Um arquivo descoberto

Literatura

21.06.11

Poucos ima­gi­nam as con­tra­di­ções que a fal­sa pla­ci­dez de um arqui­vo lite­rá­rio enco­bre. Estantes que des­li­zam sobre tri­lhos a um giro rápi­do de mani­ve­la não dei­xam sen­tir, à dis­tân­cia, a resis­tên­cia de vidas que os obi­tuá­ri­os há mui­to regis­tra­ram como fin­das.

De lon­ge, não se pode ouvir a voz indig­na­da de Otto Lara Resende em car­ta de 1972 ao his­to­ri­a­dor Francisco Iglésias. Às vés­pe­ras de se tor­nar cin­quen­tão, escre­via o jor­na­lis­ta e escri­tor a Iglésias: “Estou há meses han­té [1] pela ame­a­ça des­ses tre­men­dos 50 anos, que não vou fazer, mas que, espe­ro, não che­guem para me des­fa­zer”.

Mantidos a 19 graus, os arqui­vos dos vin­te e sete auto­res que inte­gram a Reserva Técnica Literária (RTL) do Instituto Moreira Salles (IMS), entre os quais Otto e Iglésias, jazem em cai­xas de car­tão pH neu­tro que se sobre­põem nas pra­te­lei­ras dos módu­los des­li­zan­tes de dez metros de com­pri­men­to.

Ao andar pelos cor­re­do­res que os sepa­ram, pene­tra-se no mun­do dos cha­ma­dos titu­la­res. Diante das pra­te­lei­ras, não há como evi­tar a sen­sa­ção de entrar em suas casas sem pedir licen­ça, devas­sar seus escri­tó­ri­os ou mes­mo aque­le can­ti­nho de gave­ta onde um autor regis­trou uma ideia ori­gi­nal, ano­tou uma incon­fi­dên­cia só por­que não que­ria esque­cê-la, selou uma pro­mes­sa ou arqui­vou um sonho.

Isso para ficar­mos na esfe­ra do pes­so­al. O que dizer dos pro­je­tos que não saí­ram do papel, como o cader­no em que Erico Verissimo esbo­çou um roman­ce, o últi­mo, que ele não che­gou a defi­nir se seria A hora do séti­mo anjo, O dia do séti­mo anjo ou ain­da A vez do séti­mo anjo?

A ideia do livro iné­di­to até hoje, com dese­nho e notas em inglês, como fazia o autor por gos­tar da con­ci­são da lín­gua de Shakespeare, tinha sur­gi­do antes de Incidente em Antares, que com­ple­ta 40 anos de publi­ca­ção nes­te 2011.

Mais nume­ro­sas, tal­vez, são as ano­ta­ções de Mario Quintana, para não sair­mos do Sul do Brasil. O poe­ta das Canções cole­ci­o­nou deze­nas de cader­nos em que fer­men­ta­vam os espan­to­sos afo­ris­mos depois reu­ni­dos em livros: “A lua caiu no chão” é ape­nas um deles, con­tra­ri­an­do as leis da físi­ca.

Essa lua de Quintana me traz de vol­ta a agi­ta­ção do meu jovem ami­go Gabriel. Ele está com 14 anos ago­ra e não pas­sa­va dos oito quan­do, num dos fins de sema­na em que che­ga­va à praia das Fontes, no Ceará, ven­do o mar ver­de e bri­lhan­te à sua direi­ta, pulou do ban­co tra­sei­ro do car­ro e gri­tou, numa deli­ci­o­sa mis­tu­ra de emo­ção: “Vovó, o mar está feliz!” Não duvi­do que o poe­ta sor­ris­se ao ouvir a excla­ma­ção, cer­ta­men­te inter­rom­pen­do uma bafo­ra­da de cigar­ro.

