Uma hilária temporada com Christopher Hitchens

serrote

16.12.11

Quando se des­co­briu com cân­cer, Christopher Hitchens escre­veu que lamen­ta­va a pos­si­bi­li­da­de da mor­te por even­tu­al­men­te não ver os filhos casa­rem e por dei­xar de escre­ver os obi­tuá­ri­os de Henry Kissinger e Bento XVI, dois de seus alvos pre­fe­ri­dos. Essa vida é cachor­ra mes­mo e aqui estou eu, batu­can­do um post sobre a mor­te de um dos pou­cos inte­lec­tu­ais que mere­cia esse nome — pelo espí­ri­to com­ba­ti­vo, pela impli­cân­cia mili­tan­te e incan­sá­vel e por uma bela dose de con­tra­di­ção, que des­con­fi­gu­ra as ade­sões incon­di­ci­o­nais.

A mim espan­ta­va aque­le sujei­to inso­len­te que havia escri­to um livro con­tra a Madre Teresa de Calcutá (The mis­si­o­nary posi­ti­on, um títu­lo explo­si­vo que tam­bém quer dizer “papai-mamãe”), fei­to um elo­gio sober­bo de Orwell e, vá enten­der, fos­se a favor da inva­são do Iraque pelos EUA. Foi cru­ci­fi­ca­do por ser per­ce­bi­do como esquer­da radi­cal (que de fato foi) e con­ser­va­dor (o que é mui­to dis­cu­tí­vel).

Em 2002, quan­do, ao lado de Flávio Pinheiro, come­cei a tra­ba­lhar na orga­ni­za­ção da pri­mei­ra Flip, fui ao fes­ti­val de Hay-on-Wye, no País de Gales, ver como fun­ci­o­na­va esse negó­cio de escri­tor falan­do em cida­de his­tó­ri­ca. Na sala dos auto­res, conhe­ce­mos Hitchens, com um copo de vinho na mão, fuman­do his­te­ri­ca­men­te e fazen­do per­gun­tas sobre o Brasil. Na edi­ção ante­ri­or do fes­ti­val, tinha fei­to uma de suas per­for­man­ces: quan­do Bill Clinton, um con­vi­da­do polê­mi­co, come­çou sua con­fe­rên­cia, Hitchens saiu da pri­mei­ra fila baten­do os pés estri­den­te­men­te no chão de madei­ra. Naquele 2002, foi o úni­co a acei­tar defen­der a Rainha, que come­mo­ra­va seu jubi­leu. Ele era assim.

Três anos depois, como dire­tor edi­to­ri­al da Agir, publi­quei dos livros de Hitchens: Amor, pobre­za e guer­ra e o geni­al Deus não é gran­de, pri­mei­ro e úni­co best-sel­ler de sua vida. Para o lan­ça­men­to do pri­mei­ro, o con­vi­dei a Paraty. E come­çou uma das mais hilá­ri­as tem­po­ra­das com um escri­tor que já vivi.

No dia em que che­gou ao Rio, fomos jan­tar num res­tau­ran­te meti­do a bes­ta. Hitchens fala­va pelos coto­ve­los e esta­va eufó­ri­co por fazer uma via­gem de mais de doze horas entre Stanford e Brasil. Adorava aviões por­que, segun­do ele, só assim para­va de fumar e con­se­guia ler em paz. Dormir, nem pen­sar.

No jan­tar, apre­sen­tou suas armas: copi­nho bai­xo com uís­que até a boca, sem gelo, e, ao lado, outro copo, com uma Perrier cheia de gelo. Lá pelas tan­tas, quis pro­var um vinho bra­si­lei­ro: nin­guém na mesa reco­men­da­va nada, o que mui­to o espan­tou. Foram duas gar­ra­fas — com minha aju­da, cla­ro.

Embarcou para Paraty com uma cai­xa de uís­que que com­prou no Free Shop e que con­su­miu sozi­nho nos cin­co dias da fes­ta. Achou cai­pi­ri­nha “bebi­da de mulher” e cacha­ça, uma boba­gem. Era extre­ma­men­te doce, gen­ti­lís­si­mo e, à medi­da que bebia, fica­va mais raci­o­nal e mais lúci­do.

Nos cin­co dias me cha­mou de “che­fe”, andou pela pou­sa­da de mei­as e falou sem parar sobre tudo, sem­pre com inte­li­gên­cia. Lembrou estra­nha­men­te do nos­so encon­tro em Hay e até reme­mo­rou a con­ver­sa que tive­mos, ao lado de Margareth Atwood. Não pare­cia, mas era um doce radi­cal.

Mas a melhor his­tó­ria foi quan­do me con­vo­cou (eu era o “che­fe” mas ele é quem man­da­va, cla­ro) para ver a pales­tra de Lilian Ross, a deca­na da New Yorker.

Tive que nego­ci­ar com um segu­ran­ça para que ele entras­se na ten­da com um copo, de vidro, com uís­que. Quando che­ga­mos, o públi­co ain­da se aco­mo­da­va, e Lilian Ross, com mais de 80 anos, tam­bém. Ele achou que era uma des­con­si­de­ra­ção e gri­ta­va: “Aplaudam, filhos da puta, essa é Lilian Ross”. Sentamos na pri­mei­ra fila, ele fas­ci­na­do. Quando Philip Gourevitch, um cra­que, dis­se que não havia um “esti­lo New Yorker”, Hitchens sol­tou uma acin­to­sa gar­ga­lha­da, cons­tran­gen­do o jor­na­lis­ta e, é cla­ro, o “che­fe” ao seu lado.

Num jan­tar que ofe­re­ci aos auto­res, encan­tou-se com uma ami­ga minha, em tudo e por tudo con­trá­ria àque­la fase “con­ser­va­do­ra” de seu pen­sa­men­to. Mas as lem­bran­ças de um recôn­di­to trots­kis­mo fize­ram deles ami­gos de infân­cia. Ele foi gen­til o tem­po todo, ain­da que em mui­tos momen­tos ficas­se cla­ro seu tédio com as litur­gi­as da vida lite­rá­ria.

Não há novi­da­de em sua mor­te, em tudo e por tudo anun­ci­a­da. Mas lamen­to, pro­fun­da­men­te, que ele não tenha con­se­gui­do rea­li­zar os últi­mos dese­jos. Ele mere­cia. E nós tam­bém.

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: Christopher Hitchens na Flip de 2006 (cré­di­to: Clarissa Pivetta/Arissas Multimídia)

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