Um corpo que sobe…

No cinema

10.08.12

…e um Kane que cai.

Causou cer­to alvo­ro­ço entre crí­ti­cos e ciné­fi­los a tro­ca de posi­ções no topo do ran­king mais pres­ti­gi­o­so e repre­sen­ta­ti­vo do cine­ma, o da revis­ta Sight and Sound, edi­ta­da pelo British Film Institute.

A enque­te, rea­li­za­da a cada dez anos des­de 1952, des­tro­nou Cidadão Kane (Orson Welles, 1941), o cam­peão abso­lu­to des­de 1962, e colo­cou em seu lugar Um cor­po que cai, ou Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958). Nesta edi­ção do ran­king, que será publi­ca­da na Sight and Sound de setem­bro, foram con­sul­ta­dos 846 crí­ti­cos, pro­gra­ma­do­res, estu­di­o­sos e dis­tri­bui­do­res de todo o mun­do. Veja aqui a lis­ta dos cin­quen­ta mais vota­dos.

A per­gun­ta que todos estão se fazen­do — “Por que Kane caiu?” — me pare­ce menos impor­tan­te do que duas outras: 1. Por que ele ficou meio sécu­lo no topo? 2. Por que jus­ta­men­te Vertigo o des­tro­nou?

Não bas­ta res­pon­der, em cada um dos casos: “Porque se tra­ta de uma obra-pri­ma”. Afinal, o cine­ma pro­du­ziu uma por­ção de obras-pri­mas ao lon­go do seu pri­mei­ro sécu­lo de exis­tên­cia, e só três, até ago­ra, ocu­pa­ram o pri­mei­ro lugar des­sa lis­ta (Ladrões de bici­cle­tas foi o cam­peão da pri­mei­ra edi­ção, de 1952).

O lon­go rei­na­do de Kane se deve, em pri­mei­ro lugar, evi­den­te­men­te, a suas imen­sas vir­tu­des, em espe­ci­al a suas mui­tas ino­va­ções nar­ra­ti­vas (estru­tu­ra des­con­tí­nua, fei­ta de flash­backs e flash­forwards, inser­ção de fal­sos docu­men­tá­ri­os, alter­nân­cia entre lon­gos pla­nos-sequên­cia e mon­ta­gem ver­ti­gi­no­sa de frag­men­tos), téc­ni­cas (o uso rei­te­ra­do do foco pro­fun­do, per­mi­tin­do que vári­os pla­nos con­vi­vam no mes­mo qua­dro, o recur­so à sobreim­pres­são den­tro de um mes­mo pla­no con­tí­nuo, os efei­tos sono­ros) e esti­lís­ti­cas (os abu­sa­dos plon­gées con­tre-plon­gées, os enqua­dra­men­tos oblí­quos, o uso qua­se expres­si­o­nis­ta da con­tra­luz e das som­bras).

Por toda essa exu­be­rân­cia cri­a­ti­va, que de algum modo sin­te­ti­za­va, con­tra­di­zia e supe­ra­va todo o cine­ma clás­si­co que veio antes dele, Cidadão Kane foi, nas pala­vras de Truffaut, o fil­me que mais ins­pi­rou voca­ções de cine­as­tas pelo mun­do afo­ra. . Neste cli­pe, alguns cine­as­tas, ato­res e crí­ti­cos lou­vam as vir­tu­des da obra, entre cenas mar­can­tes:

http://www.youtube.com/watch?v=IGUYOQUzrKU&feature=youtu.be

Mas des­con­fio que, a par des­se moti­vo, há tam­bém um cer­to fator iner­ci­al a jus­ti­fi­car a lon­ga per­ma­nên­cia do fil­me no alto do pódio. Durante meio sécu­lo, foi como se a dis­pu­ta fos­se ape­nas pelas outras colo­ca­ções, pois o pri­mei­ro lugar era cati­vo. Há uma cer­ta segu­ran­ça, um cer­to con­for­to, em refor­çar o câno­ne, como se isso nos garan­tis­se que o sol segui­rá nas­cen­do todos os dias.

O cará­ter revo­lu­ci­o­ná­rio de Kane tal­vez tenha se diluí­do ao lon­go das déca­das, na per­cep­ção das gera­ções mais novas de crí­ti­cos e ciné­fi­los. A gera­ção que rece­beu o mai­or impac­to está aca­ban­do. De lá para cá, as drás­ti­cas ino­va­ções do fil­me tor­na­ram-se moe­da cor­ren­te do bom cine­ma, ao mes­mo tem­po em que fica­ram mais estri­den­tes seus exces­sos esti­lís­ti­cos.

Desde o iní­cio hou­ve quem não gos­tas­se de Cidadão Kane. Ingmar Bergman, por exem­plo, nun­ca tole­rou as extra­va­gân­ci­as de Welles, que ele toma­va por exi­bi­ci­o­nis­mo vazio. E é bom lem­brar que, na pri­mei­ra enque­te da Sight and Sound, em 1952, o fil­me não apa­re­ce nem entre os dez mais vota­dos. O con­sen­so favo­rá­vel se for­mou um pou­co depois.