Um ver­da­dei­ro gen­tle­man com­pra sem­pre três exem­pla­res de cada livro — o pri­mei­ro para ele mes­mo, o segun­do para dar de pre­sen­te, e o últi­mo para guar­dar na estan­te” — escre­veu Quintana sob o núme­ro 457 de uma série que inti­tu­lou: “Coisas nume­ra­das de um a nove­cen­tos e noven­ta e nove”. Coisas, por­tan­to. Estranhamente, ele mes­mo não obser­vou a “coi­sa” 457 — é o que se cons­ta­ta na sua bibli­o­te­ca, onde se vê ape­nas um exem­plar de cada obra.

Se a Academia Brasileira de Letras lhe negou a imor­ta­li­da­de, o poe­ta arran­jou seu jei­to de per­ma­ne­cer, além, natu­ral­men­te, do lega­do de sua poe­sia: “Ainda vou ter a minha imor­ta­li­da­de­zi­nha”, cochi­cha­va ele, riso­nho, à sobri­nha, Helena, a quem con­fi­ou os papéis de que hoje se com­põe seu arqui­vo.

Mistérios

Teria Erico Verissimo algu­ma vez ima­gi­na­do que no arqui­vo vizi­nho ao seu as pala­vras de Otto Lara Resende, em car­ta de 1o de junho de 1959 a Fernando Sabino rever­be­ra­ri­am: “Não tenho a menor von­ta­de de escre­ver um roman­ce. Romance é do Erico (posi­ti­va­men­te, já escre­vi para o Castello que ele, o Erico, não o Castelete, é o mai­or roman­cis­ta bra­si­lei­ro)”?

Carlos Castello Branco lan­ça­ra, naque­le mes­mo ano, o roman­ce Arco de triun­fo, e Otto, con­tra­ri­a­men­te ao que afir­mou na car­ta a Sabino, escre­ve­ria O bra­ço direi­to, roman­ce publi­ca­do em 1963, do qual dei­xou pelo menos qua­tro ver­sões, con­ser­va­das em seu arqui­vo.

É curi­o­so que no capí­tu­lo 22 des­se livro de Otto, a per­so­na­gem prin­ci­pal, o ins­pe­tor de órfãos do Asilo da Misericórdia, faz a seguin­te refle­xão:

O fato é que tudo se sabe nes­te mun­do. Tudo aca­ba por ser des­co­ber­to. Todo peca­do, leve ou gra­ve que seja, se denun­cia, se expan­de, por mais que o peca­dor se esfor­ce por ocul­tá-lo. Não adi­an­ta fechar as por­tas e as jane­las para evi­tar que se publi­que uma má ação. Ela exa­la como que um odor sutil que esca­pa por gre­tas que nun­ca se obtu­ram com­ple­ta­men­te. Mesmo os pen­sa­men­tos mais ínti­mos, mais secre­tos, serão um dia devas­sa­dos e conhe­ci­dos, expos­tos à curi­o­si­da­de públi­ca como outro dia está­va­mos, os órfãos e eu, expos­tos na asso­ci­a­ção das Filhas de Maria. O Juízo Final come­ça aqui nes­te mun­do — e esta ideia me arre­pia a alma e o cor­po, me põe cala­fri­os de hor­ror.

Uma car­ta que o cri­a­dor do roman­ce escre­veu a Fernando Sabino em 1957 mos­tra que per­so­na­gem e autor com­par­ti­lham o receio dos jul­ga­men­tos: “Sou um jor­na­lis­ta con­de­na­do a só con­si­de­rar impor­tan­te a mor­te e o que virá depois — o jul­ga­men­to! O res­to não tem impor­tân­cia, isto é, só tem impor­tân­cia enquan­to se refle­te aí, nes­se capí­tu­lo final”.

Não era bem assim. Em uma das 191 car­tas que envi­ou a Iglésias, Otto se mos­trou pre­o­cu­pa­do com o des­ti­no de seu arqui­vo. Um ano antes de mor­rer, pro­me­tia ao ami­go “dar um jei­to” no seu “pape­ló­rio”: “Eu não tenho impor­tân­cia para que guar­dem os meus papéis”, jus­ti­fi­ca­va.

