Uma aventura no Xingu

Colunistas

05.09.11

Sou daque­les que devi­am andar alge­ma­dos e amor­da­ça­dos no trân­si­to, se fos­se pos­sí­vel diri­gir assim. Posso sair de casa com uma auréo­la pai­ran­do sobre o car­ro, mas bas­ta alguém buzi­nar, me fechar ou me xin­gar para eu incor­po­rar o fací­no­ra. Já per­se­gui gen­te no trân­si­to para retri­buir na mes­ma moe­da. Sou um argu­men­to ambu­lan­te con­tra o livre comér­cio de armas.

Achei que esti­ves­se cura­do em Berlim, muni­cí­pio da tran­qui­li­da­de. Até um moto­ris­ta de táxi abrir o vidro do pas­sa­gei­ro e, aos gri­tos, me man­dar sair da rua e vol­tar pra cal­ça­da com a minha bici­cle­ta. Ou pelo menos foi o que enten­di, já que nun­ca é demais lem­brar que não falo ale­mão. Os gri­tos eram tão mais incom­pre­en­sí­veis quan­to tem sido impe­cá­vel a minha con­du­ta no trân­si­to. Além de ser proi­bi­do andar de bici­cle­ta na cal­ça­da. De modo que não pen­sei duas vezes antes de esten­der a mão com o dedo médio em ris­te.

O taxis­ta não acre­di­tou. Parou e, repro­du­zin­do o meu ges­to a títu­lo de ilus­tra­ção, per­gun­tou (des­sa vez, em inglês, por­que só um estran­gei­ro, na sua igno­rân­cia, podia ter rea­gi­do como rea­gi) se era aqui­lo mes­mo que eu tinha que­ri­do dizer. Ele esta­va a fim de encren­ca. E eu, cada vez mais trans­tor­na­do, repe­ti o ges­to, dis­se que ia cha­mar a polí­cia e peguei o celu­lar. Fingi que dis­ca­va o núme­ro da polí­cia, fin­gi que fala­va em inglês com a polí­cia e que dava o ende­re­ço de onde está­va­mos. Tudo bem alto, como um lou­co, pra ele ouvir. Era como se eu fos­se par­te de um epi­só­dio do Seinfeld. O taxis­ta tam­pou­co pen­sou duas vezes. Encostou o car­ro e me con­vi­dou a espe­rar a polí­cia ao lado dele. Eu fugi, é cla­ro, por­que não sou bobo e não ia pas­sar o res­to da tar­de, com um moto­ris­ta de táxi ale­mão, à espe­ra da polí­cia que não vinha.

Só depois me adver­ti­ram que mos­trar o dedo médio no trân­si­to, em Berlim (ou na Alemanha?), dá mul­ta de 500 euros (há diver­gên­ci­as: um ami­go ale­mão me garan­tiu que a infra­ção só vale quan­do a víti­ma for a pró­pria polí­cia e que a mul­ta é de mais de mil euros). Me acon­se­lha­ram a dizer que esta­va ape­nas pon­do os ócu­los de vol­ta no lugar, no caso de ser inter­pe­la­do pela polí­cia depois de uma rein­ci­dên­cia incon­tro­lá­vel.

Já não lem­bro se foi no mes­mo dia do inci­den­te com o taxis­ta que tirei a auréo­la do armá­rio para ir pres­ti­gi­ar a lei­tu­ra de um cole­ga na aber­tu­ra do fes­ti­val inter­na­ci­o­nal de lite­ra­tu­ra de Berlim, no qual tam­bém terei uma bre­ve par­ti­ci­pa­ção. É mui­to pos­sí­vel que tenha sido no mes­mo dia, por­que em geral as coi­sas vêm em ondas.

Descobri recen­te­men­te, com um mis­to de des­gos­to e ódio, que a minha lei­tu­ra no fes­ti­val inter­na­ci­o­nal de Berlim tem tema, ao con­trá­rio do que eu pen­sa­va. Chama-se: “Uma aven­tu­ra no Xingu”, ou algu­ma coi­sa do gêne­ro, como não podia dei­xar de ser. Mesmo assim, com razões de sobra para não com­pa­re­cer, insis­ti em pres­ti­gi­ar a lei­tu­ra do cole­ga na aber­tu­ra do fes­ti­val. Pra quê? Ao apre­sen­tar o even­to, o dire­tor dis­tri­buiu os agra­de­ci­men­tos de pra­xe e apon­tou nomi­nal­men­te um ou dois escri­to­res na pla­teia, entre os demais homens de ter­no e acom­pa­nhan­tes que pare­ci­am ter a ver com todo tipo de negó­cio menos com lite­ra­tu­ra. E se não fos­se pela insis­tên­cia infe­liz da repre­sen­tan­te da ins­ti­tui­ção cul­tu­ral gra­ças à qual gozo de um ano em Berlim, e que, sen­ta­da ao meu lado, apon­ta­va enfa­ti­ca­men­te para mim, o dire­tor teria me igno­ra­do. Entretanto, for­ça­do a me incluir na apre­sen­ta­ção, virou-se para mim, a con­tra­gos­to, e, for­jan­do uma ale­gria de facha­da, dis­se: “E tam­bém temos aqui… tam­bém temos… o Gabr… Rafa… Edu…”, enquan­to ges­ti­cu­la­va para que eu lhe faci­li­tas­se a vida e dis­ses­se afi­nal a por­ca­ria do meu nome. Quero crer que só o can­sa­ço, depois da alter­ca­ção com o taxis­ta, pos­sa expli­car a pir­ra­ça da minha res­pos­ta: “Que boba­gem! Deixa pra lá! Não tem pro­ble­ma nenhum. Não se pre­o­cu­pe com isso”, eu dis­se, em vez do nome, obri­gan­do o dire­tor a expli­car à pla­teia que não tínha­mos sido apre­sen­ta­dos (e que por­tan­to não podia saber mes­mo quem eu era). A situ­a­ção pro­vo­cou algum cons­tran­gi­men­to, é cla­ro. Mas nada que em dois minu­tos não tives­se sido esque­ci­do e que depois não me per­mi­tis­se gozar ain­da com mais satis­fa­ção a reden­ção de vol­tar pra casa, no meio da noi­te, peda­lan­do, sem nome e sem nenhum táxi à vis­ta.

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: deta­lhe de Índios — Cenas do dia a dia, c. 1975, Xingu-MT, de Maureen Bisilliat (acer­vo IMS)

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