Jorge Luis Borges, que ain­da enxer­ga­va bas­tan­te bem em 1941, escre­veu uma crí­ti­ca memo­rá­vel no calor da hora (leia aqui), em que iden­ti­fi­ca­va dois argu­men­tos no fil­me: um, banal, era a bio­gra­fia excên­tri­ca do pro­ta­go­nis­ta; outro, “mui­to supe­ri­or”, era “a inves­ti­ga­ção da alma secre­ta de um homem, atra­vés das obras que cons­truiu, das pala­vras que pro­nun­ci­ou, dos des­ti­nos que des­truiu”. O escri­tor argen­ti­no con­cluía seu arti­go dizen­do que Kane “não é inte­li­gen­te, é geni­al: no sen­ti­do mais notur­no e mais ale­mão des­sa má pala­vra”.

Em suma, a sobe­ra­nia de Cidadão Kane nun­ca foi pro­pri­a­men­te unâ­ni­me, e nin­guém dis­se que seria eter­na.

Passemos então à segun­da ques­tão: “Por que Vertigo?”

Como já me esten­di demais, serei sucin­to: por­que é o fil­me mais apai­xo­na­do e vis­ce­ral de Hitchcock, ali­an­do sua habi­tu­al com­pe­tên­cia téc­ni­ca e inven­ti­vi­da­de nar­ra­ti­va a uma rique­za sin­gu­lar de observação/exploração dos des­vãos do dese­jo e do afe­to.

Hitchcock é um caso raro de artis­ta alta­men­te refi­na­do no uso cri­a­ti­vo de seus mei­os que, ao mes­mo tem­po, é capaz de entre­ter — e oca­si­o­nal­men­te como­ver — gran­des pla­tei­as. O senão que mui­tos crí­ti­cos — entre eles tal­vez o mai­or de todos, André Bazin — cos­tu­ma­vam apor ao cine­ma hit­ch­coc­ki­a­no era sua pre­ten­sa fri­e­za, sua mani­pu­la­ção enge­nho­sa e vazia de sen­ti­do huma­no. O pró­prio Truffaut, dis­cí­pu­lo e admi­ra­dor do mes­tre inglês (e tam­bém de Bazin, a pro­pó­si­to), dis­se cer­ta vez: “Jean Renoir ama o cine­ma e a vida; Hitchock ama só o cine­ma”.

Pois bem, essa é outra “ver­da­de” que vem sen­do con­tes­ta­da cada vez mais nas últi­mas déca­das. Filmes como A som­bra de uma dúvi­daA tor­tu­ra do silên­cio e O homem erra­do, para citar alguns, são ple­nos de huma­ni­da­de e páthosUm cor­po que cai, então, é um mer­gu­lho pro­fun­do em temas como a pai­xão, a per­da, a lou­cu­ra, a cul­pa, o luto.

É tam­bém, tal­vez, o fil­me mais “orgâ­ni­co” de Hitchcock, aque­le em que tudo — da estru­tu­ra do rela­to aos movi­men­tos de câme­ra — tem uma qua­li­da­de sinu­o­sa, espi­ral, con­ver­gin­do para a noção bási­ca de ver­ti­gem que uni­fi­ca e move o con­jun­to.

Descobri recen­te­men­te, gra­ças à indi­ca­ção da lei­to­ra e ami­ga Kiyoko Kohatsu, um tex­to inte­res­san­tís­si­mo sobre Vertigo, publi­ca­do em 1994 na revis­ta Positif pelo cine­as­ta fran­cês Chris Marker, mor­to no últi­mo dia 30. Marker pro­põe uma lei­tu­ra ousa­da do fil­me de Hitchcock: a de que toda a segun­da par­te do fil­me, depois da mor­te de Madeleine (Kim Novak), seria uma fan­ta­sia deli­ran­te do pro­ta­go­nis­ta, o dete­ti­ve apo­sen­ta­do Scottie Ferguson (James Stewart). Aqui, uma cena-cha­ve do fil­me, a pri­mei­ra vez que Scottie vê Madeleine. Segundo Marker, é o momen­to em que ele entra irre­ver­si­vel­men­te em ple­no vór­ti­ce:

http://www.youtube.com/watch?v=zZq1okVqbSw&feature=youtu.be

Concorde-se ou não com Marker, sua aná­li­se é bri­lhan­te e mere­ce ser conhe­ci­da. Aqui vai o link para o tex­to em inglês.

Parafraseando Borges, eu diria que Vertigo é geni­al no sen­ti­do lati­no e lumi­no­so da pala­vra genius, de acor­do com o Houaiss: “divin­da­de tute­lar; por­ção espi­ri­tu­al de cada um; gra­ça; ins­pi­ra­ção, talen­to”. Precisa mais?

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