Uma odisseia torta — quatro perguntas para Gustavo Piqueira

Quatro perguntas

06.05.14

O escri­tor e artis­ta grá­fi­co Gustavo Piqueira em retra­to de Renata Castello Branco.

À fren­te da Casa Rex, Gustavo Piqueira já rece­beu mais de 200 prê­mi­os inter­na­ci­o­nais de design grá­fi­co, mas foi nos 15 livros publi­ca­dos até hoje que encon­trou algo pró­xi­mo da satis­fa­ção pes­so­al. Seu novo livro, “Odisseia de Homero segun­do João Vítor” (R$ 45, 224 págs, ed. Gaivota), nar­ra a saga de Ulisses sob a óti­ca de um alu­no da sex­ta série que aca­bou len­do o livro inte­gral em vez de recor­rer a uma edi­ção adap­ta­da para sua ida­de. À luz da polê­mi­ca com as adap­ta­ções da obra de Machado de Assis, o autor afir­ma que ver­sões que apa­gam as obras de tudo que é estra­nho à sen­si­bi­li­da­de con­tem­po­râ­nea mais atra­pa­lham que aju­dam.

Em suas obras, Piqueira usa o supor­te do livro e a dia­gra­ma­ção como cama­das nar­ra­ti­vas que ora refor­çam, ora con­tra­di­zem a men­sa­gem do tex­to escri­to.

Em “Odisseia de Homero segun­do João Vítor” (2014) você faz uma crí­ti­ca às adap­ta­ções de clás­si­cos, que pas­teu­ri­zam os livros na ânsia de agra­dar os jovens, mas seu pró­prio livro tam­bém é uma adap­ta­ção. Dá para ima­gi­nar um ado­les­cen­te len­do a “Odisseia” por inter­mé­dio de João Vítor. A inten­ção era essa mes­ma, escre­ver uma adap­ta­ção que não lim­pas­se a his­tó­ria de todas as suas difi­cul­da­des de lei­tu­ra, mas que fizes­se uma pon­te cômi­ca com essas difi­cul­da­des?

Eu zom­bo daque­las adap­ta­ções com fins faci­li­ta­do­res ? que agem como se uma músi­ca fos­se ape­nas seu refrão. Mas o livro é, a meu ver, mais uma inter­pre­ta­ção da Odisseia do que uma adap­ta­ção (tan­to é que últi­mo can­to, o fim do livro, resu­me-se a um bre­ve “não enten­di nada des­te capí­tu­lo”).

Uma das inten­ções (a outra, não menos impor­tan­te, era me diver­tir com a pos­si­bi­li­da­de de dis­tor­cer a “Odisseia” pelas len­tes emba­ça­das do pro­ta­go­nis­ta) foi mos­trar o quan­to da sub­je­ti­vi­da­de ine­ren­te a qual­quer pro­ces­so cog­ni­ti­vo indi­vi­du­al, como a lei­tu­ra de um livro, é talha­da quan­do o outro deci­de a pri­o­ri que a obra em sua for­ma inte­gral não é ade­qua­da (ou pior, atra­en­te) para deter­mi­na­do públi­co ou épo­ca. Porque, ain­da que esta­pa­fúr­di­as, todas as asso­ci­a­ções que João Vítor faz a par­tir de sua lei­tu­ra da Odisseia não pas­sam de ver­sões hiper­bó­li­cas das que todo lei­tor faz ao ler qual­quer livro.

A par­te boa das ver­sões adap­ta­das é que as cri­an­ças aca­bam ten­do con­ta­to com obras que, do con­trá­rio, tal­vez ficas­sem esque­ci­das. Por outro lado elas ten­dem a uni­for­mi­zar a moral, exclu­em tudo que pos­sa cho­car o lei­tor e pas­sam essa ideia de que a Grécia de Homero, que nem tinha esse nome, era um lugar mui­to pare­ci­do com a São Paulo de hoje em ter­mos de padrão de com­por­ta­men­to. Você acha que, se for para ler assim, então seria melhor enga­ve­tar os clás­si­cos de vez?

Será que exis­te algum valor abso­lu­to em sim­ples­men­te “ter­mos con­ta­to” com as coi­sas? Ou isso não pas­sa de uma obses­são con­tem­po­râ­nea de tra­tar­mos a vida como um gran­de chec­klist? Vale para cri­an­ças ou adul­tos e tan­to faz se o chec­klist inclui clás­si­cos da lite­ra­tu­ra, via­gens pelo mun­do, res­tau­ran­tes, museus. Quando elen­ca­mos a lis­ta do que “pre­ci­sa­mos ter con­ta­to” e saí­mos a ticar os boxes, não esta­mos trans­for­man­do o mun­do num enor­me mer­ca­dão?

