Universo paralelo

Correspondência

25.03.11

André,

Como sempre, tu deixou um vazio, e não falo apenas por mim. Falo pelos nossos amigos, que nunca esquecerão da maneira como tu vulcanizou a pista de dança na despedida do Elvis, e pela cidade, que está mesmo em boa fase e tem um slot dedicado pra ti. Meus pais folgam em saber que tu foi bem alimentado e tratado no churrasco de domingo e o pai manda avisar que sempre haverá uma paletinha de ovelha te esperando na Esplanada. O Zeca também manda uma focinhada afetuosa. Espero que não tenha ficado muito traumatizado quando ele tentou fazer amor peludo com a tua perna, abdômen, tórax – com o teu corpo inteiro, na verdade. Ele não sabe falar, e essa é a única maneira que um golden retriever tem de expressar admiração e carinho.

Também continuei ouvindo Lobão depois daquela tarde de sábado. Que grande disco, o A Vida é Doce, hein? Sempre admirei muito a obra musical do Lobão – Sozinha Minha, Mal Nenhum, todas do A Vida é Doce… pra não falar nas clássicas como Chorando no Campo, Rádio Blá… O problema do Lobão – sem entrar em questões de atitude, postura de mercado, biografia etc, que no fundo não me interessam (o que me interessa, apenas, é que ainda não é verão, nem Carnaval) – é o mesmo problema do Lulu Santos, outro maravilhoso compositor: os arranjos dos discos, e aquela sonoridade brasileira oitentista, são brega pacas. Bateria com reverb, aquele baixo sempre meio agudo demais, os efeitos cafonas de guitarra… mas às vezes, numa versão acústica ou num show ao vivo, a força das composições vem à tona, e com o tempo o ouvinte de coração aberto aprende a relevar as questões de arranjo e execução. O lendário EGS, que tu conheceu lá na festa (que festa, hein?), já disse que tem interesse em se unir a mim no projeto de uma banda chamada Lobão Tocado Direito, que tocaria direito todo o repertório do Lobão. Vamos ver se sai ainda esse ano.

Tenho saudade de tocar em banda. Pena que tu não chegou a ver a Blanched, da qual fui baixista e guitarrista por uns anos, tocar ao vivo. Pós-rock majoritariamente instrumental. A gente fazia uns poucos shows em Porto Alegre, São Leopoldo e Novo Hamburgo, mas tinha um grupo fiel de fãs que sempre aparecia e era uma barulheira infernal. As referências eram bandas como Low, Sonic Youth, Slint, Mogwai. Chegamos a tocar em Curitiba, duas vezes. Hoje a minha guitarra tá estragada, não vejo ela faz anos, deve estar num canto da casa dos meus pais. Só toco violão sozinho em casa, bolando músicas instrumentais que fico sonhando em gravar com equipamento caseiro um dia. Falta o equipamento, todavia. E o tempo. Não consigo escrever letra de música e não sei cantar, embora tenha me arriscado no microfone algumas vezes, anos atrás, em jam sessions insanas no velho Garagem Hermética nas quais rolava de Caetano Veloso a Smashing Pumpkins.

A única vez em que peguei o violão e cantei pra uma pequena plateia foi na Praia da Pinheira, a mesma em que estive esses tempos e que mencionei numa carta anterior. A história é meio comprida e começa com três amigos – eu e outros dois que chamarei apenas de Bilo e El León de Chácara – decidindo que iríamos viajar de bicicleta pelo litoral catarinense. Idade: 19 anos. Dois meses depois a gente tava num ônibus interestadual, indo a Jaguaruna/SC, com as bicicletas, barracas e mochilas no bagageiro. Não tivemos nenhuma espécie de preparo físico ou logístico. Não demos a menor atenção para equipamentos, ferramentas, roupas adequadas. Não havia sequer um plano muito definido. O plano era descer em Jaguaruna e ir subindo pro norte, dormindo em barraca, sem jamais pegar o asfalto, pedalando sempre pelos morros e praias.

