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Literatura

19.07.12

A antro­pó­lo­ga nor­te-ame­ri­ca­na Amber Case afir­ma que já somos cibor­gues, e que nos­sos celu­la­res, tablets e com­pu­ta­do­res pes­so­ais, atu­am como cére­bros exter­nos e ban­cos de memó­ria. Alguém que, como eu, tra­ba­lha com iPho­ne, iPad, Kindle e note­bo­ok liga­dos ao mes­mo tem­po, em cima da mesa de tra­ba­lho, ao lado de pilhas de livros, não pode negar isso. Quando meu médi­co suge­riu o uso de subs­tân­ci­as quí­mi­cas para con­ter meu défi­cit de aten­ção, o que eu fiz? Espalhei minha aten­ção por tudo, me acei­tei como um gemi­ni­a­no dis­traí­do, e não me sin­to nem um pou­co cul­pa­do de come­çar a ler um tex­to no Kindle, olhar o face­bo­ok no iPad, retui­tar um link no iPho­ne e rir de um vídeo no note­bo­ok. Mas todos estes equi­pa­men­tos de nada valem sem con­teú­dos, e numa soci­e­da­de info­cra­ta como a nos­sa, ter aque­le link na hora cer­ta pode fazer a dife­ren­ça. Confesso que até já pen­sei em escre­ver as “Confissões de um come­dor de links”, mas sem­pre me dis­traio e aca­bo esque­cen­do da ideia. Uma coi­sa de que não esque­ci foi “A Vertigem das Listas”, do escri­tor Umberto Eco, que sus­ten­ta de modo prag­má­ti­co a neces­si­da­de de se cons­truí­rem lis­tas, pois elas aju­da­ram a mol­dar a soci­e­da­de como a conhe­ce­mos. “A lis­ta é a ori­gem da cul­tu­ra”, diz Eco, que vai além: “Nós tam­bém temos lis­tas total­men­te prá­ti­cas — lis­tas de com­pras, tes­ta­men­tos, car­dá­pi­os — que, a seu modo, tam­bém são con­quis­tas cul­tu­rais”.

Imbuído des­ta res­pon­sa­bi­li­da­de his­tó­ri­ca de lis­tar, peço licen­ça para enu­me­rar alguns links que acho essen­ci­ais. E divi­do a lis­ta por idi­o­mas (sons de vio­li­nos), com links em inglês, espa­nhol e por­tu­guês. E come­ce­mos com a lín­gua de Shakespeare, pas­san­do pela de Cervantes e fin­dan­do com a de Machado de Assis.

 

Meu rei­no, meu rei­no por um link!

E é da ter­ra de Shakespeare que sur­ge este por­tal mag­ní­fi­co e gra­tui­to, far­ta­men­te reche­a­do de idei­as, lite­ra­tu­ra, polí­ti­ca e cul­tu­ra: o LRB, que agre­ga os trin­ta anos da revis­ta London Review of Books. São 12.000 arti­gos, de mais de 2000 cola­bo­ra­do­res, como Edward Said e Hilary Mantel, den­tre outros. E vamos de Shakespeare para Beckett:  “A pie­ce of mono­lo­gue” é uma peça escri­ta em 1979 pelo irlan­dês, mas é tam­bém o nome de um dos blogs mais inte­res­san­tes da net.  A pie­ce of mono­lo­gue é o que se pode espe­rar de um espa­ço de cul­tu­ra nos dias de hoje, uma casa para a lite­ra­tu­ra, filo­so­fia, artes visu­ais, cine­ma e tea­tro. Falando em Beckett, duvi­do que vocês já tenham vis­to essas fotos do Beckett, com ares de Gabeira.

Já em List of note dá para fla­grar o Fitzgerald ensi­nan­do a fazer um san­duí­che, o Einstein pro­van­do que inte­li­gên­cia não é sinal de bom sen­so (ao pro­por con­di­ções bizar­ras para sua espo­sa) e Nora Ephron lis­tan­do o que ado­ra­ria per­der ou não na vida. Mas você não vai que­rer per­der o A Writer’s Ruminations, para espi­ar rumi­na­ções e docu­men­tos de Marguerite Duras, Sylvia Plath, Rilke, Virginia Woolf, Kafka e Margaret Atwood.

