Vaia ecumênica

Colunistas

14.09.16

Nunca havia assis­ti­do aos Jogos Paraolímpicos. Assisti à aber­tu­ra com um nó na gar­gan­ta. Eu não ima­gi­na­va que aqui­lo fos­se pos­sí­vel. Não para­va de me per­gun­tar: Quem foi o gênio que inven­tou isso? Quem foi que teve a ideia des­se espe­tá­cu­lo com um poten­ci­al sim­bó­li­co e catár­ti­co sem igual na his­tó­ria da huma­ni­da­de? Quanto esfor­ço não foi des­pen­di­do por gen­te deter­mi­na­da a com­ba­ter a dis­cri­mi­na­ção e os pre­con­cei­tos, para que isso afi­nal pudes­se acon­te­cer?

Não estou falan­do só da aber­tu­ra, mas da aber­tu­ra tam­bém. Não sou fã do tra­ba­lho de Vik Muniz, mas um cora­ção pul­san­te no cen­tro do gra­ma­do do Maracanã como ima­gem da inclu­são (um cora­ção pul­san­te é comum a todos os vivos), coro­an­do a cele­bra­ção de gen­te que lutou com for­ça de von­ta­de sobre-huma­na para ven­cer seus limi­tes e che­gar, por méri­to, aon­de che­gou, é de fato uma ideia feliz. E é por isso que a vaia a Temer ganhou ali um sen­ti­do orgâ­ni­co, ecu­mê­ni­co e reden­tor. Um sen­ti­do espe­ta­cu­lar. Temer era um cor­po estra­nho na aber­tu­ra dos Jogos Paraolímpicos, o opos­to de tudo o que ali se lou­va­va.

A pri­mei­ra vez que ouvi Michel Temer falar em públi­co foi na ses­são de aber­tu­ra da Feira de Frankfurt, em 2013. Michel Temer nun­ca fala­ria na ses­são de aber­tu­ra da Feira de Frankfurt, não fos­se o Brasil o país home­na­ge­a­do naque­le ano em que por coin­ci­dên­cia ele tam­bém era vice-pre­si­den­te. Michel Temer apro­vei­tou a opor­tu­ni­da­de não só para falar como vice-pre­si­den­te do país home­na­ge­a­do, mas para lem­brar que tam­bém era escri­tor, embo­ra não fizes­se par­te da comi­ti­va de escri­to­res con­vi­da­dos. Michel Temer fez ques­tão de dizer aos pre­sen­tes, entre edi­to­res e auto­ri­da­des inter­na­ci­o­nais, que era poe­ta e que por isso mes­mo, mais até do que qual­quer outro polí­ti­co ou auto­ri­da­de, esta­va ali em seu habi­tat natu­ral. Achei por bem sair da sala.

Michel Temer é um homem de opor­tu­ni­da­des, como recen­te­men­te ficou cla­ro para quem não o conhe­cia. Temer não assu­miu só por ordem suces­só­ria natu­ral, enquan­to vice-pre­si­den­te, o car­go de uma pre­si­den­te depos­ta: Temer cons­pi­rou nos bas­ti­do­res para depor a pre­si­den­te elei­ta, da qual ele era vice, e assu­mir seu lugar. A dife­ren­ça é gran­de. É difí­cil dis­so­ci­ar da apa­ren­te pas­si­vi­da­de a dis­si­mu­la­ção. À ima­gem do pre­si­den­te em exer­cí­cio fica­rá cola­da a pecha do opor­tu­nis­ta e do trai­dor. O homem que vai à aber­tu­ra da Feira de Frankfurt, apro­vei­tan­do-se do car­go de vice-pre­si­den­te para pro­cla­mar às auto­ri­da­des inter­na­ci­o­nais que tam­bém é poe­ta, é o mes­mo que cons­pi­ra nos bas­ti­do­res para der­ru­bar a pre­si­den­te, elei­ta pelo voto dire­to e popu­lar, e subs­ti­tuí-la, ocu­pan­do um lugar ao qual jamais ascen­de­ria pelo voto demo­crá­ti­co.

A vaia a Temer na aber­tu­ra dos Jogos Paraolímpicos ganhou assim um sen­ti­do mai­or, éti­co, a favor da demo­cra­cia, para além de ide­o­lo­gi­as e par­ti­dos. Foi um pro­tes­to con­tra apro­vei­ta­do­res e impos­to­res, dian­te do espe­tá­cu­lo incon­tes­tá­vel de pes­so­as deci­di­das a ven­cer por méri­to pró­prio e a lutar con­tra os limi­tes e pre­con­cei­tos que as impe­dem de gozar dos mes­mos direi­tos, da mes­ma visi­bi­li­da­de e do mes­mo res­pei­to garan­ti­do, em prin­cí­pio, ao res­to da soci­e­da­de. O que esta­va em ques­tão na vaia a Temer não eram só os des­man­dos e a cor­rup­ção que asso­lam o país, mas o dese­jo de inclu­são e de mudan­ça, con­tra a expres­são do retro­ces­so que pon­tu­a­va as mani­fes­ta­ções a favor do impe­a­ch­ment com gri­tos de “Quero meu país de vol­ta!”.

Que país? O que não é de todos? Um país de pri­vi­lé­gi­os? De dois pesos e duas medi­das? Um país onde quem tem pla­no de saú­de e esco­la par­ti­cu­lar acha que não tem por que pagar impos­to pela saú­de e a edu­ca­ção de quem não tem? É inte­res­san­te. Os que cons­pi­ra­ram para der­ru­bar o gover­no elei­to, com o pre­tex­to de sanar a eco­no­mia e aca­bar com a cor­rup­ção, não têm mais nenhu­ma des­cul­pa para não fazer nenhu­ma das duas coi­sas. Agora, só lhes res­ta assu­mir a far­sa do con­luio de cons­pi­ra­do­res. É o que a figu­ra de Michel Temer repre­sen­tou tão bem, na tri­bu­na das auto­ri­da­des, no Maracanã, dian­te dos atle­tas para­o­lím­pi­cos. Há um sen­ti­men­to de urgên­cia e de jus­ti­ça na para­o­lim­pía­da que tor­na ain­da mais cons­tran­ge­do­ra e insu­por­tá­vel a impos­tu­ra de quem ten­ta con­fun­dir pri­vi­lé­gio com direi­to, e opor­tu­nis­mo com méri­to.

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