Logo no primeiro dia, choveu como se não houvesse amanhã. Enrolamos as mochilas toscamente em sacos de lixo pretos, mas tudo ficou molhado mesmo assim. As bicicletas começaram a quebrar e oxidar em questão de horas. Mas a gente não tava nem aí. No primeiro dia, passamos pelo Maior Sambaqui do Mundo, em Jaguaruna. Pedalamos pelo Farol de Santa Marta e dormimos em Laguna. A cervejinha pra descansar se transformou num trago sem limites, mas acordamos cedo e partimos com entusiasmo, passando por Itapirubá, Ibiraquera, até a Praia do Rosa, onde acampamos no mato. No dia seguinte, fomos até Garopaba. O cansaço começou a nos vencer. Fui picado por uma abelha, tive uma reação alérgica e minha mão ficou do tamanho de uma peça inteira de contrafilé. Dane-se. Éramos jovens e invencíveis. Bastava seguir pedalando, os músculos doendo, queimaduras de sol horrendas, assaduras, uma crosta de sal na cara. Mas as paisagens, e a adrenalina das descidas de morro e a sensação de inconsequência eram o que realmente importava.

No quarto dia, porém, a coisa ficou meio feia. El León de Chácara nos abandonou em Garopaba porque tinha que voltar a Porto Alegre pra atuar numa peça de teatro (não estou inventando nada disso) e eu e Bilo seguimos com o objetivo de ir até a Pinheira. A exaustão física começou a chegar ao limite do suportável, e nessa hora, na Praia da Gamboa, meu pneu estourou. Eu tinha levado remendos, mas é óbvio que não tinha know-how nem equipamento adequado pra tirar e reinstalar a roda traseira, então fomos caminhando pela Guarda (6km de areia fofa) até a Pinheira (mais uns 3km de geografia variada) e acampamos no Camping do Nico, completamente derrotados. Passamos três dias lá deitados na sombra ao lado das barracas, bêbados, sofrendo cãimbras desumanas e escutando fitas cassete no walkman. As bicicletas estavam quebradas e enferrujadas e não tínhamos mais para onde ir.

O camping estava vazio, era fora de temporada. Tinha uma conhecida nossa, a Cláudia. E tinha uma dupla de rapazes afeminados que chamavam um ao outro de “bicha” e “filha do demo”. Um era loiro e outro era moreno e tinha uma cicatriz respeitável no rosto, daquelas que atravessam a cara. Gostavam de contar das brigas em que se metiam, e eram histórias quase inacreditáveis que envolviam facada, cadeirada na cabeça etc. Muito divertidos, excelente companhia. Por insistência deles, fomos beber num bar que havia ali perto. Tinha um palquinho com violão, e acho que uma mina tocou um pouco e foi embora, e o violão ficou ali. Em algum momento da noite, decidi que pegaria o violão e tocaria pra dúzia de pessoas que estava no bar. Acho que toquei umas dez músicas. Os tremores, a amnésia e a gagueira que me assaltam nesse tipo de situação não apareceram aquela vez. Lembro que toquei Killer Cars do Radiohead e alguma coisa do Zeca Baleiro. Fui tocando tudo que eu lembrava. Uma hora cansei e levantei pra ir embora, mas alguém pediu pra continuar, e eu ainda tinha umas duas ou três musiquinhas na memória.

Nada como aquilo jamais se repetiu. Não sei se foi o fato de estar numa prainha fora de temporada, ou o estado alcoólico, ou talvez a sensação culminante de (vai, Lobão:) univerrrso paralelo que bateu no fim daquela aventura. Tenho pavor de palco e pavor de usar a voz em público, e só com a Blanched, fazendo a minha parte no meio de algo maior, é que me sentia mais ou menos seguro. No dia seguinte, enfiamos as bicicletas no bagageiro de um ônibus e voltamos a Porto Alegre.

Ah, uma das músicas que toquei aquele dia foi Me Chama. Sabia que tinha alguma ligação com Lobão.

Encerro essa cartinha por aqui, André. Tinha umas coisas novas pra contar, e queria até uns conselhos, mas vou me conter por enquanto. Tô cansado. Começou a chover hoje, mas tá quente e abafado. Ansioso pelo inverno.

Abraço,

D. Galera

PS. Concordo que Alex Rod é nosso norte moral.

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