A UbuWeb, fun­da­da pelo poe­ta Kenneth Goldsmith, em 1996, ini­ci­ou como um depó­si­to de poe­sia visu­al, con­cre­ta e sono­ra, mas com o pas­sar do tem­po foi abar­can­do todas as for­mas de mani­fes­ta­ções cul­tu­rais. Abastecida com poe­sia, ima­gens, fil­mes e áudi­os, é  um delei­te para os apre­ci­a­do­res de coi­sas boas e raras (mui­to John Cage, Andy Warhol e Allen Ginsberg). Outro por­tal indis­pen­sá­vel é o Open Culture, com mate­ri­al de pri­mei­rís­si­ma: cen­te­nas de audi­o­bo­oks, fil­mes, ebo­oks e até cur­sos de idi­o­mas. Já a WORDS without BORDERS é uma revis­ta lite­rá­ria com um olhar glo­bal, de olho nas lite­ra­tu­ras de vári­os paí­ses, e na edi­ção des­te julho apre­sen­ta um dos­siê sobre lite­ra­tu­ra japo­ne­sa.

Ufa… E tem o 50 watts,  cheio de ilus­tra­ções e pro­je­tos grá­fi­cos de livros? E tam­bém gran­des revis­tas e jor­nais, que ali­men­tam seus con­teú­dos na rede, dia­ri­a­men­te, como o The Guardian, e sema­nal­men­te, como New Yorker. E a The Paris Review, conhe­ce? Garanto que sim, afi­nal, tem uma cace­ta­da de entre­vis­tas com escri­to­res do pri­mei­ro time.

Com uma veia mais pop, o nor­te-ame­ri­ca­no Flavorwire é mais demo­crá­ti­co, tam­bém entram qua­dri­nhos, gas­tro­no­mia, séri­es, design, tele­vi­são e músi­ca. O site é famo­so por suas lis­tas, geral­men­te polê­mi­cas, mas sem­pre diver­ti­das. Há lis­tas para todos os gos­tos, das dez bad girls da lite­ra­tu­ra às mais ori­gi­nais pis­tas de ska­te do pla­ne­ta.

Agora che­ga, Dom Quixote nos cha­ma!

Avante, Rocinante!

No pró­lo­go de “O últi­mo lei­tor”, Ricardo Piglia nos apre­sen­ta o fotó­gra­fo Russel, que escon­de em sua casa no bair­ro de Flores, em Buenos Aires, uma répli­ca da cida­de “numa esca­la tão redu­zi­da que pode­mos vê-la de uma só vez” e “toda a cida­de está ali, con­cen­tra­da em si mes­ma, redu­zi­da à sua essên­cia”. A cida­de de Russel pode ser uma metá­fo­ra da inter­net, pois acha­mos que ela está no nos­so com­pu­ta­dor, quan­do está em toda par­te, esta espé­cie de bume­ran­gue de movi­men­tos infi­ni­tos. E falan­do nis­so, o El Boomeran é uma cen­tral de blogs, que une deze­nas de jor­na­lis­tas e escri­to­res num só lugar (são todos cola­bo­ra­do­res do gru­po Prisa). Lá pode­mos espi­ar o que andam len­do e apron­tan­do gen­te talen­to­sa como Patricio Pron, Jorge Volpi e Edmundo Paz Soldán, por exem­plo. Aliás, tudo num só lugar é a pro­pos­ta do escri­tor Iván Thays, que faz um apa­nha­do dos prin­ci­pais jor­nais de lín­gua espa­nho­la do mun­do, e publi­ca no seu Moleskine Literario. Outro escri­tor, o argen­ti­no Andrés Neuman man­tém um espa­ço de “refle­xões dis­per­sas”, o Microrréplicas, e o espa­nhol Antonio Muñoz Molina dá uma ver­da­dei­ra aula de crô­ni­cas e peque­nos ensai­os no seu Escrito en un ins­tan­te. Outro espa­nhol, o Arturo Pérez-Reverte, com­par­ti­lha o pro­ces­so cri­a­ti­vo de seu últi­mo roman­ce em Anotaciones sobre una nove­la. Da Colômbia, uma vez por mês a revis­ta El Mal Pensante man­da sinais de fuma­ça, e é pos­sí­vel encon­trar des­de um tex­to do Charles Simic sobre a arte de ler no banhei­ro, até um Guillermo Martínez ner­vo­so, colo­can­do César Aira numa sinu­ca. A revis­ta mexi­ca­na Letras Libres tam­bém é garan­tia de qua­li­da­de: que tal ler o pre­mi­a­do Jonathan Littell numa via­gem ao cora­ção das tre­vas, em cida­des domi­na­das pelo trá­fi­co? Ou então uma entre­vis­ta com o escri­tor ale­mão Peter Stamm?