Menos que impor­tân­cia, Otto temia a expo­si­ção daque­las con­fi­dên­ci­as que só se fazem ao ami­go espe­ci­al. Não que neces­sa­ri­a­men­te con­te­nham segre­dos com­pro­me­te­do­res. Antes, tra­du­zem aque­les esta­dos d’alma agu­dos, aque­les momen­tos em que o reme­ten­te se des­pe de qual­quer vai­da­de e ali, no papel, se expõe na sua mais per­fei­ta intei­re­za.

Uma cor­res­pon­dên­cia sem­pre guar­da­rá mis­té­ri­os, mes­mo os mais puros, que se ins­ta­lam numa dedi­ca­tó­ria, às vezes. Ou numa for­ma de tra­ta­men­to. Não se sabe se algu­ma vez Otto Lara Resende dei­xou de sor­rir, com ter­nu­ra, quan­do lia as ini­ci­ais V. C. no topo da pági­na de uma car­ta que rece­bia da filha, Heleninha. Pois era esse o modo cari­nho­so com que Helena Cristina Pinheiro Lara Resende, a caçu­la, irre­ve­ren­te até hoje, se diri­gia ao pai: Velho Careca.

Quantas vezes terá ele expe­ri­men­ta­do uma exten­são de sua pater­ni­da­de ao ser tra­ta­do por “Pajé” pelos três minei­ros que com ele for­ma­ram um len­dá­rio quar­te­to? A esses Otto escre­via com fide­li­da­de reli­gi­o­sa — sofria de “cocaí­na pos­tal”, dizia. Nas car­tas, se aban­do­na­va a refle­xões, à expo­si­ção de con­fli­tos, temo­res, mas sem­pre com humor, mui­to humor.

É assim que pul­sa a vida num arqui­vo: os gran­des medos, as ter­nu­ras pro­fun­das, per­ple­xi­da­des, as mai­o­res ale­gri­as e não meno­res frus­tra­ções sal­tam de cada pági­na manus­cri­ta, de cada car­ta em que, pal­pi­tan­te, uma letra fir­me ou ner­vo­sa rea­ni­ma o autor, devol­ven­do-lhe os tra­ços fir­mes da per­so­na­li­da­de.

Que lei­tor não é toma­do por uma cer­ta volú­pia ao par­ti­lhar de uma con­fis­são diri­gi­da a um des­co­nhe­ci­do de quem ele, lei­tor, pas­sa a ser cúm­pli­ce? É essa vio­la­ção, legi­ti­ma­da, que pos­si­bi­li­ta ao pes­qui­sa­dor fazer acha­dos impor­tan­tes. Achados que tra­zem solu­ções ou, algu­mas vezes, pro­vo­cam mais mis­té­ri­os. Exemplo dis­so está na par­te do peque­no, mas rico, con­jun­to de Clarice Lispector, em que se encon­tra um guar­da­na­po de papel com o dese­nho de sua boca gra­va­do em batom ver­me­lho.

Quem sabe inves­ti­ga­ções futu­ras dirão se se tra­ta de um bei­jo impres­so (e para quem) ou de uma sim­ples pro­va de batom?

Acontece de, em alguns momen­tos, nem mes­mo ser neces­sá­rio se abrir uma pas­ta ou uma cai­xa para se encon­trar o escri­tor: as eti­que­tas que indi­cam o “mora­dor” de cada estan­te podem cau­sar sus­tos. Foi assim outro dia, quan­do levei um visi­tan­te espe­ci­al para conhe­cer a área de guar­da, onde os nomes de Francisco Iglésias, Otto Lara Resende e Paulo Autran se apro­xi­mam nas indi­ca­ções no alto dos módu­los. O visi­tan­te sor­riu para espan­tar a emo­ção e, entre desa­pon­ta­do e ner­vo­so, gague­jou: “Pôxa, são meus ami­gos!” Não esta­va pre­pa­ra­do para o cho­que. Talvez qui­ses­se dizer: “Não espe­ra­va encon­trá-los aqui, estra­nha­men­te vivos”.

