Vai que dá certo o super nada

No cinema

28.03.13

Dois fil­mes bra­si­lei­ros em car­taz são dig­nos de nota por moti­vos bem dife­ren­tes: Vai que dá cer­to, de Mauricio Farias, e Super Nada, de Rossana Foglia e Rubens Rewald (não con­fun­dir com o crí­ti­co Rubens Ewald Filho). Comecemos pelo pri­mei­ro.

Boa par­te da crí­ti­ca se apres­sou em lan­çar suma­ri­a­men­te Vai que dá cer­to à vala comum das comé­di­as imbe­ci­li­zan­tes da Globo Filmes. O suces­so de bilhe­te­ria, bem como as gar­ga­lha­das no cine­ma, seri­am mero fru­to da infan­ti­li­za­ção do públi­co.

http://www.youtube.com/watch?v=dB_D0rfUR3g
Ouso dis­cor­dar. Não que seja um gran­de fil­me. Com seu acú­mu­lo de cli­chês, sua dire­ção vaci­lan­te e suas pia­das óbvi­as, tal­vez não seja sequer um bom fil­me. Mas é dig­na de inte­res­se sua ten­ta­ti­va de infun­dir algum san­gue novo nas cha­ma­das “glo­bo­chan­cha­das” ao bus­car o influ­xo do humor rápi­do e mor­daz sur­gi­do nos últi­mos tem­pos na inter­net, em espe­ci­al o do gru­po Porta dos Fundos, de que fazem par­te Fábio Porchat e Gregório Duvivier, pre­sen­tes no elen­co. Mais que isso: Porchat é co-rotei­ris­ta de Vai que dá cer­to.

O que há de pior são os pri­mei­ros quin­ze ou vin­te minu­tos, em que o dire­tor pare­ce inde­ci­so entre apre­sen­tar os per­so­na­gens ou mas­sa­crar o espec­ta­dor com um acú­mu­lo de pia­di­nhas ver­bais. Aqui a pas­sa­gem da lin­gua­gem ins­tan­tâ­nea da inter­net para o cine­ma pare­ce não ter sido bem ope­ra­da: a ambi­en­ta­ção (uma qua­dra de fute­bol soci­ety e o bar ane­xo) é frou­xa, a câme­ra pare­ce posi­ci­o­na­da sem cri­té­rio, os ato­res se limi­tam a dis­pa­rar uma suces­são fre­né­ti­ca de pia­das que aca­bam por se anu­lar umas às outras. Aquilo que é essen­ci­al para o humor cine­ma­to­grá­fi­co — o rit­mo pre­ci­so das falas, dos silên­ci­os, dos ges­tos e olha­res — está ausen­te por com­ple­to. E tome, em vez dis­so, o humor fácil de bêba­dos e de pei­dos.

Os cin­co lou­cos

As coi­sas melho­ram sen­si­vel­men­te quan­do entra­mos na tra­ma pro­pri­a­men­te dita: que­bra­dos e sem pers­pec­ti­vas, os cin­co ami­gos pla­ne­jam um assal­to a um car­ro-for­te. Como são inep­tos, a um pas­so da debi­li­da­de men­tal, tudo dá erra­do, cla­ro.

O esque­ma de um ban­do de des­gra­ça­dos que, movi­dos pelo deses­pe­ro, pla­ne­jam um gran­de gol­pe con­fi­gu­ra qua­se um gêne­ro à par­te, e ren­deu obras memo­rá­veis como o roman­ce Os sete lou­cos, do argen­ti­no Roberto Arlt, e a comé­dia Os eter­nos des­co­nhe­ci­dos, de Mario Monicelli. No pró­prio cine­ma bra­si­lei­ro recen­te, há o caso do notá­vel Se nada mais der cer­to, de José Eduardo Belmonte, cujo títu­lo curi­o­sa­men­te ecoa no do fil­me de Mauricio Farias.

Se hou­ves­se em Vai que dá cer­to um rotei­ro mais ela­bo­ra­do e uma dire­ção mais cri­a­ti­va, esta­ría­mos no ter­re­no de fil­mes dos irmãos Coen como Fargo, E aí meu irmão, cadê você? e Queime depois de ler. A dife­ren­ça, além do des­ní­vel de qua­li­da­de, é que os Coen sati­ri­zam de modo impi­e­do­so a obtu­si­da­de de seus per­so­na­gens, vis­tos como encar­na­ções da idi­o­tia da América pro­fun­da, e o fil­me bra­si­lei­ro hesi­ta entre a crí­ti­ca e ade­são a suas atra­pa­lha­das cri­a­tu­ras. No final à bra­si­lei­ra, pre­va­le­ce o jei­ti­nho con­ci­li­a­tó­rio e tudo aca­ba bem. Tenho dúvi­das se isso, com­pa­ra­ti­va­men­te, é um defei­to ou uma vir­tu­de.