Para mim, as coi­sas com as quais nos rela­ci­o­na­mos não têm tan­ta impor­tân­cia. O que impor­ta é o tipo de con­ta­to que esta­be­le­ce­mos com elas. Não se adqui­re cul­tu­ra ape­nas ten­do “con­ta­to” com Homero ou com qual­quer outro autor. Lembro, por exem­plo, de quan­do “tive con­ta­to” com Dom Casmurro na esco­la. Por con­ta des­se “con­ta­to”, fiquei mais de dez anos acre­di­tan­do que o livro era uma nove­la das oito: Capitu traiu Bentinho? Até que, um dia, final­men­te li o livro e me diver­ti hor­ro­res. Qual des­ses dois momen­tos deve ser con­si­de­ra­do como aque­le em que “tive con­ta­to” com Dom Casmurro?

Por outro lado, sou total­men­te a favor de tra­du­ções mais con­tem­po­râ­ne­as de obras clás­si­cas ? acho impor­tan­te o lan­ça­men­to de ver­sões para serem lidas por um públi­co mais amplo, coe­xis­tin­do com as edi­ções inte­grais, igual­men­te neces­sá­ri­as. Mas há uma enor­me dife­ren­ça entre uma tra­du­ção con­tem­po­râ­nea, visan­do um públi­co que pre­ci­sa de uma cer­ta tra­du­ção cul­tu­ral ou voca­bu­lar para pene­trar deter­mi­na­da obra, e ver­sões que uni­for­mi­zam a moral, como você colo­cou, que eli­mi­nam tudo aqui­lo que seja estra­nho à sen­si­bi­li­da­de con­tem­po­râ­nea. Nesse caso, sim, voto pelo enga­ve­ta­men­to. Se é para fin­gir que Ulisses foi o pri­mei­ro super-herói da Marvel, melhor ficar­mos com o Homem-Aranha, não?

Releitura de Gustavo Piqueira da cena em que Penélope espe­ra por Ulisses. As gra­vu­ras ori­gi­nais são do inglês John Flaxman, de 1795.

Em “Clichês bra­si­lei­ros” (2013), “Iconografia pau­lis­ta­na” (2012), “Manual do pau­lis­ta­no moder­no e des­co­la­do” (2007), “São Paulo, cida­de lim­pa” (2007) e “Morte aos papa­gai­os” (2004) você cha­ma aten­ção para o mau gos­to do bra­si­lei­ro, que se espa­lha pelos hábi­tos de con­su­mo, arqui­te­tu­ra e design. Você se iden­ti­fi­ca com esse mau gos­to ou é um obser­va­dor exter­no?

Mais do que apon­tar o dedo para um mau gos­to típi­co do bra­si­lei­ro, o que seria um pou­co pedan­te de minha par­te, ten­to lan­çar um olhar não con­des­cen­den­te sobre o que me cer­ca ? e, por tabe­la, esca­par tam­bém da auto­con­des­cen­dên­cia. Considero minha “Iconografia pau­lis­ta­na” um livro bem cari­nho­so com São Paulo ? ain­da que tenha sido repre­en­di­do por “ridi­cu­la­ri­zar minha pró­pria cida­de, onde já se viu?” Para alguns, pare­ce ser erra­do fazer um retra­to coti­di­a­no de São Paulo sem o auxí­lio de len­tes dra­má­ti­cas ? tan­to faz se pen­den­tes para a Oscar Freire ou para a Nothmann.

Porque, gos­tan­do-se ou não, a São Paulo coti­di­a­na esta­va ali. Para cada pré­dio moder­nis­ta, temos uns cem neo­clás­si­cos. Para cada pra­ça, cem buf­fets infan­tis. Para cada MASP, a Paulista tem 50 bote­cos. E tudo bem. São Paulo é o que é. Uma cida­de é sua regra, não sua exce­ção. Não foi um ata­que ? nem uma ode ? ao mau gos­to. Foi só a cida­de que vejo ao meu redor. Vem daí, inclu­si­ve, o espe­lho na capa. Para que nin­guém ? nem eu ? esca­pas­se: este con­teú­do, lei­tor, é você. Você e eu.