Os qua­tro minei­ros

Drummond já ima­gi­na­ra a vida que renas­ce em estan­tes. No poe­ma “Natal na bibli­o­te­ca de Plinio Doyle”, de 1972, se diver­te com “um rumor de vozes dia­lo­gan­tes” entre José de Alencar, Machado de Assis e outros. Imagine-se, então, num arqui­vo, o vigor dos diá­lo­gos epis­to­la­res, manus­cri­tos, em pra­te­lei­ras vizi­nhas, para os quais Otto Lara Resende con­tri­buiu com mais de sete mil car­tas, entre as que rece­beu e cópi­as das que envi­ou. Desse modo, seu sofri­men­to pela per­da de Erico Verissimo ecoa no arqui­vo do escri­tor gaú­cho, na car­ta que escre­veu à viú­va, Mafalda.

Otto, que tan­tas vezes ame­a­çou se des­fa­zer do “pape­ló­rio”, feliz­men­te o guar­dou, e mui­to bem guar­da­do. Se havia algum dado obs­cu­ro em uma car­ta, fazia ano­ta­ção na mar­gem, de modo a escla­re­cer a dúvi­da ou acres­cen­tar uma infor­ma­ção. E é gra­ças a esses cui­da­dos seus que hoje se pode recons­ti­tuir boa par­te da tra­je­tó­ria do quar­te­to minei­ro que ele inte­grou ao lado de Paulo Mendes Campos (PMC), Fernando Sabino (FS) e Hélio Pellegrino (HP) e que em algum momen­to foi cha­ma­do de “Os 4 mos­que­tei­ros”. Otto, aliás, não gos­ta­va do rótu­lo. Um ano antes de sua mor­te, ocor­ri­da em 28 de dezem­bro de 1992, mos­tra­va indig­na­ção a Iglésias:

Tenho hor­ror a essa his­tó­ria dos “4”, mos­que­tei­ros então! Burrice. No momen­to em q esta­va na casa do pmc, ele recém-mor­to (todo mor­to é antiquís­si­mo), uma repór­ter dis­se essa his­tó­ria dos “4” a alguns pas­sos de mim e eu, qua­se gros­sei­ro, gri­tei: “Isso é fol­clo­re! Não empo­bre­ça o Paulo, nem os ami­gos dele!” Mas não adi­an­ta. O cli­chê pegou. Reagi con­tra, rea­jo há anos, até me recu­san­do a com­pa­re­cer, por ex., a BH no últi­mo ani­ver­sá­rio da cida­de a que o Hélio foi com o FS”. […] Me arre­pen­di daque­le dis­co dos “4”, que nas­ceu de uma ideia com­ple­ta­men­te ino­cen­te — e minha. Já con­tei, não? Um dia con­to. Da ida à gra­va­do­ra, para uma brin­ca­dei­ra incon­se­quen­te, saiu o dis­co, que aca­bou lan­ça­do no Rio e em SP, com galas de fes­ta, por­que inte­res­sa­va à gra­va­do­ra fazer uma onda “cul­tu­ral”. O FS não que­ria gra­var, até que enten­deu que podia ser inte­res­san­te e entrou no tra­di­ci­o­nal mar­ke­ting. Enfim, deu pelo menos umas boas horas de con­ví­vio com pmc, que já anda­va aris­co, e com o hp, que nun­ca via­ja­va com a gen­te. […] Enfim, não adi­an­ta recla­mar. O tem­po apa­ga isto e o mais.

