Um livro raro de Cecilia Meireles — Pequeno oratório de Santa Clara

Literatura

03.06.11

Abaixo, tex­to de Cecília Himmelseher e Marcela Isensee — esta­giá­ri­as de jor­na­lis­mo em ati­vi­da­de no Centro Cultural do Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Cecília e Marcela falam sobre um livro raro, que per­ten­ce ao acer­vo de Literatura do Instituto: Pequeno ora­tó­rio de Santa Clara, de Cecilia Meireles.

O Pequeno ora­tó­rio de Santa Clara cons­ti­tui uma pre­ci­o­si­da­de da Biblioteca de Lygia Fagundes Telles, no acer­vo de lite­ra­tu­ra do IMS-RJ. Em abril de 1955, a auto­ra da obra, Cecilia Meireles, pre­sen­te­ou a ami­ga com o núme­ro 170, de uma tira­gem de 320 exem­pla­res impres­sos arte­sa­nal­men­te no Brasil.

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O livro, publi­ca­do no Rio de Janeiro em 1955, tem ilus­tra­ções de Manuel Segalá, poe­ta e impres­sor-edi­tor da Philobiblion, casa edi­to­ri­al que fica­ria conhe­ci­da pelo pri­mo­ro­so tra­ba­lho com que divul­gou obras impor­tan­tes de auto­res naci­o­nais e estran­gei­ros, usan­do sua len­dá­ria pren­sa manu­al cha­ma­da “A Verônica”.

Não é qual­quer livro que vem acon­di­ci­o­na­do em uma cai­xi­nha de madei­ra em for­ma de ora­tó­rio, e aqui o vocá­bu­lo sig­ni­fi­ca o peque­no armá­rio, de duas por­tas, fei­to para pro­te­ger o san­to aí guar­da­do. Foi nes­se esti­lo que Segalá ide­a­li­zou a “capa” do livri­nho. Como gêne­ro lite­rá­rio, ora­tó­rio é com­po­si­ção musi­cal can­ta­da e de con­teú­do nar­ra­ti­vo. Este, de Cecília, apre­sen­ta 13 par­tes em que a auto­ra con­ta a vida da san­ta.

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Conhecida por Chiara d’Assisi, em ita­li­a­no, sua lín­gua mater­na, Santa Clara foi fun­da­do­ra do ramo femi­ni­no da Ordem Franciscana, con­gre­ga­ção que teve em São Francisco de Assis o seu mai­or repre­sen­tan­te do ramo mas­cu­li­no. Chiara era uma jovem rica, que abdi­cou de sua heran­ça para seguir os pas­sos do san­to, a quem se ligou em laços de ami­za­de e fé, como escre­ve a poe­ta na quin­ta par­te do “Oratório”, inti­tu­la­da “Fuga”:

Escutai, nobres fidal­gos:

a meni­na que cri­as­tes

é uma vaga som­bra,

fora de vos­sa von­ta­de,

livre de enga­nos

e tra­ves.

É uma estre­la que pro­cu­ra

outra vez a Eternidade!

Despida de suas joi­as

e de seus faus­to­sos tra­jes,

incli­na a cabe­ça

com ter­na humil­da­de.

Cortam-lhe as tran­ças:

ramo de luz nos alta­res.

Mais cla­ra do que seu nome,

no fogo da Caridade

quei­ma o que fora e tive­ra:

- ultra­pas­sa a que cri­as­tes!”

A his­tó­ria des­te Pequeno ora­tó­rio de Santa Clara na ver­da­de come­ça um pou­co antes: em 1954, quan­do Frei Armindo Augusto, ora­dor de notá­vel talen­to, nas­ci­do em 1918, publi­cou, em Portugal, o livro Em lou­vor de Santa Clara para cele­brar o séti­mo cen­te­ná­rio de mor­te da reli­gi­o­sa, que ocor­re­ra no ano ante­ri­or. A publi­ca­ção cons­ti­tui uma home­na­gem das lite­ra­tu­ras por­tu­gue­sa e bra­si­lei­ra àque­la que dedi­cou sua vida aos pobres. A cola­bo­ra­ção do Brasil foi dada por Cecilia Meireles e Manuel Bandeira. Cecilia con­tri­buiu com o “Oratório”, que na edi­ção por­tu­gue­sa rece­beu o títu­lo de “Recitativo”. Manuel Bandeira par­ti­ci­pou com “Oração para avi­a­do­res”, em que atri­bui a Santa Clara o poder de pro­te­ger os avi­a­do­res. Na últi­ma estro­fe:

Santa Clara, cla­re­ai

Estes ares.

Daí-nos ven­tos regu­la­res

De fei­ção.

Estes ares, estes mares

Clareai.

[…]

Santa Clara, cla­re­ai.

Afastai

Todo ris­co.

Por amor de S. Francisco,

Vosso mes­tre, nos­so pai,

Santa Clara, todo ris­co

Dissipai.

Santa Clara, cla­re­ai.

Pelo vis­to, a nome­a­ção da san­ta como pro­te­to­ra dos pilo­tos é cri­a­ção do poe­ta de Pasárgada, que, como aman­te das pala­vras, se dete­ve no ver­bo cla­re­ar. Não se impor­tou — ao que pare­ce — com os san­tos ofi­ci­ais padro­ei­ros da avi­a­ção: São José de Cupertino e Nossa Senhora de Loreto.

Santa Clara é mais conhe­ci­da como padro­ei­ra da tele­vi­são, e isso se expli­ca por um de seus mila­gres: um ano antes de sua mor­te, ela esta­va mui­to doen­te e não podia par­ti­ci­par da cele­bra­ção da euca­ris­tia. Entretanto, teve uma visão do ritu­al com­ple­to e des­sa for­ma assis­tiu à mis­sa de seu pró­prio quar­to.

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A admi­ra­ção de Manuel Bandeira pela edi­ção do Pequeno ora­tó­rio de Santa Clara está regis­tra­da na crô­ni­ca inti­tu­la­da “Santa Clara”, incluí­da em Flauta de papel. O cro­nis­ta escre­ve sobre o tipo de papel, a fon­te, marca-d’água: “Vão aqui todos esses por­me­no­res para des­de logo fazer sen­tir a biblió­fi­los o requin­te da edi­ção, ver­da­dei­ra­men­te dig­na daque­la de quem dis­se o seu con­tem­po­râ­neo Tomás de Celano que foi ?cla­ra pelo nome, mais cla­ra ain­da pela sua vida, cla­rís­si­ma pelos seus cos­tu­mes’, ou seja, no latim de intra­du­zí­vel bele­za: cla­ra nomi­ne, vita cla­ri­or, cla­ris­si­ma mori­bus.”

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