Uma visão sombria do Brasil

No cinema

12.04.13

Uma história de amor e fúria

Uma his­tó­ria de amor e fúria, de Luiz Bolognesi, é uma obra sin­gu­lar na cine­ma­to­gra­fia bra­si­lei­ra. Em resu­mo, é uma ani­ma­ção que bus­ca con­tar seis­cen­tos anos da his­tó­ria do país por meio de um per­so­na­gem que nun­ca mor­re.

É um guer­rei­ro tupi­nam­bá, dubla­do por Selton Mello, que res­sur­ge em suces­si­vos ava­ta­res: um revol­to­so da Balaiada (Maranhão, 1838–40), um guer­ri­lhei­ro con­tra a dita­du­ra mili­tar (1968), um jor­na­lis­ta desi­lu­di­do no Rio de Janeiro do futu­ro (2096). Em todas as suas encar­na­ções ele tem a mes­ma ama­da, Janaína (dubla­da por Camila Pitanga). É ela que jus­ti­fi­ca a pala­vra “amor” no títu­lo. O res­to é pura fúria.

http://www.youtube.com/watch?v=e8pzqnvV4AY

Por sua ambi­ção e pio­nei­ris­mo, o fil­me abre flan­cos para inú­me­ras crí­ti­cas, algu­mas delas per­ti­nen­tes, outras nem tan­to. Sem entrar no méri­to téc­ni­co-esté­ti­co da ani­ma­ção pro­pri­a­men­te dita — que me pare­ce bas­tan­te satis­fa­tó­ria em sua opção bási­ca pelo arte­sa­na­to, com a tec­no­lo­gia digi­tal entran­do como refor­ço, não como feti­che -, o pri­mei­ro aspec­to a ser dis­cu­ti­do é a sim­pli­fi­ca­ção bru­tal da his­tó­ria do Brasil como uma suces­são de con­fron­tos san­gren­tos entre opres­so­res e opri­mi­dos.

Há um lado sau­dá­vel nes­sa revi­são his­tó­ri­ca, o de se con­tra­por à ver­são ofi­ci­al dos ven­ce­do­res e à ideia de uma nação har­mo­ni­o­sa, de um povo pací­fi­co, “cor­di­al” no sen­ti­do frou­xo da pala­vra. Além dis­so, um cer­to aplai­na­men­to das nuan­ces e ares­tas tal­vez seja ine­ren­te à lin­gua­gem da ani­ma­ção. Tudo deve ser sim­ples, dire­to, con­tras­ta­do, ime­di­a­ta­men­te legí­vel.

Visão som­bria

Subsiste, no entan­to, o pro­ble­ma do mani­queís­mo, do povo bom con­tra a eli­te cru­el. E tam­bém de uma visão da his­tó­ria como uma pro­gres­são tele­o­ló­gi­ca rumo a um des­fe­cho dado des­de sem­pre — a eman­ci­pa­ção dos opri­mi­dos ou a heca­tom­be defi­ni­ti­va. Cabe cote­jar essa abor­da­gem com a de outra obra curi­o­sa­men­te aná­lo­ga, mas em outro regis­tro, o cau­da­lo­so roman­ce Viva o povo bra­si­lei­ro, de João Ubaldo Ribeiro, no qual abun­dam as nuan­ces e o humor que estão ausen­tes de Uma his­tó­ria…

Uma história de amor e fúria

Outro pon­to vul­ne­rá­vel é a per­cep­ção som­bria, deses­pe­ran­ça­da, que pre­va­le­ce no fil­me. A his­tó­ria con­ta­da por Bolognesi é um inven­tá­rio de der­ro­tas, e o futu­ro ima­gi­na­do por ele é uma sinis­tra dis­to­pia: no Rio do final do sécu­lo 21 a mai­or rique­za, a água, é mani­pu­la­da por uma eli­te sem escrú­pu­los, e a soci­e­da­de é con­tro­la­da por milí­ci­as pri­va­das.

O pro­ble­ma mai­or, no caso, tal­vez nem seja o dida­tis­mo e o pro­se­li­tis­mo apon­ta­dos por outros crí­ti­cos, mas o sen­ti­do des­sa ope­ra­ção. Se o fil­me se diri­ge prin­ci­pal­men­te aos jovens, tal­vez estes sai­am do cine­ma per­gun­tan­do: por que lutar con­tra os pode­ro­sos, se no fim sem­pre aca­ba­mos per­den­do? Só pelo roman­tis­mo do ges­to? Uma per­gun­ta aces­só­ria seria: em todos os momen­tos retra­ta­dos, não have­ria outros mei­os de bus­car trans­for­mar o mun­do além do con­fron­to arma­do?

Barbárie e deca­dên­cia

Dito isso, sem que­rer soar para­do­xal, Uma his­tó­ria de amor e fúria mere­ce ser vis­to por sua for­ça, sua cora­gem e gene­ro­si­da­de. Ao anó­di­no, seu rea­li­za­dor pre­fe­riu o radi­cal. Ao mor­no, o infla­ma­do. Não ficou em cima do muro, deu a cara para bater.

Uma história de amor e fúria

À par­te isso, há acha­dos visu­ais dig­nos de nota. O mais evi­den­te deles é o do Cristo Redentor em dois momen­tos: o da épo­ca da colo­ni­za­ção, em que a está­tua ain­da não exis­ten­te é suge­ri­da pela figu­ra do guer­rei­ro de bra­ços aber­tos no alto do Corcovado, e o Cristo muti­la­do e picha­do de 2096. Entre o pré-Cristo e o pós-Cristo se ins­ta­la toda uma visão do Brasil como nação que, como diria Lévi-Strauss, pas­sa da bar­bá­rie à deca­dên­cia sem conhe­cer a civi­li­za­ção.

Hawks com­ple­to

Começa hoje (12 de abril) e dura um mês, no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, uma fes­ta ini­gua­lá­vel para os ciné­fi­los: a Mostra Howard Hawks Integral, com mais de qua­ren­ta fil­mes do dire­tor.

Do fil­me de gângs­ter (Scarface) à comé­dia malu­ca (Levada da bre­ca), do wes­tern (Rio Bravo) ao poli­ci­al noir (À bei­ra do abis­mo), pas­san­do pelo fil­me de guer­ra (Sargento York) e pelo épi­co bíbli­co (Terra dos faraós), todo o cine­ma clás­si­co ame­ri­ca­no, em sua for­ma mais ele­va­da, está con­ti­do nes­sa fil­mo­gra­fia.

Para com­ple­tar, em para­le­lo à mos­tra, have­rá o cur­so “Hawks: o gênio à altu­ra do homem”, minis­tra­do por Inácio Araujo, e pales­tras de estu­di­o­sos do cali­bre de João Luiz Vieira, Ana Lúcia Andrade e Luiz Soares Júnior. Só cabe espe­rar que essa mara­vi­lha se esten­da a outras cida­des do país.

A títu­lo de ape­ri­ti­vo, aqui vai a cena de aber­tu­ra de Rio Bravo — Onde come­ça o infer­no, um exem­plo extra­or­di­ná­rio do cine­ma subs­tan­ti­vo de Howard Hawks, em que a ten­são dra­má­ti­ca con­duz nos­so olhar sem rodei­os e sem con­ver­sa joga­da fora (mas com humor):

http://www.youtube.com/watch?v=UbfMR06cllA

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