Prisão de Sérgio Côrtes

Tânia Rêgo

Prisão de Sérgio Côrtes

Um estado que já nasceu doente

Política

19.04.17

Todas as vezes em que fala­va sobre a neces­si­da­de de tirar o esta­do do Rio de Janeiro da cri­se econô­mi­ca, o eco­no­mis­ta André Urani dizia: Precisamos sal­var o Rio por­que não que­ro ir morar em São Paulo. A bla­gue do íta­lo-ame­ri­ca­no nas­ci­do em Turim, que havia esco­lhi­do se tor­nar cari­o­ca, vinha de um oti­mis­mo desen­fre­a­do com o Rio de Janeiro, ape­sar das inú­me­ras evi­dên­ci­as de que não somos o esta­do do futu­ro, como ele gos­ta­ria, e pelo qual tra­ba­lhou em seus cur­tos e inten­sos 51 anos de vida. Somos mui­to mais mar­ca­dos pelo pas­sa­do do que gos­ta­ría­mos de reco­nhe­cer, não ape­nas pela eter­na difi­cul­da­de em supe­rar a per­da do esta­tu­to de Distrito Federal para Brasília, mas pelo apa­ga­men­to das razões his­tó­ri­cas da for­ma­ção do atu­al Estado do Rio.

Criado em 1975 a par­tir da fusão entre o esta­do da Guanabara e o anti­go esta­do do Rio de Janeiro – mar­ca­do por uma oli­gar­quia rural então deca­den­te –, o esta­do do Rio de Janeiro tal qual o conhe­ce­mos hoje é her­dei­ro dire­to da cor­te impe­ri­al, de seus des­ca­la­bros e exces­sos, que asso­lam os cofres públi­cos até hoje, como mos­tram os núme­ros da ope­ra­ção Fatura Exposta, res­pon­sá­vel por des­mon­tar um esque­ma de cor­rup­ção no INTO, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad. Tudo sob o coman­do do secre­tá­rio Sérgio Côrtes, o mes­mo que há 10 anos tomou pos­se pro­me­ten­do aca­bar com a cor­rup­ção na área da saú­de.

Detalhe da facha­da do INTO, no Rio de Janeiro (RJ)

Hospital de refe­rên­cia em trau­ma­to-orto­pe­dia, o INTO está ins­ta­la­do no núme­ro 500 da Avenida Brasil, no pré­dio onde fun­ci­o­nou e faliu o Jornal do Brasil. Quando foi cons­truí­do para sedi­ar o JB, o pré­dio sim­bo­li­za­va a pro­mes­sa de pujan­ça de uma das mui­tas ondas de reto­ma­da cuja inten­ção era sem­pre a de supe­rar a per­da de poder e recur­sos quan­do a Guanabara dei­xou de ser Distrito Federal. A este pro­je­to fal­ta­va sem­pre a con­tem­plar o res­tan­te do ter­ri­tó­rio, o cha­ma­do inte­ri­or, mar­ca­do por uma tra­di­ção rural e pro­vin­ci­a­na em nada pare­ci­da com a cul­tu­ra cos­mo­po­li­ta da ex-capi­tal. O pré­dio da Avenida Brasil 500 sedi­ou um gran­de jor­nal, mui­to antes que as cri­ses – do esta­do e da impren­sa – vies­sem a lhe trans­for­mar num edi­fí­cio-fan­tas­ma.

Quando o pré­dio come­çou a ser refor­ma­do para abri­gar o INTO, pare­cia ser enfim e mais uma vez a reto­ma­da econô­mi­ca, cul­tu­ral e polí­ti­ca, tan­to da cida­de quan­to do esta­do. Um dos alvos do des­vio de ver­bas eram as pró­te­ses, o que tor­na a cor­rup­ção na saú­de per­ver­sa de modo mui­to pecu­li­ar. Conforme rela­tou repor­ta­gem de O Dia , a espe­ra por uma pró­te­se para cirur­gia no INTO pode levar até 10 anos.

Próteses são defi­ni­das como dis­po­si­ti­vos implan­ta­dos no cor­po para res­tau­rar uma fun­ção com­pro­me­ti­da. Na tris­te his­tó­ria da der­ro­ca­da do esta­do do Rio de Janeiro, pare­ce que as pró­te­ses usa­das até aqui – con­si­de­ran­do como ori­gem a fusão impos­ta pela dita­du­ra mili­tar – foram de todo inú­teis. Foi por uma lei com­ple­men­tar – outro modo de dizer que foi por uma lei excep­ci­o­nal – que o gene­ral Ernesto Geisel uniu o esta­do da Guanabara ao esta­do do Rio de Janeiro, pou­co tem­po depois da inau­gu­ra­ção da pon­te Rio-Niterói. Entre as mui­tas crí­ti­cas à união entre os dois esta­dos, havia a per­cep­ção de que se tra­ta­va de uma ten­ta­ti­va de neu­tra­li­zar o cres­ci­men­to do MDB, opo­si­ção for­te na Guanabara, a ser esva­zi­a­do pelo poder polí­ti­co da Arena, majo­ri­tá­ria no anti­go esta­do do Rio.

A fusão seria uma espé­cie de pró­te­se, com a subs­ti­tui­ção de um esta­do de opo­si­ção, a Guanabara, por um esta­do do Rio que fun­ci­o­na­ria melhor segun­do os inte­res­ses da dita­du­ra mili­tar. Passados mais de 40 anos, cou­be ao PMDB do gover­na­dor Sergio Cabral a san­gria de 100 milhões de dóla­res dos cofres públi­cos, o que levou o esta­do a ter todas as suas fun­ções com­pro­me­ti­das. Desta vez não há pró­te­se, oti­mis­mo à ita­li­a­na ou pro­je­to de reto­ma­da econô­mi­ca que pare­ça poder nos sal­var.

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