Para ser sin­ce­ro, a par­te tea­tral pare­cia mui­to um dos clás­si­cos shows dos Dzi Croquettes. E não me impres­si­o­na­ria se Dzi Croquettes fos­se uma refe­rên­cia dire­ta de Of Montreal, afi­nal, o gru­po já se dis­se fã de Os Mutantes. Para sal­tar de Mutantes a Dzi Croquettes é um pas­so. Outra pos­sí­vel defi­ni­ção para a per­for­man­ce do gru­po ame­ri­ca­no é que pare­cia “um ani­ver­sá­rio de cri­an­ças no qual você toma um áci­do” (as aspas estão aí por­que rou­bei a defi­ni­ção fei­ta a um show dos Flaming Lips).

Nada do que acon­te­cia no pal­co fazia mui­to sen­ti­do. De cer­ta for­ma, mui­to da ico­no­gra­fia e das refe­rên­ci­as de Of Montreal não faz mui­to sen­ti­do, por mais que eles afir­mem que cada figu­ri­nha nas capas de seus álbuns tem um moti­vo para estar ali. O show do Of Montreal aca­ba se tor­nan­do uma cele­bra­ção do non­sen­se, do absur­do, e, por que não, da ale­gria de estar vivo. Se parar­mos para pen­sar fri­a­men­te, pode­mos cair no cho­rorô de que a ban­da repre­sen­ta o vazio do pós-moder­nis­mo. Todavia, a opi­nião unâ­ni­me das pes­so­as que assis­ti­ram ao show era de que não tinha como não sair radi­an­te do even­to.

E, ain­da assim, o pon­to alto do show (pelo menos para mim) foi a per­for­man­ce de “The past is a gro­tes­que ani­mal”, épi­co de 12 minu­tos que se encon­tra no cen­tro de Hissing fau­na. Ali está todo o deses­pe­ro con­ju­gal con­cen­tra­do em uma can­ção pop. Claro, com algu­mas pia­di­nhas e refe­rên­ci­as bas­tan­te gra­tui­tas a História do olho, do con­trá­rio não seria uma músi­ca do Of Montreal. Mas, ain­da assim, uma músi­ca con­fes­si­o­nal, român­ti­ca, daque­las de ras­gar o pei­to, arran­car o cora­ção e jogar no públi­co. A pla­téia urrou a letra intei­ra, e a per­for­man­ce esten­deu ain­da mais a músi­ca, que ter­mi­nou com mui­ta dis­tor­ção e micro­fo­nia. Uma alma cari­do­sa fil­mou tudo e botou no Youtube (o áudio não está bom, mas dá para ter uma ideia):

http://www.youtube.com/watch?v=VqD46n8u2ww

Of Montreal pode ser leva­do tan­to a sério como na brin­ca­dei­ra. Ontem, no Cine Joia, eles mos­tra­ram os dois lados. Até ago­ra, não sou­be de nin­guém que recla­mou.

* Antônio Xerxenesky é reda­tor do site do IMS.

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