Espera-se que o tem­po não apa­gue os dois ele­pês, inti­tu­la­dos “Os 4 minei­ros”, lan­ça­dos pela Som Livre em 1981, con­ten­do em cada lado uma peque­na apre­sen­ta­ção de cada um dos inte­gran­tes do gru­po, segui­da de lei­tu­ra de um tre­cho das res­pec­ti­vas obras. Não apa­ga­rá, é cer­to, a coe­são que se fir­mou entre esses ami­gos des­de 1945, ano em que Paulo Mendes Campos, em car­ta a Otto de 1o de dezem­bro, defi­niu, com gra­ça:

Sem você somos fei­to uma cane­ta-tin­tei­ro sem tin­ta. “Tem cane­ta?” — “Tenho, mas sem tin­ta”. Assim como, sem o Hélio, somos um hos­pí­cio sem lou­cos. Sem o Fernando, somos um par­que de diver­sões sem roda-gigan­te. E, sem mim, sem mim vocês são um com­pên­dio sem pro­legô­me­nos e sem erra­tas. Repare que nos defi­ni num cír­cu­lo vici­o­so. Quem é Paulo Mendes Campos: — é um ami­go do Otto Lara Resende. — Quem é o Otto Lara Resende? — é um ami­go do depu­ta­do Hélio Pellegrino. Quem é o depu­ta­do Hélio Pellegrino? — é o depu­ta­do Hélio Pellegrino, ora essa! Digo: é o ami­go de Fernando Sabino. — Quem é o Fernando Sabino? É um per­so­na­gem à pro­cu­ra de Pirandello. — Quem é Pirandello? — é um ami­go de Paulo Mendes Campos. — E assim por dian­te. É ou não é?

Se a gen­te se sepa­rar aca­ba­rá sim­ples sujei­tos. — Quem é Otto Lara Resende? — é um sujei­to aí. Será melan­có­li­co, Pajé.

Paulo Mendes Campos mor­re­ria em 1o de julho de 1991, e Otto, ape­sar de apa­ren­tar entu­si­as­mo com a nova pro­du­ção de cro­nis­ta na Folha de S.Paulo, onde come­ça­ra em 1o de maio daque­le ano, desa­ba­fa­ria a Iglésias em 16 de outu­bro: “Não sei se estou cer­to, mas iden­ti­fi­co a minha depres­são agra­va­da a par­tir da mor­te do Paulo. Tenho tido mui­ta insô­nia e não acho gra­ça em nada”.

Não tinha sido menor a tris­te­za de que se toma­ra quan­do da mor­te de Hélio Pellegrino, em 23 de mar­ço de 1988, como con­fi­den­ci­ou a Iglésias, dois dias depois:

Você sabe como estou. Desatinado, des­tro­ça­do. Ainda sem acre­di­tar. Pesadelo. É pos­sí­vel que eu tenha sido, de todos, o ami­go que mais viu — e via — o Hélio. Nossos encon­tros, com raras exce­ções, eram diá­ri­os. Depois que estou com escri­tó­rio na Gávea, moran­do ele a um pas­so daqui, nos vía­mos todas as manhãs e nos revía­mos à noi­te com frequên­cia, quan­do ele vinha can­sa­do de Copacabana. E nos falá­va­mos com uma assi­dui­da­de tal­vez sem para­le­lo. Até nem sei onde ain­da bus­cá­va­mos pala­vras, ou o que dizer. […] Além da figu­ra públi­ca, do mili­tan­te, de todo um cer­to fol­clo­re, o Hélio tinha tam­bém mui­tos outros aspec­tos, entre os quais a gra­tui­da­de infan­til, um sen­so de humor e um his­tri­o­nis­mo incom­pa­rá­veis. […] Tínhamos, depois de tan­tos anos, uma recí­pro­ca e ins­tan­tâ­nea com­pre­en­são, que se fazia qua­se sem pala­vras, ou com pala­vras de pas­se que vimos espon­ta­ne­a­men­te cri­an­do ao lon­go de tan­to tem­po repar­ti­do a dois. […] Ao ver o Hélio mor­to, ain­da com as cores da vida, ao lhe pegar as mãos fle­xí­veis, ain­da quen­tes, ao tocar-lhe a tes­ta, tudo me pare­cia mais uma tro­ça do Hélio, que mais de uma vez figu­rou a pró­pria mor­te aqui mes­mo onde estou escre­ven­do. E me dizia, meio pilhe­ri­an­do, coi­sas que nem pos­so recor­dar. “Você vai sen­tir uma fal­ta físi­ca de mim” — me dis­se ele, já com pena do esta­do em que me encon­tro. E com­ple­tou: “Fico até com pena de mor­rer por sua cau­sa. Você vai no míni­mo ficar man­can­do” — e ia por aí afo­ra, num humor negro de ines­go­tá­vel inven­ti­vi­da­de. […] Nosso encon­tro foi ful­mi­nan­te­men­te fra­ter­nal, a par­tir do pri­mei­ro minu­to. E Você sabe que bri­gá­va­mos mui­to, com uma fran­que­za rude, às vezes a pon­to de cha­mar a aten­ção dos pas­san­tes na rua (quan­do era na rua) ou de come­ter alguns estra­gos em vol­ta. Nunca, mas nun­ca jamais mes­mo nos sepa­ra­mos um com mágoa do outro. E nun­ca dei­xa­mos de nos dizer bru­tal­men­te (tal­vez eu mais do que ele) o que pen­sá­va­mos. Li todos os tex­tos dele antes de serem publi­ca­dos. O que me toca­va nele era a fla­ma, aque­la coi­sa helip­pe­le­gri­nes­ca que roça­va o subli­me, o ridí­cu­lo, o como­ven­te, o engra­ça­do etc. etc. etc.