Luzes (apa­ga­das) da ribal­ta

Em comum com Vai que dá cer­to, Super Nada só tem a cida­de em que foi fil­ma­do (São Paulo) e o fato de lidar com per­so­na­gens de clas­se média sem dinhei­ro e sem pers­pec­ti­vas. À esté­ti­ca da satu­ra­ção do pri­mei­ro se con­tra­põe uma cer­ta poé­ti­ca da rare­fa­ção do segun­do. O exces­so e o vazio.

Com o foco cen­tra­do num mími­co e ator de tea­tro qua­se anô­ni­mo, Guto (o exce­len­te Marat Descartes), que vive entre peque­nos espe­tá­cu­los alter­na­ti­vos, shows em semá­fo­ros, tes­tes para comer­ci­ais e a espe­ran­ça de um lugar ao sol (leia-se na TV), o fil­me de Rossana e Rewald abor­da o ofí­cio do ator num mun­do hos­til à fan­ta­sia e à arte.

http://www.youtube.com/watch?v=NCUsoYK2A_8
Se em Vai que dá cer­to a ambi­en­ta­ção em São Paulo soa gra­tui­ta e arti­fi­ci­al, com os ato­res cari­o­cas for­jan­do um supos­to sota­que pau­lis­ta­no, em Super Nada os per­so­na­gens estão orga­ni­ca­men­te entra­nha­dos na cida­de, em suas ruas duras, seus becos sujos, seus sub­so­los onde flo­res­cem ines­pe­ra­das mani­fes­ta­ções poé­ti­cas e afe­ti­vas.

O gran­de acha­do dra­má­ti­co do fil­me, como mui­to já se dis­se, foi a esca­la­ção do can­tor Jair Rodrigues como um vete­ra­no cômi­co de TV, fazen­do o con­tra­pon­to com o pro­ta­go­nis­ta Guto. Um, ini­ci­an­te, alme­ja o suces­so que o outro, deca­den­te, hoje só vê pelo retro­vi­sor.

O que o fil­me tem de melhor, a meu ver, é a expo­si­ção dos ato­res, em espe­ci­al do pro­ta­go­nis­ta, como cor­pos ora em con­fli­to, ora em har­mo­nia com o ambi­en­te à sua vol­ta. A con­ti­nui­da­de entre os vári­os cená­ri­os (tea­tro, bar, estú­dio de tele­vi­são, fes­ta, rua) e as vári­as situ­a­ções (espe­tá­cu­lo, ensaio, rela­ção pai/filha, namo­ro) se dá, no mais das vezes, pelos movi­men­tos repe­ti­dos ou aná­lo­gos do ator Marat Descartes. É ele que leva o dra­ma con­si­go, inse­ri­do em sua ana­to­mia.

O que me decep­ci­o­nou um pou­co, tal­vez por con­ta da expec­ta­ti­va cri­a­da pelos pri­mei­ros comen­tá­ri­os de quem viu o fil­me, foi jus­ta­men­te a atu­a­ção de Jair Rodrigues, ou tal­vez o modo como ela foi explo­ra­da em cena. As sequên­ci­as de ensaio e gra­va­ção de seu esque­te tele­vi­si­vo me pare­ce­ram pou­co tra­ba­lha­das nos diá­lo­gos e na mise-en-scè­ne. São, quem sabe deli­be­ra­da­men­te, momen­tos sem gra­ça — tan­to no sen­ti­do da fal­ta de humor como de poe­sia.

Super Nada dia­lo­ga com pelo menos dois outros fil­mes recen­tes de jovens rea­li­za­do­res bra­si­lei­ros: Riscado (2010), de Gustavo Pizzi, que retra­ta a rea­li­da­de tra­gicô­mi­ca de uma atriz ini­ci­an­te, e O Palhaço (2011), de Selton Mello, que tam­bém rea­bi­li­ta um vete­ra­no ator/cantor que anda­va esque­ci­do (Moacir Franco), além de outras velhas figu­ras da tele­vi­são (Jorge Loredo, Ferrugem etc.). Todos os três são belas decla­ra­ções de amor ao duro ofí­cio de fazer do cor­po e da voz um ins­tru­men­to para diver­tir o públi­co.

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