O cineasta Julio Bressane

Enric Vives-Rubio

O cineasta Julio Bressane

Urgentes, na contramão

No cinema

12.05.17

Não há tem­po nem espa­ço para abor­dar todos os fil­mes rele­van­tes em car­taz. Cabe então falar dos mais urgen­tes, isto é, daque­les que, por tra­fe­ga­rem na con­tra­mão do mer­ca­do, cor­rem o ris­co de ser logo expe­li­dos do cir­cui­to exi­bi­dor. Comecemos por Beduíno, o novo fil­me de Julio Bressane.

Bressane é o mais exi­gen­te, mas tam­bém o mais gene­ro­so de nos­sos cine­as­tas. Muito mais que uma col­cha de refe­rên­ci­as eru­di­tas inti­mi­da­do­ras, cada fil­me seu é um orga­nis­mo que desa­fia o espec­ta­dor, ao colo­car em siner­gia idei­as e sig­nos de vári­as fon­tes (o Oriente, a Grécia, a tra­di­ção judai­co-cris­tã, as civi­li­za­ções pré-colom­bi­a­nas, a cul­tu­ra popu­lar-indus­tri­al) para a pro­du­ção de novos sen­ti­dos.

Em Beduíno, tudo come­ça no encon­tro entre um homem (Fernando Eiras) e uma mulher (Alessandra Negrini), que pas­sam a viver as mais diver­sas situ­a­ções, os mais diver­sos papéis, no que pare­cem ser peque­nos esque­tes inde­pen­den­tes, em geral no inte­ri­or do mes­mo ambi­en­te. Nesse espa­ço ambí­guo, que com­bi­na sala de estar/jantar, alco­va e bibli­o­te­ca, os per­so­na­gens são trans­por­ta­dos, por efei­tos de luz, som e ceno­gra­fia, a dife­ren­tes con­tex­tos geo­grá­fi­cos e huma­nos.

Eros e Apolo

O que se cria, por­tan­to, é um espa­ço maleá­vel e atem­po­ral, ou mais pro­pri­a­men­te trans-tem­po­ral, que é o ter­ri­tó­rio de Bressane por exce­lên­cia. Trata-se de levar adi­an­te uma inves­ti­ga­ção, uma pros­pec­ção, que carac­te­ri­za pra­ti­ca­men­te todo o seu cine­ma: a do ero­tis­mo como elo entre a natu­re­za e a cul­tu­ra.

No cen­tro do fil­me há um diá­lo­go que tal­vez aju­de a ilu­mi­nar não ape­nas suas idei­as, mas tam­bém seu méto­do. A mulher per­gun­ta ao homem: como con­ter a car­ne vio­len­ta num cor­po ele­gan­te? Ele res­pon­de que há dois mei­os: con­for­má-la no már­mo­re ou na mur­ta. No pri­mei­ro caso, o tra­ba­lho é mais árduo e demo­ra­do, mas o resul­ta­do “fica para sem­pre”. No segun­do, a rea­li­za­ção é mais fácil, mas requer repa­ros cons­tan­tes, para que a for­ma não se desor­de­ne e vol­te ao esta­do sel­va­gem.

A ima­gem é extraí­da de um ser­mão do Padre Antonio Vieira, que a usou para com­pa­rar a evan­ge­li­za­ção dos pagãos euro­peus com a cate­qui­za­ção dos índi­os da América. Bressane a des­lo­ca para o con­tex­to da cul­tu­ra gre­co-lati­na, res­sig­ni­fi­can­do-a. É qua­se como se a per­gun­ta pas­sas­se a ser: como con­ci­li­ar Eros e Apolo, a pul­são vital e a for­ma har­mo­ni­o­sa, o cor­po e o espí­ri­to?

São inú­me­ras as manei­ras pelas quais essas for­ças inte­ra­gem, inú­me­ras as ima­gens pro­du­zi­das por esse atri­to. Algumas são memo­rá­veis, como a cena em que um tren­zi­nho de brin­que­do “atra­ves­sa” o cor­po nu da mulher que, de qua­tro, ser­ve-lhe de túnel e topo­gra­fia cir­cun­dan­te.

Em seus meros 75 minu­tos, Beduíno encon­tra ain­da um meio de revi­si­tar e revi­ta­li­zar pon­tos lumi­no­sos da fil­mo­gra­fia do dire­tor, como Memórias de um estran­gu­la­dor de loi­ras (1971) e A fada do Oriente (1972). O assas­si­no pro­ta­go­nis­ta do pri­mei­ro, vivi­do pelo ines­que­cí­vel Guará Rodrigues, ganha ago­ra toda uma bio­gra­fia ocul­ta de sábio mul­ti­dis­ci­pli­nar, conhe­ce­dor des­de a ana­to­mia dos pes­co­ços até a con­fi­gu­ra­ção dos astros e a cons­ti­tui­ção das plan­tas. O ima­gi­ná­rio é uma ener­gia que não ces­sa de se auto-ali­men­tar, e tal­vez seja essa a lição supre­ma dos fil­mes de Julio Bressane.

Éden no infer­no

Por um feliz aca­so, está em car­taz tam­bém um fil­me de um des­ta­ca­do dis­cí­pu­lo e par­cei­ro cine­ma­to­grá­fi­co de Bressane, Bruno Safadi. Trata-se de Éden, rea­li­za­do em 2013, mas que só ago­ra che­ga aos cine­mas.