Otto Lara Resende foi um extra­or­di­ná­rio intér­pre­te das per­das irre­vo­gá­veis. Entregava-se à dor; não bus­ca­va con­so­lo. Se tives­se escri­to ver­sos, tal­vez inve­jas­se Manuel Bandeira, que, para mini­mi­zar a per­da do ami­go e com­po­si­tor de Azulão, escre­veu no poe­ma “Ovalle”: […] “Conversaremos longamente/ De sepul­tu­ra a sepultura/ No silên­cio das madrugadas/ Quando o orva­lho pin­gar sem ruído/ E o luar for uma coi­sa só”.

Tuberculoso devo­ta­do, Bandeira con­tou com a che­ga­da da “inde­se­ja­da das gen­tes” duran­te os seus 82 anos de vida. Preparou-se. Ouvia o tem­po, “segun­do por segundo,/ urdir a len­ta eter­ni­da­de”, como se lê no lapi­dar sone­to “Noturno do Morro do Encanto”. Não se dirá o mes­mo do Pajé e de Paulusca, como se tra­ta­vam Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, que, nem nas suas mai­o­res fan­ta­si­as devem ter se ima­gi­na­do vizi­nhos em um arqui­vo.

A dife­ren­ça é que o pri­mei­ro pro­me­tia mas não orga­ni­za­va o que ele cha­ma­va de seu “cafar­naum”, enquan­to Paulo Mendes Campos, com sua letra peque­na e apli­ca­da, orde­nou minu­ci­o­sa­men­te cader­nos de ano­ta­ções, estu­dos, poe­mas, etc. Todo esse mate­ri­al vem ago­ra para o Instituto Moreira Salles, segun­do con­tra­to pre­pa­ra­do no mês de feve­rei­ro, esse mês que Paulo repu­ta­va “tor­to e adoi­da­do”, “trun­ca­do e des­ti­tuí­do de bom-sen­so”. Na crô­ni­ca “Rio de feve­rei­ro”, ele garan­te:

Fevereiro é o sumo do Rio. O cari­o­ca fun­ci­o­na os nove meses efe­ti­vos, joga tudo para o alto em dezem­bro, põe-se em sos­se­go em janei­ro, para reflo­rir e dar tudo de si em feve­rei­ro. […] Março, não! Em mar­ço todo mun­do sabe que a vida civil, com­pro­me­ti­da e cha­ta, come­çou. Março é o fim.

