Uma memória de Pernambuco

Por dentro do acervo

17.07.13
Uma parte da Passagem, c.1863

Uma parte da Passagem, c.1863

O céu se equi­li­bra­va em nuan­ces de azul e ama­re­lo. A bri­sa, úmi­da, sopra­va as folhas da pal­mei­ra que se colo­ca­ram a balan­çar sua­ve­men­te. As águas do rio refle­ti­am o casa­rio às suas mar­gens. A bor­do de um bar­qui­nho a remo as pes­so­as são con­du­zi­das aos seus des­ti­nos, e nes­se bre­ve pas­seio vemos o con­tras­te entre as ves­tes sim­ples daque­le que con­duz a embar­ca­ção em rela­ção à ele­gân­cia dos demais pas­sa­gei­ros. À bei­ra do rio, apro­vei­tan­do a som­bra da pal­mei­ra, um artis­ta regis­tra a sin­ge­la cena coti­di­a­na.

Caes da Rua do Trapiche, c.1863

Caes da Rua do Trapiche, c.1863

Largo da Alfandega, c.1863

Largo da Alfandega, c.1863

Parte do acer­vo de Iconografia Brasileira do Instituto Moreira Salles, a bucó­li­ca ima­gem inte­gra o álbum de lito­gra­fi­as Memória de Pernambuco — álbum para os ami­gos das artes, do suí­ço Luiz Schlappriz, que tra­çou em pou­co mais de 30 ima­gens um enge­nho­so pano­ra­ma de pai­sa­gem, tipos e cos­tu­mes do Recife do sécu­lo XIX. O IMS con­ta com 26 das 33 ima­gens publi­ca­das no álbum.

Vista do Pateo da Penha (Mercado de Verduras), c.1863

Vista do Pateo da Penha (Mercado de Verduras), c.1863

Ponte da Boa Vista, c.1863

Ponte da Boa Vista, c.1863

A res­pei­to de Schlappriz, pou­co sabe­mos. Além de suí­ço, temos notí­cia de que che­gou ao Recife em mar­ço de 1858, no intui­to de acom­pa­nhar um fami­li­ar que veio à cida­de desem­pe­nhar fun­ções diplo­má­ti­cas em nome de seu país natal. Schlappriz, por sua vez, atu­ou no Brasil como pin­tor e litó­gra­fo, con­tri­buin­do tam­bém com cari­ca­tu­ras para alguns jor­nais lite­rá­ri­os e humo­rís­ti­cos do Recife.

Casa de Detenção, c.1863

Casa de Detenção, c.1863

Hospital Portuguez, no dia do seo anniversario.,c.1863

Hospital Portuguez, no dia do seo anniversario, c.1863

O segun­do per­so­na­gem-cha­ve rela­ci­o­na­do à exe­cu­ção do álbum Memória de Pernambuco é Francisco Henrique Carls. Alemão de ori­gem, apor­tou no Recife em 1859. Passados dois anos, Carls fun­da em 1861 um dos mais céle­bres esta­be­le­ci­men­tos lito­grá­fi­cos da cida­de, onde, muni­do de bons equi­pa­men­tos e pro­fis­si­o­nais, exe­cu­ta­va a impres­são de docu­men­tos vari­a­dos, como mapas, diplo­mas e cir­cu­la­res, den­tre outros, e se tor­nou conhe­ci­do por ofe­re­cer repro­du­ções de qua­li­da­de excep­ci­o­nal.

Vista das Cinco Pontas (tomada do Hospital D. Pedro II), c.1863

Vista das Cinco Pontas (tomada do Hospital D. Pedro II), c.1863

Vista das Cinco Pontas (tomada do Hospital D. Pedro II), c.1863

Chora Menino, c.1863

Foi no ano de 1863 que a lito­gra­fia Carls ini­ci­ou a publi­ca­ção do álbum Memória de Pernambuco, ori­gi­na­do atra­vés da par­ce­ria fir­ma­da entre Luiz Schlappriz, res­pon­sá­vel por dese­nhar e lito­gra­far as ilus­tra­ções, e o edi­tor ale­mão, encar­re­ga­do de impres­são e dis­tri­bui­ção (a comer­ci­a­li­za­ção ocor­ria sob um esque­ma de assi­na­tu­ra, e as pran­chas eram dis­po­ni­bi­li­za­das para ven­da assim que o artis­ta as fina­li­za­va). A oca­sião assi­na­la a pri­mei­ra vez em que uma cole­ção de gra­vu­ras foi intei­ra­men­te lito­gra­fa­da no Recife. Além dis­so, tal con­jun­to se tor­na espe­ci­al devi­do ao seu apu­ro téc­ni­co, vari­e­da­de de estam­pas, e indis­cu­tí­vel méri­to artís­ti­co-his­tó­ri­co, uma vez que apre­sen­ta nume­ro­sos recan­tos reci­fen­ses da épo­ca, como o Campo das Princesas (lar­go do palá­cio), que hoje abri­ga o edi­fí­cio sede do gover­no de Pernambuco, e a casa de deten­ção, revi­ta­li­za­da e trans­for­ma­da em polo cul­tu­ral des­de 1976.

Vista do Recife tomada do Salão do Theatro de S. Isabel, c.1863

Vista do Recife tomada do Salão do Theatro de S. Isabel, c.1863

Uma parte da Rua D'Aurora e Ponte de S. Isabel (tirada do Jardim do Palacio), c.1863

Uma parte da Rua D’Aurora e Ponte de S. Isabel (tirada do Jardim do Palacio), c.1863

Em sua uni­da­de, essas obras nos ofe­re­cem um con­vi­te irre­cu­sá­vel a conhe­cer a vida e o com­por­ta­men­to daque­les que habi­tam den­tro des­sas ima­gens, e prin­ci­pal­men­te a infe­rir que o tem­po onde vivi­am pas­sa­va tão vaga­ro­so que nada seria mais natu­ral do que o con­ge­lar em uma gra­vu­ra. Num perío­do onde fer­vi­lha­va a cir­cu­la­ção de ima­gens do Rio de Janeiro (local que tam­bém con­cen­trou boa par­te da ati­vi­da­de lito­grá­fi­ca do Império), as pran­chas do álbum de Carls e Schlappriz têm a pro­pri­e­da­de de ori­en­tar o olhar do pas­sa­do, e do pre­sen­te, a uma outra geo­gra­fia.

Grupo de negros, (em frente da Igreja de S. Gonçalo), c.1863

Grupo de negros, (em frente da Igreja de S. Gonçalo), c.1863

* Jovita Santos de Mendonça é assis­ten­te cul­tu­ral da Coordenadoria de Iconografia Brasileira do IMS.

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