Por isso, achei mui­to curi­o­sa as rea­ções de boa par­te das pes­so­as. Tanto do gru­po que ria, mas com ares de “sim, todo mun­do em São Paulo ? menos eu e meus ami­gos ? é ridí­cu­lo”, quan­to dos que tor­ci­am o nariz, ofen­di­dos pelo retra­to pou­co idí­li­co da pró­pria cida­de. Olhar para si pró­prio ? e reco­nhe­cer o que se vê ? não deve­ria ser algo tão com­pli­ca­do assim.

E, em dife­ren­tes esca­las, essa rea­ção se repe­tiu com o con­su­mis­mo e a ale­gria arti­fi­ci­al de “Clichês bra­si­lei­ros”, com o uni­ver­so cool do “Manual do pau­lis­ta­no moder­no e des­co­la­do” e com o design anti sis­te­má­ti­co de “Morte aos papa­gai­os”.

Você já tem 15 livros publi­ca­dos, mas quan­do eles ganham prê­mi­os, são prê­mi­os de design, não de lite­ra­tu­ra. Como fica isso para você? Acha que ser um desig­ner pre­mi­a­do faz com que tra­tem sua lite­ra­tu­ra como café-com-lei­te?

A eloquên­cia da par­te visu­al em meus livros, nos quais o design não se limi­ta ao papel de entre­ga­dor da piz­za, já me ren­deu alguns comen­tá­ri­os bas­tan­te pre­con­cei­tu­o­sos (tra­ves­ti­dos de puris­tas, mas que não pas­sa­vam de pre­con­cei­tu­o­sos mes­mo). Na hora, con­fes­so, fico bem trans­tor­na­do. Mas depois até con­si­go me diver­tir e con­si­de­rá-los bem escla­re­ce­do­res. Meu penúl­ti­mo livro, “Seu Azul”, tal­vez tenha sido o recor­dis­ta nes­se sen­ti­do, pois nele eu divi­di as fun­ções nar­ra­ti­vas entre tex­to, ilus­tra­ções e pro­je­to grá­fi­co ? cada qual com uma tare­fa bem cla­ra na cons­tru­ção do enre­do. Ou seja: o livro não era ape­nas o tex­to, caben­do à par­te grá­fi­ca ser­vir como ele­men­to deco­ra­ti­vo ou inter­fa­ce de lei­tu­ra. O livro era a soma do tex­to, ilus­tra­ções e pro­je­to grá­fi­co. Um fala­va uma coi­sa, outro dizia outra e o ter­cei­ro arre­ma­ta­va numa dire­ção dife­ren­te. Juntos, for­ma­vam o livro. Isso, per­ce­bi, irri­tou algu­mas pes­so­as ? a rese­nha mais emble­má­ti­ca foi a que qua­li­fi­cou “Seu Azul” como “pou­ca lite­ra­tu­ra”. Mas seu autor, em nenhum momen­to, pare­ceu notar que em cem pági­nas, não havia a pre­sen­ça de uma úni­ca fra­se dita por algum nar­ra­dor ? como uma peça de tea­tro, só que sem indi­ca­ção de cena ou das vozes res­pon­sá­veis por cada tra­ves­são ? e que essa con­fec­ção não tinha como ter sido ela­bo­ra­da de um modo sim­ples.

Já nou­tra rese­nha, bem engra­ça­da, o cara dis­se que sen­tiu exa­ta­men­te tudo que eu quis que o meu lei­tor sen­tis­se, mas achou que isso fos­se aci­den­te, não cál­cu­lo. Em ambos, havia a cla­ra difi­cul­da­de em deco­di­fi­car essa frag­men­ta­ção nar­ra­ti­va. No pri­mei­ro, uma espé­cie de recu­sa. Um livro é a pala­vra escri­ta, só. No segun­do, um pou­co dife­ren­te: se no pro­ces­so de lei­tu­ra ele não se mos­trou resis­ten­te à esqui­zo­fre­nia das vozes de “Seu Azul” , na hora em que ves­tiu o uni­for­me de rese­nhis­ta, não con­se­guiu sair da aná­li­se esque­má­ti­ca e che­gou à con­clu­são de que o livro era óti­mo, mas por puro aci­den­te.

De qual­quer for­ma, vejo esses extre­mos do reco­nhe­ci­men­to exter­no ? o elás­ti­co pla­car de duzen­tos prê­mi­os a zero ? como algo espe­ra­do, até natu­ral. Sou, ori­gi­nal­men­te, um desig­ner grá­fi­co. E, dada a neces­si­da­de com­pul­si­va de clas­si­fi­ca­ção das pes­so­as, é auto­má­ti­co que me reco­nhe­çam como tal. Mas segui­rei fazen­do meus livros do jei­to que gos­to de fazer. Nenhum des­vio de rota à vis­ta.

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