Neste 2011, no entan­to, mar­ço indi­cou um come­ço. Depois de mais um dio­ni­sía­co feve­rei­ro, em que evo­luí­ram as nego­ci­a­ções de trans­fe­rên­cia do arqui­vo de Paulo Mendes Campos para o ims, foi em mar­ço que se fir­mou o con­tra­to. Paulo vem se jun­tar não só a Otto, o gran­de ami­go, mas a alguns de seus pares na crô­ni­ca, esse “gêne­ro anfí­bio” que, diria o poe­ta e ensaís­ta Lêdo Ivo, “per­ten­cen­do simul­ta­ne­a­men­te ao jor­na­lis­mo e à lite­ra­tu­ra, asse­gu­ra a noto­ri­e­da­de e garan­te o esque­ci­men­to”.

O arqui­vo de Lêdo Ivo, que tem far­ta cor­res­pon­dên­cia, tam­bém está na Reserva Técnica Literária do ims, onde já se reú­nem Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade. Não que as crô­ni­cas de Clarice este­jam no ims; per­ma­ne­cem no Arquivo-Museu de Literatura (amlb) da Fundação Casa de Rui Barbosa. Os ori­gi­nais dos roman­ces Um sopro de vida e A hora da estre­la, ao que pare­ce, os úni­cos manus­cri­tos cla­ri­ci­a­nos de que se tem notí­cia, é que estão sob a guar­da do ims.

De Drummond, o ims guar­da, des­de feve­rei­ro, a bibli­o­te­ca e alguns docu­men­tos pes­so­ais, con­jun­to que até aque­le mês era man­ti­do no apar­ta­men­to de Copacabana, onde o poe­ta morou, hoje ocu­pa­do pelo bis­ne­to, Miguel, de 4 anos, que, gene­ro­sa­men­te, cede espa­ço ao pai, Pedro Drummond.

Se Otto guar­dou desor­ga­ni­za­da­men­te seu “pape­ló­rio”, não se diz a mes­ma coi­sa de Drummond, que, como defi­ne o con­sul­tor de Literatura do ims, Eucanaã Ferraz, no pre­fá­cio de Biografia de um poe­ma, o poe­ta era um “buro­cra­ta apli­ca­do, paci­en­te, organizado”.[2] Imagina-se com que delei­te o autor de “No meio do cami­nho” fez uma ficha para cada um dos 4 mil livros de sua bibli­o­te­ca, indi­can­do, com cri­té­rio per­so­na­lís­si­mo, pra­te­lei­ra e estan­te de cada exem­plar. Dispensou o mes­mo cui­da­do às pas­tas em que con­ser­vou as car­tas da mãe, Julieta Augusta, e de alguns dos irmãos.

A pre­sen­ça de Drummond se evi­den­cia ain­da nas cari­ca­tu­ras que fez para Lygia Fagundes Telles; nos poe­mas que envi­ou a Décio de Almeida Prado, na admi­ra­ção que, por meio de car­tas, devo­ta­va ao eucli­di­a­no Olímpio de Sousa Andrade, todos esses titu­la­res da Reserva Técnica Literária, além de outros.

Na estan­te do edi­tor Maurício Rosenblatt, é pos­sí­vel degus­tar a pro­ver­bi­al aci­dez de Graciliano Ramos na dedi­ca­tó­ria da pri­mei­ra edi­ção de Insônia: “Aqui vão uns con­tos bem chin­frins”, escre­ve ao ami­go, que pare­ce ter leva­do a adver­tên­cia a sério: o exem­plar, de 1947, man­tém pági­nas que não foram aber­tas (cader­no fecha­do).

 

Por essa e por outras, é pre­ci­so entrar com res­pei­to no mun­do dos… vivos.

NOTAS

[1] Possuído (por uma ideia fixa).

[2] Andrade, Carlos Drummond de. Uma pedra no meio do cami­nho: bio­gra­fia de um poe­ma. (org. Eucanaã Ferraz). São Paulo, Instituto Moreira Salles, 2010, p. 13

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