Um olhar português

No cinema

23.06.16

Um dos gran­des cine­as­tas do mun­do hoje é o por­tu­guês Miguel Gomes. Com ape­nas qua­tro lon­gas-metra­gens até ago­ra (A cara que mere­ces, Aquele que­ri­do mês de agos­to, Tabu e a tri­lo­gia As mil e uma noi­tes), sua obra é uma das mais cri­a­ti­vas e des­con­cer­tan­tes do novo sécu­lo.

Os ciné­fi­los cari­o­cas têm até o dia 6 de julho a rara opor­tu­ni­da­de de ver, em sequên­cia ou na ordem que pre­fe­ri­rem, os três “volu­mes” do monu­men­tal As mil e uma noi­tes, de 2015. Cada uma das três par­tes tem pou­co mais de duas horas e com­põe-se, por sua vez, de diver­sos epi­só­di­os com tênue cone­xão entre si.

Liberdade de inven­ção

É, no con­jun­to, um exten­so e hete­ro­gê­neo pai­nel crí­ti­co do mun­do glo­ba­li­za­do con­tem­po­râ­neo, com ênfa­se em Portugal e sua inser­ção tor­ta na Europa uni­fi­ca­da. Do clás­si­co ára­be que lhe dá títu­lo, o fil­me apro­vei­ta não ape­nas o dis­po­si­ti­vo de uma nar­ra­do­ra que enca­deia his­tó­ri­as inde­pen­den­tes, mas tam­bém e prin­ci­pal­men­te a liber­da­de de inven­ção e a fan­ta­sia des­bra­ga­da.

No fil­me, essa liber­da­de se mani­fes­ta, por exem­plo, na mis­tu­ra de gêne­ros, ou na pas­sa­gem abrup­ta de um a outro. O pri­mei­ro volu­me, “O inqui­e­to”, come­ça com um docu­men­tá­rio com­ba­ti­vo sobre a pri­va­ti­za­ção dos esta­lei­ros por­tu­gue­ses e o desem­pre­go de milha­res de tra­ba­lha­do­res do setor. Parece uma obra do enga­ja­do Ken Loach, até que se entre­la­ça na nar­ra­ti­va uma his­tó­ria para­le­la e insó­li­ta, o ata­que de ves­pas fero­zes às col­mei­as pro­du­to­ras de mel.

Depois dis­so o fil­me pas­sa para um regis­tro fran­ca­men­te paró­di­co. O pró­prio cine­as­ta, decla­ran­do-se inca­paz de fazer um fil­me sobre o mun­do que o cer­ca, foge de sua equi­pe e aca­ba enter­ra­do na areia até o pes­co­ço. Deixa então a tare­fa de nar­rar a Xerazade (que só apa­re­ce­rá de fato no ter­cei­ro volu­me, “O encan­ta­do”). Esse sal­to meta­lin­guís­ti­co vale, por um lado, como uma decla­ra­ção de que só a fan­ta­sia dá con­ta de abor­dar um mun­do absur­do. Por outro, abre as por­tas para todos os delí­ri­os e incon­gruên­ci­as que virão depois.

E não serão pou­cos, ao lon­go das três par­tes. De uma repor­ta­gem sobre um con­cur­so clan­des­ti­no de can­tos de pin­tas­sil­gos a uma reu­nião de auto­ri­da­des por­tu­gue­sas com repre­sen­tan­tes do FMI que che­gam mon­ta­dos em came­los como sul­tões, da líri­ca his­tó­ria de um cachor­ri­nho de esti­ma­ção que pas­sa de dono em dono ao rumo­ro­so caso de um galo que tal­vez fale e pre­ve­ja o futu­ro, os regis­tros se suce­dem, se dis­sol­vem, mudam de tom, numa inces­san­te pro­li­fe­ra­ção de sen­ti­dos.

Mecanismos de opres­são

Se há, no meio des­se ver­ti­gi­no­so calei­dos­có­pio, um tre­cho que sin­te­ti­za toda a potên­cia cri­a­ti­va de Miguel Gomes, tal­vez seja o epi­só­dio “As lágri­mas da juí­za”, no cen­tro do segun­do volu­me. Ali, um jul­ga­men­to rea­li­za­do à noi­te num anfi­te­a­tro ao ar livre, ten­do entre as tes­te­mu­nhas um gênio da lâm­pa­da e uma vaca falan­te (que pare­ce saí­da de um bum­ba-meu-boi), des­ven­da de modo hilá­rio e impla­cá­vel os meca­nis­mos de opres­são da soci­e­da­de con­tem­po­râ­nea, bem como a hipo­cri­sia da lin­gua­gem hegemô­ni­ca.

No con­tex­to do cine­ma por­tu­guês, Miguel Gomes, que faz par­te da gera­ção saí­da nos anos 1990 da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa, apro­xi­ma-se mui­to mais do humor anár­qui­co e ico­no­clas­ta de um João César Monteiro, ao qual acres­cen­ta a ligei­re­za da cul­tu­ra pop, do que do rigor clás­si­co-lite­rá­rio de um Manoel de Oliveira. Dele se pode espe­rar tudo. E mais um pou­co.

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