Uma pessoa esplêndida não está mais aqui

Correspondência

15.05.12

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JP,

Engraçado a gen­te ter­mi­nar essa cor­res­pon­dên­cia falan­do de dis­tân­ci­as. Porque ulti­ma­men­te é só dis­so que minha cabe­ça tem se ocu­pa­do. Minha dis­tân­cia do Brasil. A dis­tân­cia pro fim do meu cur­so. A dis­tân­cia entre aqui­lo que eu dese­jo e o que eu con­si­go fazer. E, prin­ci­pal­men­te, a dis­tân­cia das pes­so­as que eu admi­ro e que­ro bem.

Como a Chris Riera, que nos dei­xou pre­co­ce­men­te sema­na pas­sa­da. A notí­cia da mor­te dela — e como é estra­nho falar isso, como é difí­cil enfi­ar na cabe­ça que ela não está mais por aqui — foi absur­da e dolo­ro­sa demais. A Chris tinha vira­do uma espé­cie de anjo da guar­da da minha mudan­ça pros EUA. Ela tinha pas­sa­do pela mes­ma coi­sa que eu, e andá­va­mos tro­can­do emails sobre as nos­sas expe­ri­ên­ci­as — e era incrí­vel notar como ela se man­ti­nha sere­na, diver­ti­da e aten­ci­o­sa, mes­mo no meio de um tumul­to par­ti­cu­lar de pro­por­ções ini­ma­gi­ná­veis. Não bas­tas­se todo o talen­to pro­fis­si­o­nal, toda a inte­li­gên­cia e sen­si­bi­li­da­de, a Chris foi uma das pes­so­as mais gene­ro­sas que eu já conhe­ci, des­sas que te olham no olho e que­rem que você dê cer­to e seja feliz. E o que é que a gen­te faz quan­do alguém assim vai embo­ra?

Saber o quan­to o mun­do pode ser atroz e injus­to é uma coi­sa; expe­ri­men­tar isso, por mais que não seja a pri­mei­ra vez, é sem­pre um atro­pe­la­men­to, um peque­no mas­sa­cre. Passei os últi­mos dias relen­do os emails que tro­quei com a Chris, como se fos­se con­se­guir extrair algo novo dali, algu­ma pala­vra que eu não pes­quei, algum pen­sa­men­to sol­to e reve­la­dor, mas ago­ra as men­sa­gens só me dizem uma coi­sa: uma pes­soa esplên­di­da não está mais por aqui. E não tem con­tor­ção do raci­o­cí­nio que dê jei­to numa ver­da­de como essa.

Enfim, meu. Que pri­ma­ve­ra difí­cil. Foi bom tro­car essas car­tas com você, mas ago­ra não sei direi­to como ter­mi­nar esse tro­ço. No últi­mo dia 13 fez nove meses que eu che­guei em Chicago. Nove meses de bibli­o­te­ca, de pou­co sono, de cor­re­ria. Nove meses de gaguei­ra e de trem fedi­do. Nove meses colo­can­do a mão pela jane­la e ten­tan­do adi­vi­nhar a tem­pe­ra­tu­ra. (Nove meses erran­do a tem­pe­ra­tu­ra). Nove meses em que, por algum ins­tin­to auto­des­tru­ti­vo, achei que tudo ia aca­bar indo pro bre­jo, e nada foi, nun­ca.

Continuo espe­ran­do a tua visi­ta. Mas venha nas féri­as, quan­do dei­xo de ser um molus­co e vol­to a ser um homem, ou algo pare­ci­do com isso. Tenho que te levar no Hopleaf, um des­ses bares para a eter­ni­da­de, de pre­fe­rên­cia no fim de tar­de, quan­do a mul­ti­dão ain­da não che­gou e o bal­cão de madei­ra ganha a visi­ta do sol. Beberemos um pint de Daisy Cutter, uma cer­ve­ja local de fazer tre­mer o pala­to, e brin­da­re­mos a nós, à Chris, a tudo o que quer que con­ti­nue valen­do a pena. Te cui­da aí, cabrón.

Um abra­ço,

Chico

* Na ima­gem da home que ilus­tra esse post: um recor­te de “New York movie”, de Edward Hopper.

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