Uma gostosa, bem sabes, Joaquim

Correspondência

17.01.13

* Tem iní­cio nes­te post uma con­ver­sa entre os escri­to­res e cro­nis­tas Xico Sá e Joaquim Ferreira dos Santos, que tro­ca­rão cor­res­pon­dên­ci­as no blog.

Clique aqui para ler a car­ta seguin­te.

Caríssimo Joaquim,

Manhã, tão boni­ta manhã. E não é, ami­go, que me pego, com o bico desa­fi­na­do dos aman­tes oti­mis­tas, asso­bi­an­do bes­ta­men­te esta can­ção!

Manhã, tão boni­ta manhã.

Entre os homens séri­os e as exí­mi­as secre­tá­ri­as bilín­gues da ave­ni­da Paulista. Um dia feio que só eu, carís­si­mo, e do nada, manhã, tão boni­ta manhã.

Do nada, vír­gu­la, bem sabes, que viver não é assim à toa como que­ria a coto­via.

Foi pela manei­ra que ela fechou a por­ta, Joaquim. Manjas?

Tu sabes quan­do a por­ta pesa, quan­do a por­ta ran­ge, quan­do a por­ta se nega à mecâ­ni­ca natu­ral das dobra­di­ças do adeus e até do adeu­si­nho? Bem sabes, Joaquim.

Bem sabes, ami­go, que no tem­po do ficar qua­se nada fica. Nem o amor daque­la rima anti­ga.

A noi­te nem foi essas coi­sas todas, meu caro. Fui o devo­to de sem­pre, mas creio que joguei como time peque­no fora de casa. Intimidado. Sim, Joaquim, tra­ta-se de uma daque­les mulhe­res tão gos­to­sas, tão cobi­ça­das, que nos metem medo. Mesmo que o cama­ra­da seja um fiel segui­dor da car­ti­lha do Vinícius e faça bom uso da ora­li­da­de, assim como tam­bém o bom uso das falan­ges, falan­gi­nhas e falan­ge­tas.

Não ape­nas uma mulher, ami­go. Um colos­so. Sabes do que estou falan­do. E chei­ro­sa, como era chei­ro­sa, Joaquim. A sei­va do apo­ca­lip­se, Joaquim, bem sabes.

Inteiraça, Joaquim, mas com aque­la huma­nís­si­ma hipó­te­se de bar­ri­gui­nha da qual fala­va o supra­ci­ta­do poe­ta. Que haja uma hipó­te­se de bar­ri­gui­nha. E havia, Joaquim.

Não ape­nas a bati­da da por­ta, ami­go, mas o café quen­te da manhã emba­çou meus ócu­los de algu­ma abes­ta­lha­da como­ção.

Os aman­tes apres­sa­dos de São Paulo, meu caro, não tomam mais café da manhã, sabi­as? Essa moça foi dife­ren­te, me deu até mamão­zi­nho na boca e eu me der­re­ti qual a man­tei­ga Aviação no pão na cha­pa.

Sei lá, ami­go, aque­la por­ta me dis­se coi­sas, me cha­mou para den­tro da vida, para den­tro da his­tó­ria, para den­tro da moça.

Tenho ou não moti­vos, meu cro­nis­ta pre­di­le­to, para fla­nar, na cin­za manhã pau­lis­ta­na, da Consolação ao Paraíso?

Saudações de liris­mo per­ma­nen­te, um abra­ço for­te, teu ami­go Xico.

* Na ima­gem que ilus­tra a home: a Avenida Paulista retra­ta­da por Herbert Kajiura (http://www.flickr.com/photos/hkajiura/469272501/)