Num pri­mei­ro olhar, é um lon­ga-metra­gem mais “rea­lis­ta” que o res­tan­te da fil­mo­gra­fia do jovem dire­tor, mar­ca­da por uma abor­da­gem, diga­mos, poé­ti­co-ale­gó­ri­ca de seus temas (Meu nome é Dindi, O pre­fei­to). Ambientado num con­tex­to soci­al mui­to con­cre­to – um bair­ro pobre da Baixada Fluminense, onde a vio­lên­cia do cri­me con­vi­ve com a bus­ca de hege­mo­nia reli­gi­o­sa –, o fil­me apa­ren­te­men­te se con­for­ma a uma cons­tru­ção nar­ra­ti­va mais con­ven­ci­o­nal: per­so­na­gens bem cons­truí­dos, enre­do coe­ren­te, veros­si­mi­lhan­ça da ação, pro­fun­di­da­de psi­co­ló­gi­ca.

Conta o dra­ma de uma jovem em esta­do de gra­vi­dez avan­ça­da, Karine (a extra­or­di­ná­ria Leandra Leal), que é leva­da pelo irmão (Julio Andrade) à neo­pe­ten­cos­tal Igreja do Éden para ten­tar se reer­guer depois que o namo­ra­do foi assas­si­na­do, apa­ren­te­men­te numa dis­pu­ta de gan­gues. O pas­tor que coman­da a igre­ja (João Miguel) con­ven­ce Karine a par­ti­ci­par de uma cam­pa­nha con­tra a vio­lên­cia na região, que pro­duz tan­tos “filhos sem pai”. O pro­ble­ma é que sua com­pa­nhei­ra de cam­pa­nha, tam­bém grá­vi­da, é mulher do pró­prio rapaz que matou o pai do filho de Karine.

Examinando melhor a manei­ra como Safadi con­ta essa his­tó­ria, é pos­sí­vel cons­ta­tar que, lon­ge de ter aban­do­na­do seu esti­lo em favor de um rea­lis­mo con­ven­ci­o­nal, o que ele fez foi incor­po­rar um cer­to rea­lis­mo à sua poé­ti­ca, ao seu uni­ver­so.

Isso se dá, a meu ver, por duas vias. Por um lado há, des­de a pri­mei­ra ima­gem – Karine dei­ta­da no fun­do de uma pis­ci­na vazia, fil­ma­da com câme­ra alta –, uma con­fluên­cia de dados (nar­ra­ti­vos e esté­ti­cos) para o moti­vo da água, do ele­men­to líqui­do. Na água ocor­rem momen­tos cru­ci­ais (o sexo com o namo­ra­do, a carí­cia ao filho que ain­da está na bar­ri­ga, o batis­mo na igre­ja). Remete-se, de dis­tin­tas manei­ras, à con­di­ção da gra­vi­dez, essa exis­tên­cia pre­cá­ria de um ser num ambi­en­te líqui­do.

Piscinas vazi­as sob a chu­va, pos­ta­das na ver­ti­cal, cober­tas por telas semi­trans­pa­ren­tes, con­fi­gu­ram estra­nhos totens, abrin­do cami­nho para uma segun­da apro­pri­a­ção dos ele­men­tos rea­lis­tas pela poé­ti­ca do dire­tor: a cons­tru­ção de uma atmos­fe­ra sinis­tra a cer­car essa gra­vi­dez, num diá­lo­go sutil com o gêne­ro do ter­ror. Há algo de ame­a­ça­dor, qua­se de O bebê de Rosemary ou de O ilu­mi­na­do, na flui­dez da câme­ra que per­cor­re os cor­re­do­res da “paró­quia” onde Karine é pra­ti­ca­men­te uma pri­si­o­nei­ra. Toda gra­vi­dez, afi­nal, é um esta­do de sus­pen­se, e Éden tal­vez ape­nas exa­cer­be isso num con­tex­to de extre­ma ten­são. Não por aca­so, o cine­as­ta dedi­ca o fil­me a seu filho.

Crônica da demo­li­ção

Sobrou pou­co espa­ço, mas não pode pas­sar sem regis­tro o lan­ça­men­to de um docu­men­tá­rio inte­res­san­tís­si­mo, Crônica da demo­li­ção, de Eduardo Ades, que par­te da der­ru­ba­da do céle­bre Palácio Monroe, em 1976, para falar das vio­len­tas trans­for­ma­ções da pai­sa­gem urba­na do Rio de Janeiro, em espe­ci­al do cen­tro da cida­de, ao lon­go de um sécu­lo.

Mesclando um rico e raro mate­ri­al de arqui­vo (regis­tros bra­si­lei­ros, nor­te-ame­ri­ca­nos e euro­peus de diver­sos momen­tos da his­tó­ria da cida­de) com depoi­men­tos de arqui­te­tos, enge­nhei­ros e admi­nis­tra­do­res, o fil­me expõe os nexos entre as con­cep­ções arqui­tetô­ni­cas e urba­nís­ti­cas e os inte­res­ses econô­mi­cos e polí­ti­cos que tor­na­ram a cida­de um ver­da­dei­ro palimp­ses­to, com uma nova pai­sa­gem urba­na se sobre­pon­do à ante­ri­or a cada três ou qua­tro déca­das. Embora sin­gu­lar em sua topo­gra­fia e em sua his­tó­ria, a des­fi­gu­ra­ção arqui­tetô­ni­ca do Rio reve­la mui­to do pro­ces­so sel­va­gem e pre­da­tó­rio de cres­ci­men­to das nos­sas cida­des, sobre­tu­do depois que elas se tor­na­ram impé­ri­os do auto­mó­vel. Vale a pena con­fe­rir.

* Crônica da demo­li­ção tam­bém está em car­taz no cine­ma do IMS do Rio de Janeiro.

, , , , , , , , , , , , , , ,