E todos os domin­gos, pon­tu­al­men­te às 18h, o jor­nal argen­ti­no Página 12 colo­ca no ar a ver­são digi­tal de um dos melho­res cader­nos de lite­ra­tu­ra da América do Sul, o Radar Libros. Outro argen­ti­no, o La Nación, tam­bém defen­de seu qui­nhão, e sol­ta toda sex­ta-fei­ra o vari­a­do ADN Cultura.

Mas para quem tem pres­sa, as atu­a­li­za­ções diá­ri­as no Cultura El País, do jor­nal espa­nhol El País, da Revista Ñ no argen­ti­no El Clarín, e o El Mundo Cultura do espa­nhol El Mundo, pas­sam o pano­ra­ma da cul­tu­ra de lín­gua his­pâ­ni­ca.

Duvido que Dom Quixote ou Sancho Pança sai­ri­am de casa, com tan­tos links assim, links capa­zes de levan­tar do cai­xão até nos­so que­ri­do ami­go Brás Cubas, não é, meu caro Machado de Assis?

Enfim, Brasil

Que Stendhal con­fes­sas­se haver escri­to um de seus livros para cem lei­to­res, coi­sa é que admi­ra e cons­ter­na. O que não admi­ra, nem pro­va­vel­men­te cons­ter­na­rá é se este outro livro não tiver os cem lei­to­res de Stendhal, nem cin­quen­ta, nem vin­te e, quan­do mui­to, dez. Dez? Talvez cin­co.”

Assim rumi­nou nos­so Brás Cubas, sem ima­gi­nar que no ano de 2012 mais de 80 milhões de bra­si­lei­ros visi­ta­ri­am blogs cons­tan­te­men­te. Um mer­ca­do e tan­to,  com milha­res de blogs de qua­li­da­de, e alguns mui­to espe­ci­ais, como estes?

No Traduzir Fantasmas é pos­sí­vel con­fe­rir poe­si­as, con­tos e tre­chos de roman­ces, todos iné­di­tos no Brasil e tra­du­zi­dos pelo pro­fes­sor e tra­du­tor cea­ren­se Davi Pessoa, além de ensai­os sobre teo­ria da tra­du­ção.  Wilcock , Pasolini e Macedônio Fernández são pre­sen­ças cons­tan­tes no espa­ço.  Falando em tra­du­ção, o Não gos­to de plá­gio vai dire­to ao assun­to, e sem papas na lín­gua. É um dos espa­ços mais cora­jo­sos da web, denun­ci­an­do as pica­re­ta­gens de vári­as edi­to­ras, como frau­des de tra­du­ção, apro­pri­a­ção inde­vi­da de direi­tos auto­rais e cópi­as. O blog é abas­te­ci­do por Denise Bottman, que atua como tra­du­to­ra de inglês, fran­cês e ita­li­a­no des­de 1985. E um dos espa­ços mais ante­na­dos de poe­sia é a revis­ta  de poe­sia Modo de usar, edi­ta­da pelos(as) poe­tas Ricardo Domeneck, Angélica Freitas e Marília Garcia. E des­co­nhe­ci­dos do gran­de públi­co, como Alan Bigelow,  Bénédicte Houart, Vasko Popa e Lyn Hejinian, con­vi­vem har­mo­ni­o­sa­men­te  com Bertolt Brecht, Ezra Pound e Heinrich Heine.  É pos­sí­vel conhe­cer mais de uma cen­te­na de poe­tas, de todos os can­tos do glo­bo.

