O corpo e a paisagem

No cinema

29.04.16

Quase três anos depois de ser pre­mi­a­do no Festival de Brasília, che­ga final­men­te ao cir­cui­to exi­bi­dor o intri­gan­te Exilados do vul­cão, pri­mei­ro lon­ga de fic­ção de Paula Gaitán, que ante­ri­or­men­te rea­li­za­ra os ensai­os docu­men­tais Diário de Sintra (em tor­no dos últi­mos anos de Glauber Rocha), Vida (sobre a atriz Maria Gladys) e Agreste (sobre Marcélia Cartaxo).

Há algo de impal­pá­vel em Exilados do vul­cão, uma qua­li­da­de flui­da e ina­pre­en­sí­vel que se anun­cia em suas pri­mei­ras ima­gens: uma lon­ga pano­râ­mi­ca das mon­ta­nhas de Minas sob uma espes­sa névoa. É que a subs­tân­cia de que será fei­ta essa nar­ra­ti­va, con­for­me fica­mos saben­do pela lacô­ni­ca locu­ção em off, é a memó­ria, ou antes a ten­ta­ti­va de recons­tru­ção da memó­ria.

O que há de “obje­ti­vo”, como pon­to de par­ti­da, é um incên­dio em que se des­truiu qua­se tudo o que cons­ti­tuía a iden­ti­da­de e a his­tó­ria de um fotó­gra­fo (Vincenzo Amato). Sobraram um diá­rio e uma por­ção de fotos. É a par­tir des­ses pou­cos ves­tí­gi­os que a sua ama­da (Clara Choveaux) bus­ca­rá recons­truir a tra­je­tó­ria do desa­pa­re­ci­do (ou des­me­mo­ri­a­do?).

Arqueologia dos afe­tos

Ela, a mulher, se apro­xi­ma­rá então dos seres, luga­res e vivên­ci­as regis­tra­dos em pala­vra ou ima­gem pelo homem ama­do. No fil­me, essa bus­ca se dá tan­to no pre­sen­te como no pas­sa­do, tan­to no pla­no con­cre­to como no da ima­gi­na­ção, com uma des­con­cer­tan­te liber­da­de de cons­tru­ção.

Nessa arque­o­lo­gia dos afe­tos – em que não por aca­so são fre­quen­tes as refe­rên­ci­as à mine­ra­ção, à pros­pec­ção, à esca­va­ção – o enca­de­a­men­to das sequên­ci­as se dá menos por nexos nar­ra­ti­vos, con­se­cu­ti­vos, do que por asso­ci­a­ções plás­ti­cas e afe­ti­vas. Há uma poro­si­da­de per­ma­nen­te entre o mun­do inte­ri­or da pro­ta­go­nis­ta que bus­ca e o ter­ri­tó­rio por onde ela tran­si­ta.

É um “fil­me de cine­ma”, para usar a expres­são enga­no­sa­men­te tau­to­ló­gi­ca de Rogério Sganzerla, o que sig­ni­fi­ca que não é tea­tro nem lite­ra­tu­ra (embo­ra se nutra des­sas lin­gua­gens), é algo que só exis­te na tela e para a tela, em que a luz não ape­nas ilu­mi­na a cena, mas a cons­ti­tui. Um exem­plo elo­quen­te é a sequên­cia em que a pro­ta­go­nis­ta sur­pre­en­de o ama­do (ou assim ela­bo­ra em sua fan­ta­sia) com uma aman­te na sala escu­ra de reve­la­ção de fotos, sob a luz ver­me­lha. Em cho­que, ela recua para a som­bra, sua ima­gem vai se diluin­do, como numa pin­tu­ra esti­li­za­da, até se fun­dir no fun­do negro. É um pla­no cine­ma­to­grá­fi­co memo­rá­vel.

Há em Exilados do vul­cão uma poé­ti­ca dos espa­ços e dos des­lo­ca­men­tos que reme­te a Antonioni, ain­da que Tarkovski e Kiarostami sejam outras refe­rên­ci­as per­cep­tí­veis. Como em seus fil­mes ante­ri­o­res, Paula Gaitán pare­ce inte­res­sa­da no hia­to entre as coi­sas e a ima­gem das coi­sas. Sobre um hori­zon­te recor­ta­do de mon­ta­nhas, a mulher esten­de uma foto­gra­fia do mes­mo local. Diante do peda­ço de afres­co (Piero del­la Francesca) numa pare­de em ruí­nas, um jovem casal repro­duz com seus ges­tos a cena pin­ta­da.

Corpo e pai­sa­gem

Uma ope­ra­ção aná­lo­ga con­sis­te em fil­mar o cor­po huma­no como pai­sa­gem e a pai­sa­gem como cor­po huma­no, con­for­me se enfa­ti­za espe­ci­al­men­te em duas cenas: numa delas, mini­a­tu­ras de ani­mais são dis­pos­tas sobre um cor­po nu; na outra, os con­tor­nos de uma mulher dei­ta­da numa cama são como que mime­ti­za­dos pela linha das mon­ta­nhas no hori­zon­te, vis­tas ao fun­do por uma jane­la envi­dra­ça­da. Diga-se entre parên­te­ses que, a par da foto­gra­fia des­lum­bran­te de Inti Briones, a esco­lha das loca­ções é mui­to ins­pi­ra­da: pon­ti­lhões de fer­ro­via, cra­te­ras de mine­ra­ções extin­tas, vales bru­mo­sos, vidra­ça pano­râ­mi­ca que pai­ra à bei­ra da gran­de cida­de (Belo Horizonte) etc.

O movi­men­to de câme­ra que mais se repe­te no fil­me, qua­se como uma figu­ra de esti­lo, é a pano­râ­mi­ca que des­ven­da, pers­cru­ta e, não raro, sur­pre­en­de. Um exem­plo: numa das pri­mei­ras sequên­ci­as, o pro­ta­go­nis­ta está à bei­ra de uma enor­me cra­te­ra de mina, em cujo fun­do se for­mou um lago. Só per­to do final do fil­me uma pano­râ­mi­ca ini­ci­a­da nes­sa cra­te­ra reve­la­rá que ela está à bei­ra da cida­de e não na pai­sa­gem inós­pi­ta e lunar que tínha­mos sido leva­dos a ima­gi­nar.

Em Exilados do vul­cão tudo muda a par­tir de um movi­men­to do olhar ou de uma mudan­ça de luz. À flui­dez da pas­sa­gem entre pre­sen­te e pas­sa­do, fato e memó­ria, rea­li­da­de obje­ti­va e mun­do inte­ri­or, cor­res­pon­de a flui­dez do des­lo­ca­men­to da câme­ra pelos espa­ços – e a flui­dez do pró­prio espa­ço. Os esta­dos de tran­si­ção pre­do­mi­nam, até mes­mo entre os qua­tro ele­men­tos: a bru­ma (fusão de água e ar), a poei­ra (ar e ter­ra) e a fuma­ça (fogo e ar).

Exilados do vul­cão, em suma, é uma expe­ri­ên­cia sen­so­ri­al, uma via­gem dos sen­ti­dos e da ima­gi­na­ção. Quem esti­ver à pro­cu­ra de uma “his­tó­ria bem con­ta­da, com iní­cio, meio e fim” deve bus­car em outro lugar. Aqui é fil­me de cine­ma e não tem con­ver­sa.

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