Outra revis­ta imper­dí­vel, gra­tui­ta e na rede, é a Sopro, edi­ta­da por Alexandre Nodari e Flávia Cera. A peque­na revis­ta, que se apre­sen­ta como “um pan­fle­to”, já che­gou ao núme­ro 73, com con­teú­dos tão diver­sos como Flávio de Carvalho, César Aira, Giorgio Agamben, Lúcio Cardoso, Emanuele Coccia e Juan José Saer, sem esque­cer dos bra­si­lei­ros con­tem­po­râ­ne­os, como Verônica Stigger e Ricardo Lísias. Um espa­ço inti­mis­ta é Um túnel no fim da luz , o blog do Kelvin Falcão Klein, um dos jovens rese­nhis­tas mais talen­to­sos do país, que com­par­ti­lha suas expe­ri­ên­ci­as de lei­tu­ra e crí­ti­ca, de for­ma cícli­ca e ale­a­tó­ria nes­te espa­ço real­men­te impres­si­o­nan­te.

Recomendo tam­bém A bibli­o­te­ca de Raquel da jor­na­lis­ta Raquel Cozer, o Livros ETC da Josélia Aguiar e o Todoprosa do jor­na­lis­ta e escri­tor Sérgio Rodrigues, todos com con­teú­do diver­si­fi­ca­do sobre o mun­do das letras. E cla­ro, não pode­ria dei­xar de fora o Publishnews, o por­tal que é refe­rên­cia em con­teú­do e difu­são no mer­ca­do edi­to­ri­al bra­si­lei­ro, que con­ta com colu­nis­tas tarim­ba­dos como Felipe Lindoso e Greg Bateman.

Das notí­ci­as para o comér­cio: e que tal com­prar qual­quer livro com 30% de des­con­to? É o que pro­me­te a livra­ria 30por­cen­to, já conhe­ci­da dos tui­tei­ros de plan­tão. É pos­si­vel, por exem­plo, com­prar “O cava­lo per­di­do e outras his­tó­ri­as” do Felisberto Hernández por R$ 35,70, con­tra os R$ 51,00 pra­ti­ca­dos por outras livra­ri­as.

E três escri­to­res con­tem­po­râ­ne­os bra­si­lei­ros são blo­guei­ros inve­te­ra­dos: Santiago Nazarian rega cons­tan­te­men­te o seu Jardim Bizarro , o Marcelino Freire faz do seu Ossos do ofí­dio uma ver­da­dei­ra tri­bu­na, e a Ivana Arruda Leite toca o tres­lou­ca­do Doidivana.

Ufa, você con­se­guiu ler este tex­to até o fim? Meus para­béns, você pas­sou no tes­te Schroeder de défi­cit de aten­ção, e está apto(a) para aces­sar este link: Domínio Público.

Num tre­cho diver­ti­do de Memórias pós­tu­mas de Brás Cubas, nos­so herói che­ga na con­clu­são que há duas for­ças capi­tais: o amor, que mul­ti­pli­ca a espé­cie, e o nariz, que a subor­di­na ao indi­ví­duo. Nos dias de hoje, Machado inclui­ria a inter­net tam­bém, como for­ça capi­tal, para aí sim, tudo ficar num tri­ân­gu­lo (à la Dom Casmurro).

Bom, eu fico por aqui, ou melhor, por aí, na rede.

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